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15 de agosto de 2009 • 13h21 • atualizado às 13h27

Há 100 anos morria Euclides da Cunha, autor de 'Os Sertões'

Principal obra de Euclides da Cunha é o livro 'Os Sertões'
Foto: Divulgação
 
Claudio R. S. Pucci
Especial para o Terra

Quando Euclides da Cunha foi mandado pelo jornal O Estado de São Paulo para os sertões baianos como correspondente na quarta incursão militar a Canudos, mal sabia ele que a experiência se transformaria em uma das mais importantes obras da literatura brasileira, Os Sertões. Para aquele jornalista, ex-militar e republicano ferrenho, a saga de Antônio Conselheiro e seus seguidores refletia a grande divisão que acompanharia o Brasil por mais de um século depois: a condição do povo litorâneo versus o povo interiorano.

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20 de janeiro de 1860 em Cantagalo, no Rio de Janeiro. Órfão de mãe aos três anos de idade, viveu com tias em Teresópolis, São Fidélis (RJ), e em Salvador, na Bahia, até voltar para o Rio de Janeiro em 1879. Depois de passar por algumas das melhores escolas fluminenses, tentou a carreira de engenheiro na Escola Politécnica mas foi obrigado a desistir do curso devido a problemas financeiros. Acabou então se matriculando na Escola Militar da Praia Vermelha, onde frequentou o curso de Estado-maior e Engenharia Militar, ao lado de Cândido Rondon.

O Brasil naquela época fervia com o movimento republicano e Euclides, aluno de um dos símbolos do movimento, Benjamin Constant, abraçava fortemente o ideal. Isso o levou a um protesto inusitado em 1888, atirando sua espada aos pés do Ministro de Guerra quando de uma revista às tropas. Acabou sendo desligado do exército e passou a escrever manifestos ao jornal A Província de São Paulo. Com o fim da monarquia, foi reintegrado ao serviço militar graças à ajuda do major Sólon Ribeiro, seu futuro sogro e, em 1890, casou-se com Ana Emília Ribeiro.

Quando finalmente se formou na Escola Superior de Guerra, o presidente e marechal Floriano Peixoto lhe deu a liberdade de escolher a posição que quisesse no novo governo. Avesso a nepotismo, preferiu seguir estritamente o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: praticar, durante um ano, na Estrada de Ferro Central do Brasil. Sempre com a saúde debilitada, Euclides foi forçado a se retirar por meses na fazenda de seu pai em Belém do Descalvado e só retornou ao Rio em 1893, onde ganhou a patente de primeiro-tenente.

Três anos depois, abandonou a carreira militar e foi para São Paulo. Lá surgiu a oportunidade de ouro de sua vida, cobrir a rebelião de Canudos. Como correspondente de guerra e adido ao Estado-Maior do ministro da Guerra, o escritor ficou chocado com o que viu. Distanciou-se da visão elitista do conflito (que achava que os insurgentes simplesmente queriam a volta da monarquia) e começou a entender as razões para aquelas pessoas se rebelarem. Entendeu também como funcionava o ciclo da seca que atinge o nordeste constantemente e transforma a vida de seus habitantes. O assunto se tornaria uma de suas lutas até o fim da vida.

Testemunhando o massacre que se seguiu, doente e quebrado, Euclides da Cunha retornou ao Rio de Janeiro quatro dias antes do fim dos conflitos, mas já trazia a ideia de escrever o que considerava um "livro vingador". Depois de um tempo na fazenda do pai, voltou ao ofício de engenheiro e em 1898, chefiando a construção de uma ponte em São José do Rio Pardo, escreveu sua maior obra nas horas vagas. Chegou a afirmar: "Escrevo-o, em quartos de hora, nos intervalos de minha engenharia fatigante e obscura".

Foi somente em 1902 que, depois de exaustivas revisões, a primeira edição de Os Sertões chegou ao público. Foi um sucesso tremendo para a época e se esgotou em pouco mais de dois meses. Graças a ela, acabou sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Em 1904 envolve-se ativamente nos conflitos entre Brasil, Bolívia e Peru no Alto Amazonas, criticando a presença militar e sugerindo uma solução pacífica para a criação do estado do Acre. Essa experiência inspirou as obras À Margem da História, o texto filosófico Judas-Ahsverus e o ensaio Peru x Bolívia. Também propôs uma "guerra dos 100 anos" contra a seca nordestina, sugerindo uma exploração científica e econômica da região com a construção de açudes e poços e ainda o desvio do Rio São Francisco.

Depois de trabalhar por um período para o Barão do Rio Branco em questões amazônicas, candidatou-se à cadeira de Lógica no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e ficou em segundo lugar no concurso público. O Barão e o escritor Coelho Neto acabaram interferindo no resultado, apelando para o então presidente da República, Nilo Peçanha e Euclides ficou com a posição.

Ana, Euclides e Dilermando

As constantes viagens de Euclides fizeram com que sua esposa, Ana, começasse um ardoroso romance com um jovem tenente, Dilermando de Assis. Ana teve dois filhos com o amante. Um faleceu ainda bebê (com trocas de acusações das partes, ela dizendo que Euclides a impedia de amamentar a cria e ele dizendo que Ana havia tomado abortivos) e o outro foi assumido pelo escritor, mesmo que o chamasse de "uma espiga de milho no meio do cafezal" já que era a única criança loira em meio a tantos filhos morenos. Foi justamente essa traição de Ana que desencadeou a morte de Euclides da Cunha.

Em um domingo chuvoso, a 15 de agosto de 1909, o escritor invadiu a casa do tenente com arma em punho disposto a matar ou morrer. Na troca de tiros, Euclides da Cunha foi morto. Dilermando acabou sendo absolvido pela justiça alegando legítima defesa e casou-se com Ana, os dois permaneceram juntos por mais 15 anos. Em 1916, Dilermando acabaria matando também o filho de Euclides, Quindinho, quando este tentou vingar a morte do pai e, mais uma vez, saiu livre da acusação de assassinato.

Euclides da Cunha foi velado na Academia Brasileira de Letras e seu corpo encontra-se hoje em um mausoléu em São José do Rio Pardo. A cidade promove todos os anos a semana Euclidiana, entre 9 e 15 de agosto, em homenagem ao escritor. Os Sertões já foi adaptado para o cinema (Guerra dos Canudos de Sérgio Rezende), televisão (Desejo de Wolf Maia) e teatro (na produção de José Celso Martinez Corrêa).

Especial para Terra