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Carnaval de Salvador homenageia 70º aniversário da guitarra baiana

8 fev 2013
15h32
atualizado às 15h32
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Uma senhora de 70 anos que colocou o bloco na rua. Essa seria uma definição simples da guitarra baiana, criada em 1942 por Osmar Álvares Macêdo e Adolfo Antônio do Nascimento – ou simplesmente Dodô e Osmar - e grande homenageada do Carnaval 2013 em Salvador. De lá para cá, ela evoluiu pelas mãos de Armandinho Macêdo, filho de Osmar, e hoje redesenha sua trajetória no dedilhado de jovens artistas, como Robertinho Barreto, da Baiana System.

Família Macêdo, de Armandinho (à esq.), foi a responsável pela invenção da guitarra baiana
Família Macêdo, de Armandinho (à esq.), foi a responsável pela invenção da guitarra baiana
Foto: Família Macêdo/Acervo / Reprodução

Nascido “pau elétrico”, o instrumento foi o primeiro a ter um corpo sólido eletrificado no Brasil. Dodô e Osmar, que já tocavam juntos, queriam obter um som mais alto de um cavaquinho, e a tentativa que deu certo foi a colocação de um captador elétrico. Dali por diante foram muitas mudanças. A primeira foi mudar o nome para cavaquinho de trio, para acabar com as brincadeiras maldosas dos amigos por causa do nome de duplo sentido.

Dois anos depois, em 1950, Dodô e Osmar colocaram na rua a Fobica: um Ford 1929 pintado com motivos carnavalescos. Em cima, a dupla e mais alguns músicos, o “pau elétrico” e caixas de som, e já arrastando sua primeira multidão. Em 1952, a entrada de Temístocles Aragão para o grupo fez nascer o nome trio elétrico.

Mas a grande virada aconteceu mesmo nos anos 1970, quando um dos filhos de Osmar, Armandinho, já então um virtuose da guitarra, fez alterações experimentais no instrumento. A mais importante foi a introdução de uma quinta corda. Surgia então a guitarra baiana, criada antes no Brasil antes de qualquer guitarra elétrica de corpo sólido ser importada pelos músicos locais. “Não houve inspiração em nenhum outro instrumento. Foi uma coisa criada aos poucos, na busca por um som específico”, explicou Armandinho.

Apesar de ter sido a base para o Carnaval de rua e dos trios elétricos, a guitarra baiana foi se tornando aos poucos afastadas do repertório da festa. Nos anos 1950, o “frevo baiano” era a estrela do repertório, e isso continuou por muito tempo. A exceção eram os blocos afro, que sempre tiveram na percussão o centro de sua musicalidade. Mas, com o surgimento da axé music nos anos 80, que tem criação reivindicada por Luiz Caldas, a guitarrinha foi perdendo espaço.

Ao lançar o sucesso Fricote, mais conhecido como Nêga do Cabelo Duro, o multinstrumentista e cantor baiano substituiu o solo da guitarra baiana por um de teclado. “Eu sempre toquei de tudo e fui inquieto. Queria dizer que não era só o frevo ou a guitarra baiana que poderiam subir no trio”, explicou.

A música das ruas ganhou uma execução mais simples e se tornou mais aberta à mistura, e a fidelidade a um instrumento difícil como a guitarra baiana começou a ser quebrada. “Tenho minha parcela de culpa. A partir do nascimento da axé music, qualquer músico poderia estar na linha de frente em um trio e se sair bem”, analisou Caldas.

Os dois músicos concordam em um ponto: a guitarra baiana é um instrumento para poucos. “Ela não é só harmonia. Para começar, o guitarrista tem que ser um bom solista para tocá-la. Poucas pessoas do axé, como Luis Caldas e Durval Lelys, têm domínio sobre ela”, afirmou Armandinho. Em seu conhecido tom contundente, Caldas completou: “é muito mais fácil dizer que um instrumento é ultrapassado do que confessar que ele é difícil de tocar, não é mesmo?”

Sem rancores ou críticas dirigidas a quem quer que seja, Armandinho lamenta que a guitarra baiana não esteja presente nos arranjos dos atuais hits do Carnaval, que ele associa ao crescimento da “música de consumo”. Mesmo assim, mantém o foco de seu trabalho no instrumento e segue buscando sua difusão. “Acho que ela ainda está no começo, apesar de já ter uma história rica e importante. Esse ano, como é tema do carnaval, tenho conversado com os colegas para que incluam pelo menos um número em suas apresentações nos trios, e mesmo fora deles isso tem crescido.”

Ele não está errado. Elifas Santana, o luthier sergipano que faz as guitarras dos Macêdo e por muito tempo reinou sozinho neste mercado, hoje tem a companhia de nomes como Jacimário, Fábio Batange, Jean Paul Charles e Iuri Barreto. Parte de seus clientes são crianças, muitas oriundas da Oficina de Música Instrumental Escola Osmar Macêdo, única escola exclusiva de guitarra baiana do mundo.

Além de aprendizes, também cresce a cada dia o número de músicos profissionais que investem em experimentações com o instrumento. É o caso da Baiana System, banda criada em 2009 pelo guitarrista Robertinho Barreto, pensada exatamente para misturar a guitarra baiana e o sound system, com referências africanas e latinas. “Eu já compunha na guitarra baiana e compunha para ela. Tanto que quando começamos, já tinha seis músicas inéditas prontas”, conta Barreto.

Apesar da novidade de ouvir a guitarra baiana, antes exclusiva do frevo baiano, em uma sonoridade completamente nova, misturada com o dub, a experiência tem sido de “estranhamento confortável”, disse Barreto. Ele conta que a resposta tem sido positiva tanto em termos de crítica quanto de público, mas especialmente entre os próprios músicos. O resultado se traduz no surgimento de cada vez mais oportunidades de trabalho, a maioria fora do país. Os convites a festivais são frequentes, geralmente para a categoria world music. O que mais chama a atenção é a aplicação de um instrumento regional e pouco difundido a um som contemporâneo e cosmopolita.

Assim como os irmãos Macêdo, os rapazes da Baiana System fazem questão de ser fiéis ao próprio estilo, a tal ponto de já terem sido chamados de seletivos demais. Robertinho Barreto explica que de fato existe uma limitação do grupo em relação a eventos e projetos. Qualquer coisa que vá de encontro às convicções artísticas dos oito rapazes fica de fora. “Não temos a ânsia de tocar de todo jeito, toda semana, até porque é desgastante para nós e para o público. Deixa de ser interessante”, acredita o guitarrista.

Carnaval ao vivo no Terra 
O Terra transmite entre os dias 7 e 12 de fevereiro a passagem dos principais trios-elétricos pelos circuitos Barra-Ondina e Campo Grande de Salvador ao vivo e de graça no Terra via computadores, tablets, smartphones ou televisores conectados. A transmissão será em alta definição (HD) ou qualidade standard - dependendo da disponibilidade de banda do usuário - para todo o Brasil e demais países da América Latina. O portal também transmitirá tradicionais bailes e blocos de rua do Rio de Janeiro. Já no dia dos desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo, o público poderá acompanhar todos os detalhes através de narração minuto a minuto e a apuração nota a nota que definirá as campeãs.

Fonte: Especial para Terra
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