Flip: editor classifica críticas a francês de "equívoco injusto"

Diretor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz se disse entristecido com comentários do curador da Flip Foto: Renato Parada / Divulgação
Diretor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz se disse entristecido com comentários do curador da Flip
Foto: Renato Parada / Divulgação
 
Claudia Andrade
Direto de Paraty

O diretor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, classificou de "equívoco" as críticas do curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), Manuel da Costa Pinto, ao escritor francês Claude Lanzmann, que participou de debate na última sexta-feira (8).

Schwarcz representa a editora responsável pela publicação do livro de memórias de Lanzmann, A Lebre da Patagônia, lançado pelo francês na Flip.

"Foram dois equívocos. O primeiro é que não cabe ao curador criticar um convidado. A quem cabe julgar um livro ou um evento como este é o crítico e o público que está assistindo. Se você está no papel de organizar, de convidar, não tem a necessária isenção para criticar e você confunde um pouco os papeis ao fazer isso".

O segundo equívoco, na opinião de Schwarcz, foi o termo utilizado pelo curador ao criticar o autor francês, que teve atritos com o mediador durante o debate e chegou a ameaçar deixar o palco se não falassem sobre o seu livro. Manuel da Costa Pinto defendeu as perguntas "complexas" do mediador, o teórico e crítico literário Márcio Seligmann-Silva, e considerou "lamentável" a postura de Lanzmann.

"Esse preconceito que há contra o intelectual, contra o acadêmico, é uma coisa nazista. Infelizmente, uma pessoa que trabalhou tanto com essa matéria-prima acaba reproduzindo uma atitude dessa, ser contra a discussão intelectual, filosófica. É grave isso. A atitude dele foi de cancelar o debate em nome de uma espetacularização de si mesmo. É lamentável o que aconteceu", disse o curador.

"Aqui (na Flip) é uma entrevista pública e isso faz parte do jogo. O entrevistador quer ir para um lado e o entrevistado para outro. A comparação disso com uma atitude nazista é um absurdo, um equívoco de grande proporção. Ele me disse que não era essa a intenção dele, mas eu falei que, ao escolher essa palavra, você está dando uma dimensão completamente diferente de uma coisa que é um direito do entrevistado, querer falar de outro assunto", criticou Schwarcz. "A declaração dele permite um mal-entendido que é muito injusto".

O editor disse esperar uma "reflexão" por parte dos organizadores para continuar colaborando com a Flip. "Eu gostaria que a Flip me assegurasse que esse tipo de coisa não vai acontecer em outras ocasiões, porque, efetivamente, eu não posso me empenhar pra trazer um autor e correr o risco de ele ser objeto de um julgamento por parte do evento que o convidou nos termos que isso aconteceu".

Schwarcz reconheceu que a declaração pode chegar até o francês por conta da internet, mas afirmou que gostaria de "proteger" Lanzmann da polêmica, lembrando que o convidado enfrentou um problema de saúde com dores nas costas durante sua estada em Paraty. "Tenho admiração por ele, pelo livro dele. Ele tem uma história".

Questionado se vê a polêmica como fator para alavancar as vendas do livro, disse que não. "Mesmo que ajudasse, me deixaria tão entristecido como agora".

Manuel da Costa Pinto se defendeu, garantindo que não quis atribuir a Lanzmann uma atitude nazista. "Não estou equiparando". Contudo, ele admitiu que pode ter se excedido em seu papel como curador ao expressar sua opinião como jornalista.

Terra