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Público tem dificuldade para entender peça do Festival de Curitiba

3 abr 2012
11h30
atualizado às 11h56
Roger Pereira
Direto de Curitiba

"O Festival de Teatro de Curitiba é cheio de altos e baixos, altos acontecem quando eu estou aqui". Foi com essas palavras que Gerald Thomas abriu seu espetáculo para aproximadamente 500 pessoas que lotaram o Guaírinha na última sessão de Gargólios, na noite da última segunda-feira (2).

Sem linearidade, com vários temas tratados nas entrelinhas e com toda a provocação característica de Thomas, que chega a dizer, na peça, "quero que o pensamento entre na carne" e com um público de festival não tão acostumado com o estilo de teatro proposto, a obra não foi 100% compreendida pelo público. "Começou convidativa. Apesar do turbilhão de informações e referêncais, o público acompanhou e entrou no jogo. Mas conforme segue, a plateia vai se distanciando", comentou Marçal Carmo, que se disse familiarizado com o teatro de Thomas. "Outro problema foi a legenda. Nas primeiras filas, por exemplo, era bem difícil conseguir acompanhar, sem contar que houve um confusão na geração dos caracteres", disse. Mas, ao contrário de Marçal, muitos que saíram do Guaírinha disseram apenas "não entendi nada".

De volta aos palcos depois de ter anunciado seu afastamento do teatro por estar desiludido com a arte, Thomas levou à capital paranaense uma remontagem da peça Throats, primeiro espetáculo da London Dry Opera, também escrito por ele. Mas, segundo o próprio Thomas, pouco sobrou do original na nova montagem. "Não sei por que, mas a peça não me agradou. Na verdade, não agradou a ninguém, mas me colocou um desafio. E como eu sabia que iríamos para São Paulo, sabia que tinha que mudar e mudei tudo", disse o diretor na coletiva de imprensa.

Assim nasceu Gargólios, peça que estreou em São Paulo em 2011 já completamente modificada e que chegou ao Festival de Teatro de Curitiba com mais mudanças ainda. Este é o jeito de trabalhar de Thomas, criador da brasileira Cia. de Ópera Seca - nome que transportou para Londres. "Isso para mim é correr riscos, algo que Throats não estava me dando. Hoje ainda posso incluir algo de novo até a noite. Throats foi muito ensaiada e tudo era muito escuro", comentou. "Gargólios é solto, mais colorido" disse acrescentando que se sente neste momento saindo da "área pessimista".

Um dos pontos altos do espetáculo é a trilha sonora. "Foi composta por John Paul Jones, ex-baixista do Led Zeppelin, mas quem vai tocar sou eu", avisou à plateia, no início da apresentação, para depois passar o espetáculo inteiro tocando seu baixo.

A peça, que se apresenta como uma reflexão sobre a sociedade pós 11 de setembro, tem como cenário os escombros do World Trade Center (Thomas foi um dos voluntários que ajudou no resgate das vítimas do atentado). Em cena, questões políticas surgem o tempo todo nas entrelinhas, do mesmo jeito que ele cita acontecimentos ao longo da coletiva de imprensa para exemplificar sua incompreensão diante do mundo. "Adoraria ser um otimista, mas hoje nós jantamos e vemos atrocidades sem parar de comer, enquanto milhões morrem na Síria", comentou. Perguntado se voltou a encontrar o sentido da arte para voltar a fazer teatro, o diretor disse que descobriu que não faz sentido. "As grandes estrelas de hoje são os CEOs, o business tomou conta do que pertencia à arte e existe um excesso de informação em que os assuntos dominantes são religião, raça e preconceito e esportes, esportes, esportes. Isso é no mundo todo", disse.

Cena de 'Gargólios', que foi apresentado na última na segunda-feira (2), em Curitiba
Cena de 'Gargólios', que foi apresentado na última na segunda-feira (2), em Curitiba
Foto: Emi Hoshi / Divulgação
Fonte: Especial para Terra

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