- Claudia Andrade
- Direto de Paraty
A escritora argentina Pola Oloixarac é tida como a sensação da edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. Formada em filosofia, a autora de As Teorias Selvagens - que fala sobre a vida intelectual na era dos blogs - participa de uma mesa de debates nesta sexta-feira. Antes, ela conversou com jornalistas sobre temas que foram muito além da literatura, passando pela "gente diferenciada" de Higienópolis e chegando ao futebol.
Tema este, aliás, que ela mesma introduziu ao responder sobre a ausência de Antonio Tabucchi na Flip. O italiano cancelou sua participação no evento em protesto contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e negar a extradição do ex-ativista italiano Cesare Battisti.
"Eu também pensei em cancelar minha participação aqui na Flip por conta da polêmica em relação ao Maradona. Eu também queria protestar. Essa questão é importante", brincou, dizendo, em seguida, que está "adorando" estar em Paraty. A argentina diz que acompanha futebol, mas que a seleção de seu país "está terrível". Ao responder se achava que Lionel Messi levaria a Argentina ao título da Copa América, limitou-se a dizer: "gostaríamos, precisaríamos muito disso".
Mais tarde, questionada se buscava formas de escrever um livro diferenciado, aproveitou a deixa para lembrar um fato polêmico recente da capital paulista, a construção de uma estação de metrô na avenida Angélica: "livro diferenciado? Como a gente diferenciada de Higienópolis? Não sei", voltou a brincar. Mas como essa história da "gente diferenciada" chegou até você? "É que eu gosto de um churrascão", continuou, bem-humorada.
Beleza
A jovem escritora de 33 anos disse que já enfrentou preconceito "não tanto por ser bonita, mas por ser mulher e jovem". "Se você se expõe, isso cria um problema. Mas você precisa se expor e que digam o que quiserem", disse. Pola disse que precisou se expor para defender as opiniões expostas em seu livro, publicado em 2008 na Argentina.
"Quando meu livro saiu e se destacou dizia-se que eu escrevia como homem, que era como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Achei então que em vez de me esconder, eu deveria me expor", contou. "Há muitas mulheres escritoras, mas também há certas áreas em que está bem ter essa mulher escritora, como escrever sobre amor, sobre sua subjetividade, sua experiência de menina. Mas, se ela se colocar em uma posição de crítica aos padrões estabelecidos, não pode. Se tem essa posição, é um homem".
A escritora argentina define seus personagens como "muito contemporâneos". "Eles trocam fluídos livremente, trocam informações livremente, se envolvem em atividades revolucionárias para o momento, porque 'hackeam' coisas", descreve. Para ela, a tecnologia faz parte do processo de criação. "Eu gosto muito de tecnologia e a gente tem que escrever sobre o que a gente gosta. Tudo é inspiração."

