- Marina Azaredo
- Direto de Paraty
Mediada pelo jornalista carioca Arthur Dapieze, a mesa Pelos Olhos do Outro, realizada neste sábado (7), na 10ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), contou com um descontraído papo entre o escritor britânico Ian McEwan e a romancista norte-americana Jennifer Egan. E entre os diversos assuntos abordados, talvez o mais interessante tenha sido a respeito de como eles veem a relação entre autor e leitor.
"Manipular o leitor é meu maior prazer na vida", exaltou McEwan, autor do best-seller Reparação, que veio ao evento para o lançamento de seu mais recente trabalho, Serena. "A manipulação é sempre uma surpresa e surpresas são sempre maravilhosas", completou a sorridente Egan, de A Visita Cruel do Tempo.
Apesar disso, ambos concordaram que a criação dos personagens de seus livros, ao contrário do que aparenta à distância, nunca é planejada. "Não é uma coisa consciente. É como pintar, criar o rosto de uma pessoa. Vai surgindo aos poucos", teorizou o britânico. "Nem eu sei como meus personagens são de verdade. Eles são meio nebulosos para mim", completou a norte-americana.
Os dois se conheceram quando Egan, 49 anos, ainda estava na universidade. Na ocasião, Ewan, quase 15 anos mais velho que a colega, foi ao local fazer uma palestra, na qual leu textos escritos por ele. "Desde então acompanho o seu trabalho, que tem uma grande diversidade de tópicos e personagens", derreteu-se a romancista. "Não seria divertido se nós nos odiássemos", brincou na sequência Ewan, para quem a colega é "brilhante, inteligente e divertida".
Mas será que décadas de sucessos literários fizeram os dois passarem a sonhar com algo, assim, como um Prêmio Nobel de Literatura? "Eu estou muito satisfeita com o que tenho, que já muito mais do que eu imaginava", despistou Egan. Afiado, Ewan foi mais provocador na resposta: "James Joyce e Kafka também não ganharam. Então estamos em boa companhia".

