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1ª edição da Flupp leva escritores consagrados a morros do RJ

7 nov 2012
08h53
atualizado às 14h37
Beatriz Carrasco
Direto de São Paulo

Poetas declamam textos, autores discutem ideias, artistas fazem intervenções ao ar livre e telões reproduzem a arte em suas diferentes formas. Essa cena seria comum se não fosse o seu palco: o Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa. Com a proposta de levar reflexões sobre arte, música e literatura aos morros, a primeira Festa Literária Internacional das Upps (Flupp) começa nesta quarta-feira (7), com atividades e mesas de discussão que vão até domingo (11), em diferentes favelas do Rio de Janeiro.

Apesar da semelhança do nome com a Flip - Festa Literária Internacional de Paraty -, não há intuito de consolidar o evento como uma Flip às avessas, afirma o escritor Julio Ludemir, um dos organizadores ao lado do também escritor e pesquisador Ecio Salles, da pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, do antropólogo Luiz Eduardo Soares e do empresário Alexandre Mathias. "A própria ideia da Flupp surgiu dentro da Flip. Vamos ser uma festa diferente, é claro. Mas em momento algum nos vimos como uma anti-Flip ou uma Flip B", esclareceu Ludemir ao Terra.

A abertura da Orquestra de Vozes Meninos do Rio - composta por cerca de mil alunos da rede pública de ensino do Rio de Janeiro -, seguida por uma palestra do dramaturgo Ariano Suassuna, já representa um pouco a mescla cultural que conduzirá o evento. Além de Suassuna, outros nomes de peso subirão o Morro dos Prazeres, como os brasileiros Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Ana Maria Machado e Luiz Ruffato. Entre os estrangeiros estão o alemão Thomas Brussig, o palestino Najwan Darwish e o quadrinista francês Étienne Lécroart.

"O evento é interculturalista, tanto em termos de países, regiões, etnias, gêneros, dicções, etc., como também na convivência entre o analógico e o digital", observa o curador Toni Marques. Além de shows de MV Bill e MC Swat - rapper de Bengazi cujas canções embalaram a revolução líbia durante a Primavera Árabe -, a festa terá discussões fomentadas por escritores periféricos como o brasileiro Allan da Rosa e o jamaicano Kei Miller. Enquanto Allan é ativo no circuito de saraus nas periferias de São Paulo, o poeta e performer Kei aparece como uma importante voz artística do Caribe.

O escritor homenageado nesta primeira edição da Flupp também não foi escolhido por acaso. Criticado pelos parnasianos, Lima Barreto transgrediu os padrões literários de sua época ao utilizar a linguagem do cotidiano. Negro e combatente da grande imprensa, do establishment da Primeira República e da Academia Brasileira de Letras, ele não só era um defensor radical dos oprimidos, mas também era um deles.

Apesar de a festa começar nesta semana, o trabalho dos organizadores nas comunidades teve início há meses, com oficinas e atividades. Com sede no Morro dos Prazeres, ainda serão instalados telões em outros morros, com transmissão das mesas de debate. Confira abaixo a entrevista com Julio Ludemir, escritor e diretor executivo do evento, e a programação completa da Flupp.

Terra - Por que a escolha do Morro dos Prazeres como palco para a festa?
Julio Ludemir - Por ser uma favela central. Queríamos evitar uma favela na zona sul, como o Cantagalo ou Santa Marta, com todos os estereótipos de uma favela de zona sul. Também evitamos uma favela como o Batan, cuja distância nos traria inúmeros problemas logísticos para o evento. Além da centralidade, há o nome Prazeres, que nos remete ao prazer da leitura e ao prazer de se viver em uma comunidade, principalmente quando pacificada. Por fim, mas só percebemos isso depois da escolha, o Morro dos Prazeres nos oferece uma visão 360º da cidade. Queremos que a Flupp lance um olhar com essa abrangência, tanto para a cidade quanto para o livro.

Terra - Qual é a simbologia de se realizar na favela uma festa literária desta proporção?
Ludemir - Não estamos indo para a favela para usá-la como um cenário, embora acreditemos que ela seja um lugar tão representativo do Rio de Janeiro quanto a praia. Também não vamos para a favela por ver nela um local de ausência a ser preenchida por ações de um grupo "iluminado". Não, a favela é um local da cidade como qualquer outro, na verdade mais rico que uma Ipanema, pois temos a clara noção de que foi na favela onde foram forjados os principais símbolos identitários do Rio de Janeiro, como o samba e agora o funk. Acreditamos que a favela seja um local para encontros de 360º, tanto do ponto de vista social quanto do da cultura e da própria literatura.

Terra - Toda a Flupp será realizada no Morro dos Prazeres, ou serão montadas estruturas em outras favelas?
Ludemir - O evento será concentrado no Morro dos Prazeres, por acreditarmos, como a FLIP bem o demonstrou, que é importante reunir multidões para confraternizar em torno desse poderoso instrumento de mudança e aperfeiçoamento da sociedade que é o livro. E isso só é possível concentrando o evento em um local. Mas vamos espalhar telões por todas as comunidades pacificadas, onde haverá mediadores que possam debater os temas discutidos em nossas mesas.

Terra - Como será a linguagem audiovisual do local, de modo a criar uma atmosfera literária sem deixar de lado as características da comunidade?
Ludemir - Convidamos o artista plástico Gringo Cardia para fazer a programação visual da Flupp. O convite a um artista como ele é um claro sinal de que pretendemos fazer uma expressiva intervenção plástica na comunidade, mas, como atesta a biografia desse artista ímpar, potencializando o que já é feito lá, com uma estética própria da periferia. Também convidamos a roteirista e romancista Laura Malin para fazer a curadoria audiovisual.

Terra - Além do Gringo Cardia, o evento contará com outras expressões culturais das periferias?
Ludemir - Já articulamos várias ações de grafite com Swk, um grafiteiro dos Prazeres que ganhou o mundo. Também promoveremos um baile funk em uma das noites da Flupp, uma roda de samba e uma roda de choro à noite, sempre pensando em manter o visitante na comunidade e estimular sua circulação pelos Prazeres.

Terra - O primeiro autor homenageado será o Lima Barreto. Apesar de sua estética revolucionária que deu voz aos excluídos, ele não é muito conhecido. Qual foi o motivo da escolha?
Ludemir - Como você disse, ele foi um autor excluído. Mas ele foi um autor excluído exatamente por não ter a linguagem rococó dos parnasianos, que dominavam a cena literária no início do século passado, por seu compromisso com uma linguagem popular, tida então como sinônimo de mau gosto ou limitação técnica. Não à toa, foi cultuado pelos autores modernistas que fizeram a histórica Semana de 22, que, por uma ironia da história, foi realizada no mesmo ano em que Lima Barreto morreu louco e miserável, quase uma metáfora do povo que habita as favelas cariocas. Além disso, ele é um autor negro, e não existe favela carioca sem negritude.

Terra - Importantes editoras marcarão presença no evento. Como articular o grande mercado editorial com a proposta de inclusão social?
Ludemir - Não há festas literárias sem a participação das grandes editoras. Mais do que ninguém, as grandes editoras sabem da importância da classe C para a expansão recente do mercado. Creio que elas terão sensibilidade para um processo/evento que aponta claramente para a importância econômica desse novo ator social.

Terra - Vocês pretendem seguir o modelo de outras feiras e destinar um espaço com programação especial para crianças e adolescentes?
Ludemir - Sim. Temos um processo/evento chamado FluParque, com a curadoria da escritora Rosa Amanda Strausz, um dos nomes mais importantes da literatura infanto-juvenil brasileira dos últimos 20 anos. Também vale lembrar que uma de nossas consultoras é o mito Ana Maria Machado.

Terra - A tenda Policarpo Quaresma será o local das mesas de debate. Haverá telão para as pessoas assistirem de fora, assim como na Flip?
Ludemir - Vamos ter um telão, e gratuito. Mas pretendemos espalhar televisões pelas biroscas das favelas, nos quais o público poderá acompanhar os debates como o fazem com os jogos de futebol, tomando sua cervejinha. Queremos estimular a circulação dos visitantes pela favela e por isso vamos ter essas televisões espalhadas.

Confira a programação completa da Flupp:

Quarta-feira, 7/11

17h - Orquestra de Vozes Meninos do Rio

18h30 - Palestra: Ariano Suassuna

20h - Show de Bráulio Tavares

20h35 - Show de MV Bill e MC Swat

Quinta-feira, 8/11

13h - Mesa com Beatriz Resende e Luciana Hidalgo. Mediação: Luiz Antônio Simas. Tema - Antes tarde do que nunca

15h - Mesa com Susie Nicklin e Yvvette Edwards. Mediação: Toni Marques.Tema - Diferente é você

17h - Mesa com Thomas Brussig e Marcos Alvito. Mediação: Igor Cavaco. Tema - Jogo duro

19h - Juan Pablo Villalobos. Mediação: Toni Marques. Tema ¿ Entranhas mexicanas

Sexta-feira, 9/11

13h - Mesa com Bernardo Kucinski e Arnaldo Bloch. Mediação: José Goldfarb. Tema - Memória coletiva, dor individual

15h - Mesa com MC Swat, Najwan Darwish e Martin Jankowski. Mediação: Toni Marques. Tema - Arte entre bombas, opressão e espiões

17h - João Ubaldo Ribeiro e Ana Maria Machado. Mediação: Claudiney Ferreira. Tema - Viva a Academia Brasileira

19h - Mesa com Paulo Scott e Luiz Ruffato. Mediação: Marcelo Backes.Tema - Narrativa das Origens, as Origens da Narrativa

Sábado, 10/11

11h - Bernardo Vilhena e Carlito Azevedo. Mediação: Heloisa Buarque de Hollanda. Tema - Poesia sempre

13h - Mesa com Manuel Vilas e Patricia Portela. Mediação: Leonardo Villa-Forte. Tema - Escrever é misturar, ou letras carnavalizadas

15h - Allan da Rosa e Kei Miller. Mediação: Heloisa Buarque de Hollanda. Tema - Poesia falada

17h - Palestra: Ferreira Gullar. Mediação: Miguel Conde. Tema - O Brasil dos meus poemas.

19h - Mesa com João Ricardo Pedro, Nuno Camarneiro, Sandro William Junqueira e Patrícia Reis. Tema - Uma mesa portuguesa com certeza

Domingo, 11/11

11h - Mesa com Elisa Lucinda e Raphael Draccon. Mediação: Felipe Pena. Tema - O neoleitor

13h - Mesa com Étienne Lécroart e Olivier Martin. Mediação: Lobo. Tema - Narrativas colaborativas.

15h - Francisco Bosco e Luiz Eduardo Soares. Mediação: Marta Porto. Tema - O saber e a sabedoria

17h - Mesa com Naomi Alderman e Simone Campos. Mediação: Toni Marques. Tema - Videogame e literatura.

19h - Mesa com João Emanuel Carneiro. Mediação: Cris dos Prazeres. Tema - Classe C de Cultura.

Ferreira Gullar conduzirá a palestra 'O Brasil dos Meus Poemas'
Ferreira Gullar conduzirá a palestra 'O Brasil dos Meus Poemas'
Foto: Onofre Veras / AgNews
Fonte: Terra
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