atualizado às 22h45

Escritores leem seus livros de cabeceira no encerramento da Flip

Mesa "Livro de Cabeceira" encerrou a programação da Flip 2012 Foto:  Divulgação
Mesa "Livro de Cabeceira" encerrou a programação da Flip 2012
Foto: Divulgação
 
Marina Azaredo
Direto de Paraty

A 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) se encerrou neste domingo (8) com a mesa "Livro de Cabeceira", em que alguns dos autores que estiveram no evento leram trechos de seus livros preferidos. "Esse momento é muito triste, porque temos que conviver com a ideia de que vamos passar um ano sem a Flip. Por isso, pedimos para que os autores nos contassem seus mistérios mais profundos, por meio de livros que significam muito para eles", disse a criadora da Flip, Liz Calder ao abrir a mesa.

Amin Maalouf leu Stefan Zweig, Dany Laferrière escolheu Jorge Luis Borges, Zoe Valdes optou por Lygia Fagundes Telles, Ian McEwan leu James Joyce, Javier Cercas foi de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Enrique Vila-Matas foi muito aplaudido ao ler um trecho de Fernando Pessoa. "Vou ler o mesmo trecho que li em 2006 aqui na Flip. Não tenho motivos para mudar. Em seis anos não achei poema melhor do que este", disse.

Mas a estrela da noite foi mesmo o brasileiro Luis Fernando Verissimo. Muito aplaudido ao entrar, ao ter seu nome citado por Liz Calder e após ler um trecho de Millôr Fernandes, escritor morto neste ano, o gaúcho ofuscou nomes renomados internacionalmente como McEwan e Vila-Matas e foi um dos grandes nomes dessa Flip. Tímido confesso, ele foi o responsável pela abertura da festa na noite de quarta-feira (4) e, nos dias seguintes, circulou à vontade pelas ruas de Paraty - sozinho ou acompanhado da mulher, Lúcia -, fazendo a alegria dos fãs, que não se intimidavam em pará-lo para pedir autógrafos e fotografias.

A Flip deste ano trouxe 25 mil pessoas a Paraty, número bem maior do que os 6 mil que aqui estiveram para a primeira edição, em 2003. As ruas da cidade ficaram cheias, principalmente no sábado e no domingo, mas, apesar do crescimento, a festa mantém seu charme e o clima de confraternização entre amigos. Escritores, aspirantes a escritores, fãs, artistas de rua, interessados em literatura e curiosos (e muitas mulheres interessadas em escritores, dizes as más línguas) formam uma turma que bem poderia ser classificada como "flipmaníaca", já que grande parte está na festa pela segunda, terceira, quarta vez. Essa fauna circulou pelas ruas com calçamento pé de moleque durante os cinco dias de festa e tomou os restaurantes, bares e hotéis da cidade nos dias de sol e calor e nas noites frias - a madrugada de domingo teve uma forte chuva e até um rápido apagão na cidade, que acabou mandando embora o público que por volta das 3h ainda se divertia nos arredores da Praça da Matriz.

Mas, além de se divertir, o público (ou ao menos boa parte dele) veio para Paraty para assistir a uma programação que teve nomes como Jennifer Egan, Jonathan Franzen, Ian McEwan, Luis Fernando Verissimo, Laerte e Angeli, responsáveis por algumas das mesas mais concorridas da Flip 2012. Destacaram-se nesta edição o debate entre Egan e McEawn sobre o ato de criar personagens literários, as três mesas em homenagem a Carlos Drummond de Andrade - em especial a conversa entre os críticos Alcides Vilaça e Antonio Carlos Secchin -, o bate-papo bem humorado dos cartunistas Laerte e Angeli sobre temas como os limites do humor, o crossdressing de Laerte e a mesa sobre Shakespeare com Stephen Greenblatt e James Shapiro. Já uma das grandes decepções foi Jonathan Franzen, um dos nomes mais aguardados da festa, que acabou protagonizando uma conversa arrastada e sonolenta com Ángel Gurría-Quintana na noite de sexta-feira (6).

A edição deste ano não teve grandes polêmicas ou personagens marcantes, como aconteceu em 2011, quando Claude Lanzmann se desentendeu no palco com o moderador de sua palestra, Márcio Seligmann-Silva, e a escritora argentina Pola Oloixarac atraiu todos os holofotes, mais por sua beleza do que pela qualidade de seu único livro publicado, Teorias Selvagens. Foi uma Flip mais "morna", mas que apresentou uma programação de qualidade, com muitas atividades paralelas. No total, foram 135 eventos espalhados por toda a cidade de Paraty.

Já as homenagens a Carlos Drummond de Andrade, que completaria 110 anos em 2012, se estenderam por toda a programação. Poemas do autor foram lidos antes de todas as mesas de debates, fórmula considerada bem sucedida pela organização. "As leituras antes das mesas proporcionaram um contato mais direto com a obra do autor. Isso é importante, porque o debate nunca vai substituir a experiência da leitura ou, neste caso, de ouvir a obra", disse Miguel Conde, curador da Flip deste ano e já confirmado para 2013. O homenageado do próximo ano ainda não está definido, mas Graciliano Ramos é um forte candidato, já que 2013 marcará os 60 anos da sua morte.

Na entrevista coletiva concedida neste domingo, a organização da festa também não comentou se pretende fazer mudanças para as próximas edições. Mas, em entrevista ao Terra, Liz Calder confessou que pensa em fazer uma programação especial para jovens escritores. E disse que ainda gostaria de ver nomes como Günter Grass, Doris Lessing e Gabriel García Márquez na Flip. "Adoraria que eles viessem, mas acredito que não possam por problemas de saúde. No entanto, há muitos escritores novos surgindo e eu espero que um dia todos eles venham", disse ela. Os flipmaníacos também esperam, Liz.

Terra