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 Família reunida, mas não por muito tempo
22 de abril de 2010 16h26 atualizado às 17h48

O guitarrista Lee Ranaldo faz parte da exposição. Foto: Reprodução

O guitarrista Lee Ranaldo faz parte da exposição
Foto: Reprodução

Guy Trebal

"O dinheiro nunca foi o ponto", disse Joshua White. "O que interessava era fazer alguma coisa acontecer, era movimentar o cenário".

Digamos que você tenha nascido depois que a Terra esfriou, ou de Woodstock. É provável, com isso, que nunca tenha ouvido falar de White. E portanto é improvável que saiba que foi ele o criador do Joshua Light Show, um famoso show de "luz líquida" que serviu como acompanhamento visual a muitas das mais importantes apresentações de rock dos anos 60, e para as viagens de ácido que fizeram dessas ocasiões marcos duradouros nas memórias dos hippies que hoje em dia estrelam documentários da VH1.

Na semana passada, White estava nos fundos de um vasto espaço em TriBeCa que abriga por um mês um happening contemporâneo chamado ThirtyDaysNY -parte loja, parte galeria de arte, parte espaço de performance que oferecerá muitas palestras, debates e festas (algumas das quais quase raves), em um calendário que se estenderá até maio. Montado ao estilo improvisado do qual White foi pioneiro nos anos 60, o evento é uma produção de dois recentes visitantes, os donos da Family, uma livraria independente de Los Angeles.

Computadores ainda eram um conceito futurista quanto White primeiro se estabeleceu no teatro Fillmore East, criando uma versão primitiva dos efeitos hoje realizados por meio de software digital. Na época, sua magia era realizada por meio de um projetor, bisnagas contendo água e óleo, papel celofane colorido e uma lente curva roubada do mostrador de um relógio. Agora ele trabalha com computadores, como todo mundo, mas tirou a poeira de parte de seu velho equipamento para o ThirtyDaysNY.

Se a urbanista Jane Jacobs estava certa e velhos edifícios se beneficiam de novos usos, o mesmo se aplica à velha tecnologia e a conceitos veneráveis como o de lojinhas familiares que levam família até no nome. Atravessando uma cortina preta que protege uma porta recortada em um tecido espesso de algodão -criação de Gary Panter, mais um agitador cultural cujo nome evoca o passado (a Los Angeles dos anos 80, Pee-wee's Playhouse, a revista Raw)- White entrou e fez uma observação que poderia servir como resumo da proposta da Family: "O que importa não são os materiais, mas quem os usa".

A Family foi inaugurada três anos atrás na North Fairfax Avenue, com estoque adquirido a crédito e um empréstimos de US$ 25 mil. O modelo de negócios da loja ¿se esse não é um termo formal demais para uma empreitada iniciada ao acaso- é o da mais tradicional das empresas, a livraria independente, que costumava surgir e se tornar permanente. Alguém lembra delas?

Não estamos tentando atrair uma audiência específica", com a Family, diz David Kramer, 29, que se associou ao artista gráfico e de quadrinhos Sammy Harkham a fim de criar um espaço físico para o qual pudessem transferir em tempo real as suas conexões de redes sociais. "Não queríamos que a Family se tornasse uma, entre aspas, livraria alternativa, com livros sobre piercings, carros velozes, tatuagens e pichação", disse Kramer, enquanto o pessoal da exposição montava nas paredes fotos recentes de artistas do sul da Califórnia que fazem com que Los Angeles pareça cada vez mais um bairro perdido de Nova York.

"Queríamos um espaço físico real", disse. "Não teríamos criado a Family sem a Internet, mas na Internet não existe essa sensação poderosa de pessoas reunidas em um mesmo espaço".

O que as pessoas desejam de uma livraria, e talvez de outras experiências de varejo, sugere Kramer, é "a sensação de que existe um ser humano por trás daquilo que lhes é oferecido". Ou seja, não importam os materiais, mas quem os usa.

E é por isso que um escritor de Los Angeles caracterizou a Family, sucintamente como "uma livraria que pega o que existe de melhor e mais agradável em Los Angeles, o separa dos egos monstruosos e dos rostos impassíveis da cidade e oferece a todos os interessados, em um espaço de algumas centenas de metros quadrados". O que pode explicar por que a livraria se tornou ponto de visita cultural obrigatória nos últimos 36 meses.

E também pode explicar por que, do nada e sem treinamento formal, contatos setoriais ou ideias predeterminadas sobre a venda de livros, os donos da Family conseguiram atrair a atenção do cineasta Spike Jonze e, com ele, a dos magos publicitários da TBWA/Chiat/Day, o que resultou em uma verba da vodca Absolut para que o pessoal da Family pudesse promover uma experiência semelhante à de sua loja em Los Angeles durante um mês em Nova York.

"Se você vai a uma livraria como a Borders, há uma sensação de frieza, isolamento, e não só porque a aparência é a de um banheiro de aeroporto", diz Kramer.

Já a Family parece bacana e convidativa, em parte porque o espaço evoca os espaços culturais precários mas maravilhosos, operados por artistas, que abundavam em TriBeCa antes que os incorporadores imobiliários tomassem o controle da área e fizessem dela um alojamento para os milionários dos fundos de hedge.

Nas lojas convencionais, disse Kramer, "você está consciente o tempo de que alguém quer lhe vender alguma coisa, em lugar de querer lhe mostrar alguma coisa que as pessoas responsáveis pelo lugar realmente amam".

The New York Times
The New York Times