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Literatura das ruas sai dos guetos dos EUA

02 de março de 2005 12h46

Depois de passar anos no underground literário, a chamada "street lit" pode finalmente estar prestes a fazer grande sucesso. O gênero é uma espécie de literatura negra hip-hop, cujas obras frequentemente são publicadas por seus próprios autores e vendidas nas esquinas das cidades norte-americanas.

As histórias da "street lit" ¿ algo como "literatura das ruas" ¿ são duras e cruas em todos os sentidos: em sua linguagem, na violência, nas descrições explícitas de sexo e na determinação dos personagens em escapar da miséria dos guetos urbanos nas grandes cidades.

A religião, a obsessão com marcas e a luta explícita entre bem e mal exercem grande papel nos livros de "street lit", fazendo deles um misto de histórias com moral, dos romances mais violentos de Mario Puzo sobre mafiosos e da ficção leve e descompromissada da "chick lit" (livros escritos por e para um público feminino jovem).

Simba Sana, co-proprietário da pequena rede de livrarias Karibu, em Washington, opina: "No início, não chegava a ser um fenômeno de verdade. Basicamente esses livros eram lidos por sujeitos que tinham acabado de sair da prisão."

O romance The Coldest Winter Ever, de Sister Souljah, saiu há cinco anos, já vendeu 1 milhão de cópias e continua vendendo bem. Ela e outras escritoras, como Nikki Turner, estão tendo seus livros publicados por grandes editoras em parte por causa de leitoras fiéis.

"Quem realmente abriu o mercado foi Sister Souljah", disse Sana. "Era um livro sobre uma garota negra. Aquilo abriu a porta para Nikki Turner."

RETRATO DA AMÉRICA URBANA

A mesma classe média branca que lê Ha Jin porque se interessa pela China ou Mario Vargas Llosa para ter uma visão da América Latina pode ler o instigante The Bridge, de Solomon Jones, para ter uma idéia sobre a vida nos guetos de suas próprias cidades.

Tony Medina, que leciona literatura na Universidade Howard, gostaria de ver as livrarias oferecendo livros sobre a vida das ruas que fossem melhor escritos ¿ obras como Daddy was a Number Runner, de Louise Meriweather, ou "Down these Mean Streets", de Piri Thomas.

"Eu mesmo vim dos conjuntos habitacionais pobres, do gueto. É como qualquer lugar ¿ há beleza e feiúra lado a lado. Por que celebrar o feio?", disse ele. "Acho que a street lit causa um problema: ela romantiza as prostitutas e os cafetões."

Malaika Adero, editora sênior da divisão Atria da editora Simon & Schuster, que publica os trabalhos de Sister Souljah e quatro outros autores de "street lit", discorda.

"A street lit é um retrato da América urbana e do que acontece nas sociedades marginalizadas", disse ela. "Os leitores desses livros gostam de enxergar o mundo como eles o conhecem, ler a língua que eles ouvem e falam. Eles enxergam (nesses livros) os personagens que conhecem."

Os "pais" da "street lit" foram Iceberg Slim, cujo nome real era Robert Beck, e Donald Goines, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Ambos tinham cumprido pena de prisão e escreveram em primeira mão sobre prostituição, drogas e as ruas.

Os dois primeiros livros de Nikki Turner ¿ A Hustler's Wife e A Project Chick ¿ venderam juntos 150 mil cópias, segundo o empresário da escritora.

Ela assinou contrato com a Ballantine Books, tornando-se a primeira autora de "street lit" da editora. Seu terceiro livro, The Glamorous Life: A Novel, tem lançamento previsto para abril.

Reuters
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