atualizado às 15h56

Escritor angolano fala de noite no quarto de Fernando Pessoa

 
Claudia Andrade
Direto de Paraty

O escritor português nascido em Angola, valter hugo mãe (escrito assim mesmo, com minúsculas) empolgou o público da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (8). E conseguiu ofuscar a musa do evento, a argentina Pola Oloixarac, com quem dividiu uma mesa de debates, ao contar sobre a noite que passou no quarto do poeta português Fernando Pessoa e se emocionar ao falar sobre sua relação com o Brasil.

Sobre a noite no quarto de Pessoa, contou que as pessoas se interessavam em saber se algum fantasma havia aparecido. Disse que dormiu mal, mas o motivo foi outro: "havia um movimento das pessoas, só faltaram acender velas pra saber se o fantasma de algum heterônimo aparecia. Eu dormi mal. Não porque aconteceu algo, mas porque a cama era muito ruim, muito estreita. Eu acho que ele nunca casou com a Ofélia (Queiroz, único amor conhecido do poeta) porque a cama não dava para dois".

mãe falou sobre a influência do pai em sua obra - um homem que passou a vida inteira dizendo que morreria de câncer. "Eu cresci com a ideia de que a morte era uma coisa muito fácil, muito possível. Achava que qualquer gripe poderia me abater em pouco tempo". E da vontade de ser pai. "Sempre achei que seria um solteirão desapegado, mas há uns três ou quatro anos comecei a sentir a necessidade de ter filhos. Por mais que eu ame meus sobrinhos, há um tipo de amor reservado a quem ainda não nasceu".

O escritor revelou que sua próxima obra tratará exatamente desse tema: será sobre um homem que chega aos 40 anos sem filhos e passa a traçar uma estratégia para criar uma família. "O homem também tem um tempo biológico. O homem é parte desfavorecida da humanidade. (Não ter filhos) deve ser um castigo por eu me chamar 'mãe'", brincou.

Brasil
Ao ser questionado sobre sua relação com o Brasil, o escritor leu um texto que já tinha preparado, contando histórias de sua adolescência, as amigas brasileiras de suas irmãs, que faziam com que outras meninas se interessassem por ele só por ser "amigo das brasileiras", o gosto por novelas brasileiras. - "Nós (portugueses) conhecemos todos os autores e queremos casar com alguns deles", disse - e lembrando como conheceu a música do Legião Urbana e passou a achar que Renato Russo e a canção Tempo Perdido "salvariam sua vida": "até hoje choro quando ouço".

Ao final do texto, agradeceu à Flip por permitir que ele viesse ao Brasil como escritor "publicado e aceito". Emocionado, chorou. E foi aplaudido de pé pela plateia.

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