Susan Kitazawa é vítima de glaucoma e investiu na arte
Foto: The New York Times
Quando os efeitos do glaucoma de Susan Kitazawa a tornaram legalmente cega em fevereiro, a doença já lhe havia custado sua carreira de enfermeira e incontáveis liberdades. Mas os mesmos efeitos despertaram nela o sabor pela vida e reviveram uma ambição há muito enterrada, mesmo se agora improvável: fazer artes visuais.
Ela se inscreveu em uma aula de desenho de modelo vivo próxima à sua casa em Los Angeles, mas se frustrou ao encontrar uma perspectiva mais limitada sobre o desenho, e a visão, do que aquela que buscava.
"A professora dizia: 'Você não está sombreando o modelo corretamente'", explicou Kitazawa, 62 anos, em entrevista recente. "Eu respondia: 'Sombra? Não consigo nem enxergar o modelo.' Percebi que queria criar coisas a partir de imagens que tinha na minha cabeça ao invés das que estavam na minha frente."
Então, ela começou a trabalhar sozinha, criando pinturas abstratas e colagens que fossem mais consistentes com a forma pela qual enxergava o mundo: "como uma conexão de celular que está sempre caindo", disse.
"Outro dia, estava conversando com o meu gato e percebi que era minha mochila", acrescentou Kitazawa. "Acho que meu trabalho é sobre estar perdida, em parte. Minha maneira de enxergar é meio que meu tema."
Ela expôs em várias pequenas mostras coletivas. Mas foi apenas neste ano que sua nova condição legal lhe conferiu o direito de se candidatar a uma exposição chamada "Insights", em que sua colagem "Do You See What I See?" - na qual dois círculos feitos de recortes flutuam oniricamente sobre campos etéreos de vermelho e magenta acrílicos - foi selecionada para exibição na Prefeitura de São Francisco.
Em seu 20º ano, "Insights" é a mais proeminente exposição do país com seleções de pinturas, fotos e obras multimídia de artistas legalmente cegos. O que começou como um evento focado em obras de interesse puramente tátil - apenas 13 em seu primeiro ano -, evoluiu para uma mostra de aproximadamente 120 obras cuja ênfase está no visível, numa compreensão mais alinhada ao que Kitazawa tem em mente.
"A exposição é pensada para ser sobre limites e o que pode ser feito dentro deles", disse Lawrence Rinder, diretor do Museu de Arte de Berkeley e jurado da "Insights" deste ano. Essa composição temática, acrescenta, localiza perfeitamente os artistas cegos da mostra na tradição dos artistas em geral. "Todos temos limites de percepção e todos os artistas trabalham dentro desse envoltório."
Charles Blackwell, que tem cerca de 20 obras na mostra - ele é um dos três artistas homenageados -, credita boa parte da admiração a seu estilo aos limites de sua deficiência. Ele era um estudante de arte de 19 anos quando uma queda lhe deixou legalmente cego, com visão periférica mínima. Quarenta anos mais tarde, ele considera mais fácil enxergar movimento, o que faz seus desenhos jazzísticos a tinta expostos na Prefeitura passarem um sentimento efervescente e frenético.
"Quando era jovem, praticava para conseguir desenhos bem certinhos", disse Blackwell, que vive em San Mateo, Califórnia. "Depois de perder a visão, comecei a fazer trabalhos maiores, com maior liberdade e inspirados em obras de Rauschenberg que lembro ter visto quando jovem - mais abstrato, mais elétrico, mais colorido."
O crescimento e a mudança de foco da "Insights" acompanharam uma mudança mais ampla na percepção da arte de deficientes visuais. Antes, exibições desses artistas ocorriam principalmente em locais como centros comunitários, "nos últimos dois anos, tenho visto várias mostras de artistas cegos e deficientes visuais em locais importantes¿, disse Nina Levent, diretora da Art Education for the Blind e do Instituto Art Beyond Sight, de Nova York.
"Tem ocorrido uma mudança de paradigma", continuou Levent. "As pessoas estão começando a aceitar o fato de que arte e imagem são mentais, não visuais", e que "o coração do trabalho criativo não tem nada a ver com a visão. As escolhas dos artistas são internas."
Essa forma aparentemente radical de perceber as artes visuais parece ter sustentação científica. John M. Kennedy, professor de psicologia da Universidade de Toronto e importante pesquisador sobre cegueira e produção artística, fala de uma revolução na compreensão da forma pela qual o cérebro processa as imagens.
"As evidências reunidas em anos recentes mostram que figura e representação são uma qualidade profunda da mente, mesmo entre os cegos de nascença", disse. "Você pode acessá-las através da visão, mas é possível chegar até elas de outras formas."
Ao estudar a ativação do córtex visual observando o cérebro de artistas cegos, Lotfi B. Merabet, optometrista e professor de neurologia da Escola Médica de Harvard, chegou a conclusões parecidas.
A arte que produzem "é verdadeiramente uma expressão de suas imagens mentais. Ela não entrega ao mundo visível o que ele quer ver", disse o doutor Merabet.
Quando era mais jovem, Pete Eckert, que vive em Sacramento, Califórnia, pretendia estudar arquitetura, mas desistiu quando sua retinite pigmentosa foi diagnosticada e começou a perder a visão. Em certo momento, ele descobriu que poderia treinar seu córtex óptico para produzir as imagens dos outros sentidos.
Hoje, aos 53 anos e totalmente cego, ele está particularmente sintonizado aos sons e à maneira pela qual eles ecoam ou são absorvidos por objetos. Segundo Eckert, ele é capaz de ver um sinal de pare em sua mente a partir dos sons do tráfego que o envolvem, como água fluindo ao redor de uma pedra.
Sendo legalmente cego, Eckert não só trabalhou anos como carpinteiro, mas também foi capaz de treinar em velocidade máxima como faixa-preta em tae kwon do com outros faixas-pretas de visão normal.
"Então, decidi que talvez houvesse uma melhor maneira de expressar essa percepção do que golpeando o nariz das pessoas", disse. "Mais ou menos na mesma época, acabei encontrando uma câmera velha."
Sua esposa o ensinou a usá-la. Eckert enquadra seus objetos por meio de sons, toques e memória e mostra uma folha com miniaturas para amigos opinarem antes da impressão. Ele afirma que suas fotografias -- boa parte delas uma mistura de imagens borradas e estáticas, às vezes sobrepostas por traços de luz - lhe permite explorar os mistérios de seu mundo físico "sem ficar preso aos pressupostos dos dotados de visão".
"A maioria dos fotógrafos com visão que conheço usa seus olhos para procurar fotos no mundo", disse. "Comigo, eu inverto a câmera, em direção ao olho da minha mente." Como um número cada vez maior de artistas cegos, Eckert - que este ano não foi selecionado para a "Insights", onde já exibiu cinco vezes - tem exposto com frequência ao lado de artistas dotados de visão.
Mesmo assim, apesar da aceitação crescente, a arte séria de deficientes visuais permanece uma categoria separada para a maior parte do mundo tradicional da arte.
"Existe a tendência de sempre vê-los como 'artistas cegos', da maneira que artistas mulheres com frequência acabam em mostras 'femininas'", disse Meg Shiffler, diretora para galerias da Comissão de Artes de São Francisco, que apresenta a "Insights" em parceria com a LightHouse for the Blind and Visually Disabled, uma agência sem fins lucrativos. "Seria ótimo se sua obra estivesse melhor integrada." Mas onde alguns percebem isolamento, outros enxergam um bom motivo para destacar a deficiência de um artista.
"Quais foram as condições precisas da Guerra Civil espanhola quando Picasso pintou 'Guernica'?", disse Rinder. "Saber desses detalhes pode iluminar ainda mais uma obra."
Além disso, a perspectiva possibilitada pela cegueira pode ter outro valor no mundo da arte. Ketra Oberlander, pintora e agente de artistas deficientes em Santa Clara, Califórnia, começou a perder a visão por volta dos 30 anos, sofrendo de distrofia de cones e miopia extrema; aos 40, ela foi considerada legalmente cega, incapaz de discernir limites nítidos, cores ou muito contraste. Hoje, com 47 anos, ela afirma pintar flores de perto por considerar a prática uma representação da interseção entre dois mundos: "É como aqueles com visão tendem a observá-las e é como eu preciso observá-las."
Oberlander foi homenageada na "Insights" de 2007, mas este ano ganhou um novo papel: ela foi chamada para ser a primeira jurada cega da mostra. Ela estudou cada obra enviada cuidadosamente através de um laptop em uma sala escura, às vezes usando um telescópio monocular.
"Não encontrei ninguém que tenha feito isso antes, em nenhum lugar", disse sobre a função. "Em exposições de arte futuras, quando alguém resmungar, 'Os jurados devem ser cegos', bem, agora talvez ele esteja correto."

- The New York Times



