Valley Farmas, de Ross Dickinson, está exposta em mostra de Washington
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Às vezes é preciso voltar algumas décadas para ter uma perspectiva renovada de hoje. Duas mostras de museus em Washington, ambas baseadas no tumulto econômico e político dos anos da Grande Depressão, usam essa abordagem de maneiras bastante diferentes.
Uma mostra celebra o programa New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt, que empregou artistas para trabalhos de pintura em prédios públicos, incluindo a Casa Branca. A outra examina como Adolf Hitler, ele próprio um pintor frustrado, dominou a arte propagandista com o intuito de construir um apoio popular na Alemanha para a máquina de guerra nazista.
Comecemos com "1934: A New Deal for Artists", que ficará exposta no Museu de Arte Americana Smithsonian até 3 de janeiro e traz 56 pinturas de sua coleção permanente retratando pessoas e cenas de toda a América arrasada pela Depressão, do Central Park à ponte Golden Gate.
As imagens ¿ algumas edificantes, outras tristes e outras fantásticas ¿ pertencem ao seu próprio tempo e espaço. Contudo, elas repercutem profundamente em nossos próprios tempos difíceis.
O projeto Public Works of Art, que vigorou entre dezembro de 1933 e junho de 1934, foi a primeira vez em que o governo americano usou dinheiro do contribuinte para apoiar artistas diretamente, segundo o catálogo ricamente ilustrado da exposição.
Assim como autoridades públicas que tentam fazer o mesmo hoje, Roosevelt sofreu muito por causa do programa. Mas as críticas pareciam não perturbá-lo.
"Por que não?", foi a famosa resposta dada por ele a perguntas sobre a inclusão de artistas nos programas de assistência do governo. "Eles são seres humanos. Eles precisam viver." Para a nossa sorte, eles também precisavam criar, e hoje podemos desfrutar de pinturas que parecem reveladoras e até íntimas mesmo depois de tantos anos.
A mostra está dividida por temas, com imagens ¿ todas pintadas em 1934 ¿ retratando o povo americano, o trabalho, a indústria, o lazer, as cidades, o campo e a natureza. Harry Gottlieb, de Woodstock, Nova York, retratou trabalhadores coletando blocos de gelo no quadro "Filling the Ice House".
Tyrone Comfort nos coloca tão perto de um minerador descamisado, segurando uma broca sob o solo da Califórnia em "Gold Is Where You Find It", que podemos quase sentir o cheiro de seu suor. A famosa Cathedral of Learning, em Pittsburgh, toma forma em duas obras de Harry W. Scheuch.
Um momento doméstico carrega o poder do olhar franco de uma jovem em "Somewhere in America", de Robert Brackman. Existem cenas alegres, como "Subway", de Lily Furedi, um vislumbre prazeroso de pessoas em um metrô, e o quadro "Baseball at Night", de Morris Kantor, em que ele retrata a sensação esportiva que ainda era novidade em 1934.
Maravilhas naturais também são temas de obras como "The Sky Pond", de Paul Kauvar Smith, que retrata o Parque Nacional das Montanhas Rochosas, e "Jungle", de Paul Kirtland Mays, uma fantasia estilizada que deve ter sido bem recebida pelo público sofrido da Depressão.
A dor americana está totalmente à mostra em "The Farmer's Kitchen", de Ivan Albright, no qual uma velha cansada e decaída é quase insuportável de contemplar. "The Farm", de Kenjiro Nomura, é desolado e traz nuvens escuras, repudiando o bucolismo clichê da vida no campo.
O catálogo nos diz que os nipo-americanos como Nomura que trabalhavam em fazendas na área eram vítimas de leis discriminatórias, que foram apenas um prenúncio das cenas de campos de concentração da Segunda Guerra Mundial, também retratadas por Nomura.
A maioria dos artistas da mostra, cujo trabalho tem sido guardado por décadas, nunca alcançou fama. Mas eles nos deixaram retratos memoráveis do povo e dos valores americanos durante tempos muito difíceis.
Se a exposição do New Deal mostra como a arte pode retratar uma nação, uma nova exposição do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos mostra como a propaganda ¿ em si também uma forma de arte ¿ pode ser usada para persuadir uma nação a seguir um tirano.
"State of Deception: The Power of Nazi Propaganda" nos leva do final da Primeira Guerra Mundial até a Segunda Guerra e a exemplos recentes de laços que unem a propaganda ao genocídio. A mostra irá até 2011. Combinada à famosa exposição principal do museu sobre o Holocausto, você poderia facilmente passar um dia inteiro para assimilar tudo. Reserve pelo menos algumas horas.
A nova mostra fornece aos visitantes o contexto para entender melhor um dos grandes enigmas do Holocausto: como a nação alemã foi convencida a seguir a visão horrorosa de Hitler?
Ficamos sabendo que, como um veterano da Primeira Guerra Mundial, Hitler admirava e se inspirava na propaganda dos Aliados. "A propaganda é realmente uma arma terrível nas mãos de um especialista", ele observou em seu livro de 1924, "Mein Kampf".
Mas enquanto os Aliados retratavam o inimigo armado como hunos subumanos, Hitler direcionou seu veneno paranoico aos cidadãos, incluindo judeus, ciganos, homossexuais e deficientes.
A exposição mostra como Hitler e os nazistas usaram imagens impressionantes, jornais, programas de rádio, filmes de destaque e até mesmo livros infantis e jogos de tabuleiro para falar a uma nação fragilizada pela pobreza e com seu orgulho nacional ferido.
A mostra também argumenta que da mesma forma que alguns alemães não precisaram de muita persuasão (o antissemitismo não era uma ideia inédita), outros se recusaram a aceitar e sofreram as consequências.
A história é familiar, mas os artefatos, muitos emprestados de todo o mundo, oferecem uma perspectiva renovada de como a mensagem nazista se infiltrou por cada canto da vida alemã. A mostra começa com uma cabeça assustadoramente desmembrada de Hitler saindo da escuridão em um cartaz enorme de campanha de 1932. Ele pode ter incitado entusiasmo em seu público na época, mas hoje, a imagem faz nosso estômago revirar.
Outros cartazes de campanha seguem um curso bem conhecido por marqueteiros eleitorais de hoje, pintando os nazistas como um partido de valores familiares para manipular pessoas desesperadas. Um deles mostra marido, esposa e filhos melancólicos e claramente arianos, com os dizeres: "Milhões de homens sem trabalho. Milhões de crianças sem um futuro. Salve a família alemã. Vote em Adolf Hitler!".
A mensagem antissemita raramente era sutil. Caricaturas de narizes grandes estão espalhadas por todo o lugar. Uma dessas figuras tem seu rosto esmagado pelo punho musculoso de um braço com a suástica. Outra é desenhada como um fungo grotesco no livro infantil "The Poisonous Mushroom". Depois de ouvirem a história, as crianças podiam brincar com seus bonecos de ação nazistas, que tinham o braço direito móvel para fazer a saudação "Sieg Heil!" (Viva a Vitória). Ou talvez jogar o violento "Juden Raus" (Fora Judeus), que tinha o objetivo de expulsar comerciantes judeus da cidade.
Por mais ridículos que esses itens possam parecer, seu efeito cumulativo é extremamente assustador. É um alívio descobrir que alguns filmes antissemitas feitos pelos nazistas (que dominaram toda a indústria de filmes da Alemanha, bem como a rádio, os jornais, a nascente indústria de TV, as editoras e tudo mais) eram tão crassos que fracassaram nas bilheterias. Mas outros foram sucessos, e a mostra inclui trechos para você conferir o que era popular nos cinemas controlados pelos nazistas.
Por mais caloroso que o discurso político moderno possa ser, compará-lo às táticas de propaganda nazista pode trivializar a maldade de Hitler. Mas a mostra defende convincentemente que existem comparações justas a serem feitas ao redor do mundo.
E com a internet abrindo novos canais e públicos para os propagandistas atuais, certamente vale a pena examinar os horrores do passado, na esperança de reconhecer os presságios de um futuro desastre.

- The New York Times



