Arte e Cultura

publicidade
17 de abril de 2011 • 10h56 • atualizado em 18 de Abril de 2011 às 04h57

Luta-livre rende boas risadas no Vale do Anhangabaú

O brasileiro Sonico e o norte-americano Tim Anderson, durante performance da modalidade na Virada Cultural
Foto: Léo Pinheiro / Terra
 
David Shalom
Direto de São Paulo

Você se lembra do Telecatch? Do Reis do Ringue? De Ted Boy Marino? Para refrescar sua memória, todos os três fizeram parte do mundo da luta-livre nacional, prática teatral de combate que foi febre no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. E, na madrugada deste domingo (17), em pleno Vale do Anhangabaú, centenas de paulistanos tiveram a oportunidade de assistir ao vivo à, no mínimo, divertida modalidade.

Galeria de fotos: Veja as melhores fotos da Virada Cultural em SP
Confira as principais atrações da Virada Cultural

Bob Júnior, representante da BWF (Brazilian Wrestling Federation), associação que criou há dez anos para divulgar o esporte, explicou ao Terra todo o preparo necessário para fazer da luta algo atraente ao público. "Precisei chamar uma equipe de roteiristas para bolar uma novela mesmo, com história e personagens". Filho do lutador Bob Leo, ele disse que a inspiração para se dedicar à prática veio da WWE (World Wrestling Entertainment), que mantém até hoje grande sucesso nos EUA. "A luta livre caiu no esquecimento por aqui nos anos 1980 e eu comecei a criar regras, rankings e campeonatos para fazê-la ressurgir com bom apelo ao público".

Uma década depois de plantada a semente da federação nacional, Bob afirma que a BWF já começa a colher frutos junto aos seus 62 lutadores fixos. "Fazemos em média quatro eventos por mês e, termos sido convidados aqui para a Virada, é uma enorme premiação para nosso trabalho".

Dragão Branco Ninja - cujo verdadeiro nome não quis revelar -, 42, é um dos brasileiros que tem ajudado a popularizar a modalidade. Natural de Santo André, sua origem na área é o karatê e o fisicultorismo, esporte que já lhe deu diversos títulos na categoria abaixo dos 70 kg. "É necessário muito treino. Os malabarismos que a gente faz não são nada fáceis. Além disso, o pessoal do Brasil não acredita em qualquer coisa, então nossa categoria é mais pegada", explicou, comparando a luta com a dos mexicanos, que também deram uma palhinha no ringue montado no centro da capital paulista a convite do Consulado do México. "A gente treina muito para ficar o mais real possível. As quedas, os chutes, não é nada marmelada. O cara leva mais de um ano se preparando até entrar no ringue".

Marceneiro de profissão, uma vez que a prática ainda não consegue lhe prover sustento suficiente - diferente do que ocorre com seus colegas mexicanos -, Dragão garante nunca ter sofrido nenhum tipo de lesão, mas afirma ter tido dificuldades no início para evitar machucar seus adversários. "Precisei aprender a frear meus golpes. Já quebrei o tornozelo do meu treinador com um golpe girado, o osso de um outro".

Segundo ele - que não também não revela o rosto e mantém um longo rabo de cavalo nos cabelos -, mais de R$ 2 mil foram investidos para fazer sua fantasia branca, toda revestida em couro. A bota, em estilo ninja, tem o dedão destacado do resto do pé para ajudá-lo a se equilibrar nas cordas do ringue antes de saltar sobre o oponente.

Outro competidor, Red Calibre, diretor sindical de 26 anos, corrobora com as afirmações do companheiro e diz que só é possível entrar em combate com muito preparo. "A luta é pré-determinada, mas o golpe é real. Só que com técnica", contou, enquanto exibia feridas consequentes da luta anterior que vão do pescoço ao peitoral.

Tais consequências ficam ainda mais claras quando a reportagem conversa com o norte-americano Tim Anderson, 28, há dois anos morando no Brasil. Sentado em frente à tenda utilizada como vestiário pelos lutadores, o sujeito alto e bastante forte apoia sua cabeça na mão direita, com claro semblante de dor. "Eu tive uma concussão", disse, em inglês, "mas isso é normal nessas lutas. Faz parte".

Mulheres
A luta-livre não se limita ao sexo masculino. Bianca Lostiri, 36, uma bela loira de olhos azuis brilhantes e seios avantajados, faz parte da trupe, interpretando a personagem Bia, a Perversa. "Na BWF só tem eu de mulher, mas nunca tive problema com isso. Sempre fui molecona, cresci jogando bola, e isso me ajudou a conviver neste ambiente cheio de homens".

Ela, que também é dançarina e personal trainer - além de vendedora de uniformes escolares -, afirma que a parte mais legal da luta é a interação com o público. "Eles ficam com raiva, xingam. Mas quando termina o combate, e a gente sai do personagem, eles também saem, e vêm pedir foto, autógrafo".

Como seus colegas, Bia garante não haver nada de brincadeira no teatro feito por eles. "Não tem como não sair dolorido. É um esporte de impacto: sempre vai ter uma dorzinha nas costas, um calinho ou qualquer outro tipo de machucado". A enorme cicatriz que tem no braço direito, no entanto, não tem nada a ver com a luta livre. "Eu fui a um programa de TV e fiz braço de ferro contra o Beto Jamaica (do grupo É o Tchan). Eu venci, ele ficou irritado e, quando soltei, ele ficou nervoso e torceu meu braço. Tive que colocar sete pinos, gastei R$ 5 mil e ainda fiquei seis meses parada", falou. "Até hoje ninguém me indenizou com isso. Quando ele (o Beto) soube, disse: 'eu sou o Beto Jamaica, quem é ela?'".

No ringue
A reportagem acompanhou à luta entre o brasileiro Sonico e o norte-americano Tim Anderson. Com direito a narrador e comentarista, os dois travaram um combate divertidíssimo, não só bacana esteticamente - com acrobacias impressionantes, como aquela em que um dos oponentes pega impulso no cercado do ringue para pular sobre o corpo do adversário estirado no chão -, como ótimo para levantar o humor. Os dois simulam saltos um sobre o outro, desmaios, desvios de personalidade. À certa altura, o estrangeiro, o malvado da história, deixou o ringue para desafiar membros da plateia que o xingavam para enfrentá-lo.

A peça é tão absurda que, mesmo fora do "palco", os lutadores continuam se pegando. Quando o deixavam, já com a luta findada, Tim foi para cima de Sonico, quase derrubando o repórter que cobria o evento próximo às grades que separavam a imprensa do público. Mais: pouco antes, o norte-americano começou a discutir com o juiz e chegou a "nocauteá-lo".

Esse, contudo, não foi o motivo para a "derrota" de Tim, desclassificado após utilizar um objeto para atacar o oponente, o que, segundo o locutor do combate, é terminantemente proibido na BWF. Ponto para Sonico, ovacionado pela animada plateia, grande parte dela acompanhando pela primeira vez à modalidade esportiva de perto.

Você está curtindo as atrações da sétima edição da Virada Cultural neste final de semana em São Paulo? Mande suas fotos e relatos para o vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra, clicando aqui.

Terra Terra