0
Logo do Carnaval de São Paulo
Foto: Alessandro Buzas / Futura Press

Carnaval de São Paulo

Enredo da Rosas de Ouro nasceu de um sonho, diz carnavalesco

24 jan 2013
07h55
atualizado às 08h39
  • separator
  • comentários

Carnavalesco da Rosas de Ouro há seis anos, Jorge Freitas traz no currículo diversos títulos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Sua entrada para o mundo do Carnaval aconteceu por acaso, quase como uma brincadeira, e hoje o evento ocupa grande parte de sua vida. Aposentado como regente, ele se tornou diretor de Carnaval da escola e além de elaborar os desfiles ainda se dedica a trabalhos voltados à comunidade. Foi dela, aliás, que tirou a ideia para o enredo deste ano, ‘Os Condutores da Alegria Numa Fantástica Viagem aos Reinos da Folia’.  “Uma menina da comunidade teve um sonho. Ela estava na avenida e chegou lá através de uma estrela, que também a levou para conhecer outras festas pelo mundo e depois voltou para o Carnaval”, contou ele em entrevista exclusiva ao Terra. A partir daí, Jorge planejou o desfile que atravessará continentes mostrando diferentes festas populares.

Jorge Freitas comanda seu sexto Carnaval pela Rosas de Ouro
Jorge Freitas comanda seu sexto Carnaval pela Rosas de Ouro
Foto: Bruno Santos/Terra

Confira a entrevista completa com Jorge Freitas, carnavalesco da Rosas de Ouro:

Terra: Você estreou no Carnaval em 1995. Como se envolveu com esse mundo?
Jorge Freitas: Eu sou de Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro. E eu entrei no Carnaval através da regência. Lá no meu distrito tinha uma banda, da qual eu era maestro, e um bloco. Uns dois meses antes do Carnaval este bloco precisou de um mestre de bateria, o cara tinha ido embora e perguntaram se eu podia substituí-lo. Nunca tinha feito isso, mas decidi tentar. Eu era molecão ainda, mas o negócio deu certo. No ano seguinte eles precisavam de um carnavalesco. Eu nem sabia o que era isso, mas eu dava aula de educação artística.  Fiz o Carnaval e ganhei. Eu fui gostando da coisa, o bloco se transformou em escola de samba e eu ia para o Rio para comprar material. Lá conheci a diretora da Beija Flor. Ela dizia que eu tinha estilo, que tinha talento e me convidou para fazer um trabalho no Rio. Esse não era o foco da minha vida, mas decidi tentar. Eu fiz o desfile da Arranco do Engenho de Dentro, que era grupo B, e a escola foi para o Grupo Especial. Agora imagina o cara vem lá do interior e no primeiro Carnaval já ganha. Aí no ano seguinte já estava no Grupo Especial, pela Vila Isabel e fiquei lá por cinco anos.

Terra: E como foi a vinda para São Paulo?
JF: São Paulo estava passando pelo processo de transição do Carnaval amador para o profissional. Fui contratado para fazer o desfile da Gaviões da Fiel (2000) e fiquei três anos aqui em São Paulo. Com os títulos (2002 e 2003) fui convidado para fazer o desfile da Portela, a primeira reedição de um Carnaval no Rio. Nisso, a Gaviões desceu aqui e me contrataram novamente, vencemos e ela voltou para o Grupo Especial. Foram quatro títulos na Gaviões e achei que o trabalho que tinha realizado lá já podia se expandir para outra escola. Foram três carnavalescos, eu, Chiquinho Spinoza e Roberto Szaniecki, que fizemos essa transição para o profissionalismo. Então, ajudamos muito na construção desse mito que hoje é o Carnaval de São Paulo.

Terra: Como foi sua chegada na Rosas de Ouro?
JF: Em 2006, a Liga de São Paulo falou que estava precisando de um carnavalesco para cuidar do desfile de 2007 da Pérola Negra. Ela tinha subido para o Grupo Especial e era uma escola que eles queriam manter no grupo por estar passando por um processo de profissionalização e perguntaram se eu estava a fim de encarar esse desafio. Já era setembro, mas decidi participar. Foi até um presente para mim, porque era uma forma de reconhecimento pelo meu trabalho. Fizemos um baita carnaval e a Pérola se mante no Grupo. E daí a Rosas de Ouro me chamou. Este já é meu sexto ano. Aqui ganhei o título em 2010.

Terra: Agora você fica em São Paulo direto?
JF: Estou morando aqui. Era Secretário de Turismo de Friburgo, mas saí do cargo e me aposentei como regente. Agora mantenho minha casa em Friburgo, mas transformei São Paulo em minha residência. Eu me dedico o ano inteiro apenas à Rosas de Ouro.

Terra: Você considera retornar para o Carnaval carioca?
JF: Todo ano sou chamado. Não descarto essa possibilidade, mas meu estilo vingou muito em São Paulo. Em 2003 eu fiz Vila Isabel no Rio e Gaviões em São Paulo, mas é cansativo. Eu tinha duas equipes, hoje tenho uma só. Eu concentrei todo mundo para fazer um carnaval maior e mais detalhado. O meu estilo é muito voltado para acabamento, então para isso preciso de mais gente.

Terra: Como é sua relação com a comunidade?
JF:
Estou como diretor de carnaval da Rosas de Ouro há três anos. Eu gosto de trabalhar muito a comunidade. Fazemos apresentações de teatro e inúmeros eventos voltados para eles durante o ano todo. O meu Carnaval só acontece pelo comprometimento que tenho com a comunidade. Desde o mês de março, após o carnaval passado, nós já estávamos ensaiando com a comunidade a apresentação do enredo. Fizemos uma apresentação de uma hora e meia para 750 pessoas. Quando é que em março as pessoas vão pensar em fazer isso e vão ter essas pessoas dentro da escola? Então, não é apenas trabalho de Carnaval, o trabalho reflete no Carnaval. As pessoas aqui são muito chegadas graças a essas ações sociais que existem durante o ano. Em cada uma das 12 alas de comunidade existem lideranças. Em uma ala de 100 pessoas eu tenho um grupo de 15 a 20 pessoas que durante todo ano trabalham aqui comigo. O mais importante de uma escola de samba é o social.

Terra: Hoje a Rosas de Ouro se tornou sua escola do coração?
JF: Não é que seja do coração. Eu sou um profissional, mas passei a gostar muito das pessoas da Rosas de Ouro pelo trabalho e comprometimento que eles têm com o meu trabalho. É uma escola pela qual tenho um carinho muito grande. Você falar que é Rosas, Gaviões, é complicado porque é um profissional. Mas é claro que no seu interior você guarda aquela paixão por alguma, mas não posso falar assim.

Terra: Você chegou a São Paulo pela Gaviões. Seu time aqui é o Corinthians?
JF: Não, eu sou fluminense. Sou fluminense no Rio, em São Paulo, em qualquer lugar.

Terra: Houve alguma dificuldade em relação a isso na Gaviões?
JF: Nada, não houve dificuldade nenhuma. Sou um profissional. Muito pelo contrário, todo ano eles me chamam para fazer o Carnaval novamente. Então, houve esse vínculo profissional independente de qualquer coisa, e onde estou me dedico da mesma forma.

Terra: Tendo essa experiência em diferentes escolas no Rio e em São Paulo, quais para você são as principais diferenças entre os dois carnavais?
JF: Eu acho que você não pode nunca comparar Carnaval do Rio com o daqui. São coisas diferentes, cada um tem suas características. O Rio tem aquele glamour e como tudo que acontece em São Paulo, o Carnaval aqui também é grandioso. Rio tem um perfil e São Paulo tem outro, como Parintins, a partir do momento que for igual acabou, é a diferença que faz de cada um especial. O próprio palco é diferente. Você tem uma baita concentração e dispersão aqui em São Paulo, mas a arquibancada é baixa e pequena. Lá no Rio já não há uma dispersão tão boa, mas a arquibancada é alta. O povo do Rio, pela cultura, já tem dentro dele o Carnaval durante o ano inteiro, então já é diferente a relação do público. Mas em termos de grandiosidade e beleza os dois são totalmente iguais.

Terra: Como nasceu a ideia do enredo deste ano?
JF: Já tínhamos uma parceria com a Mercedes-Benz antes de acabar o Carnaval 2012. O que estava faltando era escolher a forma ideal para juntar duas marcas fortes, o nome da escola e o da empresa. Quando você patrocina quer expor sua marca e seu produto, então a primeira ideia que foi lançada tinha a ver com transporte. Carro, caminhão, estrada, isso já tinha sido tema de diversas outras escolas, também por causa de patrocínio, mas não houve sucesso com esses enredos. Nisso uma menina da comunidade chamada Mercedes teve um sonho. Ela estava na avenida e ela chegou através de uma estrela, que é o símbolo da Mercedes-Benz, que também a levou para conhecer outras festas pelo mundo e depois voltou para o carnaval. Apresentei essa ideia e os caras ficaram fascinados. Daí ficou decidido que não haveria a necessidade de inserir nem o nome nem o símbolo da marca no desfile, pois o patrocínio estava sendo através de lei de incentivo a cultura, da lei Rouanet. Isso me deu total liberdade, então tirei a estrela e segui com a ideia. Então, é um enredo cultural.

Terra: Quanto tempo houve entre o início do planejamento e você ter o projeto do desfile completo?
JF: Ao todo foram cinco meses. Depois que acerta o foco, o enredo vai ser esse, essa é a linha que vou seguir aí já era. Isso cai no inconsciente coletivo e é hora de ir atrás de mais pesquisa para definir o que vai ser mais interessante trabalhar.

Terra: Qual foi o critério de seleção para quais festas folclóricas entrariam no desfile?
JF: Eu procurei colocar algumas festas bem desconhecidas do povo, como o Aloha Festival, da Oceania. Abrimos com essa festa, depois damos um salto e vamos para África, que foi o primeiro polo de manifestações através de festas. Lá teremos a Festa dos Guerreiros Zulu. Em seguida vamos para a Europa, onde falaremos da Fallas de Valência, na Espanha, e o Carnaval de Binche, na Bélgica, que são festas pouco conhecidas. A bateria vem de Trooping the Colour, que é a guarda da rainha britânica, uma coisa que as pessoas veem e tem curiosidade pelo glamour. Depois, teremos o Carnaval de Veneza e o St Patricks Day, da Irlanda. Essas são festas que as pessoas já ouviram falar, mas não sabem muito bem o que são. Na Ásia apresentaremos o Festival do Sorriso, das Filipinas. Isso tem uma história legal. Após o tsunami, a população local estava devastada e muito triste e esta festa foi criada para trazer um pouco de alegria e celebrar a vida. Vamos falar também do Candle Festival, na Tailândia, e do Ano Novo Chinês, que vai acontecer no dia 8, dia do nosso desfile. Na América falaremos da Endiablada peruana e do Carnaval de Barbados, duas festas que a Rosas de Ouro participou no ano passado, e Dia dos Mortos, no México. Daí cairemos no Brasil, com uma festa representando cada região: a festa junina no Nordeste, Parintins no Norte, a cavalhada no Centro Oeste, o Natal Luz de Gramado no Sul e o Carnaval no Sudeste. Desta forma terminamos nosso desfile no maior espetáculo da Terra. Meu Carnaval é muito didático, pela minha formação de professor.

Terra: O ano passado a Rosas de Ouro foi vice-campeã. Como está a expectativa para este ano?
JF: A expectativa é de fazer um grande Carnaval. A minha preocupação é conseguir colocar tudo o que planejamos aqui em prática. Sempre tento deixar na cabeça dos componentes que a maior preocupação é com o público, é fazer um belo espetáculo porque as pessoas merecem esse carinho. É claro que você está indo para uma competição, existem quesitos e você será jugado, mas se conseguir passar essa energia para o público, receber isso de volta em aplausos já valeu. Interagir com ele através da felicidade é o mais importante. A minha preocupação é com o espetáculo, o resultado vem na consequência disso. Procuramos fazer nosso melhor em todos os quesitos.

Terra: Você acha que todos esses anos de experiência ajudam ou atrapalham na hora de criar um desfile novo?
JF: Acho que cada Carnaval é um novo desafio. É como se fosse um filho. Você vai gerar e vai protegendo de todas as formas, mas quando ele nasce, quando você tira do papel e torna realidade, cresce e ganha brilhos que você jamais poderia imaginar. Então a cada ano, por mais que você tenha experiência em Carnaval, é uma coisa nova. O nervosismo é o mesmo.

Terra: Você ainda fica muito nervoso antes do desfile? Tem algum ritual especial?
JF: Eu sou muito nervoso. Quando anuncia a escola você fica querendo que tudo dê certo. Para mim o Carnaval só termina quando o último componente atravessa a dispersão. Não tenho nenhum rito, tenho apenas cacoetes. Eu sou hiperativo para caramba. Mas isso já é meu naturalmente. Com minha história na regência, com esportes, sempre vivi no mundo de competições.

Terra: Houve algum Carnaval mais marcante na sua vida?
JF: Em todas as escolas vive carnavais especiais. Mas um Carnaval que marcou na minha história foi ‘Lendas e Mistérios da Amazônia’, na Portela, em 2004. Foi a primeira reedição de um carnaval carioca. Ele tinha sido campeão em 1970, então eu já tinha uma grande responsabilidade, mas foi fantástico. Na Gaviões foi o ‘Xeque-mate’, que foi maravilhoso. E na Rosas de Ouro foi ‘A Fábrica de Sonhos’. Esse foi uma coisa linda, que nasceu no semáforo. Eu estava indo para o aeroporto e encontrei uma menininha no farol que me pediu para comprar uma bala. Passei, mas aquilo mexeu comigo, então contornei e parei de novo. O nome dela era Ingrid. Ela perguntou de novo: ‘Tio, quer comprar uma bala’. Eu disse: ‘Vou comprar sua bala. Você estuda. Você é linda’. Ela perguntou o que eu fazia, e não entendeu nada do que eu disse, mas então eu expliquei que trabalhava em uma escola de samba. E ela falou: ‘Ah, você trabalha onde faz sonhos!’. Já no meio do caminho liguei para o pessoal e disse que já tinha o enredo, seria fábrica dos sonhos. Depois, procurei a menina que foi protagonista de tudo aquilo, mas não encontrei. Acho que coisas marcam nossas vidas e isso foi um fato que marcou a minha. Isso fez com que eu fizesse um belo Carnaval aquele ano.

 

Fonte: Terra

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade
publicidade