atualizado às 17h58

Nélida Piñon expõe parte de suas memórias no 'Livro das Horas'

A escritora descreve o contato com nomes como Clarice Lispector e Gabriel García Márquez Foto: Divulgação
A escritora descreve o contato com nomes como Clarice Lispector e Gabriel García Márquez
Foto: Divulgação
 

A escritora carioca Nélida Piñon, Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras em 2005, decidiu relatar, aos 75 anos, parte de suas memórias no Livro das Horas.

A obra - que mistura diferentes gêneros e não tem pretensão de ser uma autobiografia, mas uma síntese de suas lembranças mais afetivas -, já começou a ser vendida nesta semana. No entanto, o livro será lançado oficialmente somente em 15 de agosto, no Rio de Janeiro, informou a editora Record à Agência Efe.

Nélida, a primeira mulher a receber o Prêmio Juan Rulfo de Literatura (1995) e a assumir a Presidência da Academia Brasileira de Letras, aborda temas que marcaram sua vida e, por isso, os trata com grande sensibilidade e simplicidade na escrita.

Em suas memórias, a autora, que nasceu no Rio de Janeiro em 3 de maio de 1937, relata a luta contra a censura durante a Ditadura Militar (1964 - 1985), sua amizade de quase duas décadas com Clarice Lispector e até mesmo seu amor pelo cachorro Gravetinho, que vive com a escritora em um apartamento na Lagoa.

Entre suas lembranças, a escritora inclui suas viagens à Galícia, onde estudou vários anos e buscou inspiração para parte de sua obra, e a Nova York, cidade com a qual demonstra uma grande proximidade.

De acordo com a apresentação da obra - feita pela editora Record -, "a cada página a autora deixa claro que, independente de sua vivência ou da riqueza de suas lembranças, sua história de amor sempre foi uma só: com a palavra".

Além da amiga Clarice Lispector, Nélida inclui outros escritores de destaque em suas memórias, pessoas com quem teria compartilhado ideias, projetos e confidências. O colombiano Gabriel García Márquez, o mexicano Carlos Fuentes - que morreu no último mês de maio -, e o poeta Bruno Tolentino são alguns que ganham espaço nas memórias da escritora.

"A sensação que tenho é de que vivi várias vidas", assegurou Nélida em uma entrevista publicada para promover o lançamento de sua nova obra. A escritora ainda acrescenta que o nome da obra faz referência aos livros de orações da Idade Média, que eram divididos em horas. Mas, segundo a própria escritora, trata-se de uma obra cujo gênero é difícil de se definir.

"É uma confluência de gêneros. Tem uma visão poética da realidade, uma análise da sociedade com fatos, histórias, memórias pessoais e alheias... É uma espécie de viagem à realidade", afirmou Nélida na mesma entrevista.

As memórias desta escritora brasileira, que já teve parte relatada em 1961 com o lançamento do romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, são expostas como se Nélida estivesse contando a um amigo ou nas conversas com seus colegas da Academia Brasileira das Letras.

Sem a pretensão de ser uma autobiografia, o Livro das Horas também não é um volume de memórias convencionais, mas um conjunto de textos para incluir lembranças importantes e confissões - no entanto, limitadas. "Não vem ao mundo para expor a natureza do meu amor e nem mesmo quem amei. Sou ciumenta guardando nomes e circunstâncias", admite a escritora no livro.

A obra começa com as lembranças de sua infância e a descrição de seus pais, os emigrantes galegos Lino Piñón Muñoz, a quem chama de "galante e misterioso", e Carmen Piñón, que, segundo a autora, "regia o cotidiano com harmonia".

Quanto a suas viagens, Nélida cita em especial uma realizada ao rio Araguaia, na Amazônia, onde alguém tentou surpreendê-la com um pequeno jacaré junto ao seu quarto.

Entre as obras mais conhecidas e traduzidas de Nélida Piñon figuram A Casa da Paixão (1972), A Doce Canção de Caetana (1987) e A República dos Sonhos (1984).

EFE EFE - Agencia EFE - Todos os direitos reservados. Está proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da Agencia EFE S/A.