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03 de fevereiro de 2014 • 12h16 • atualizado às 17h28

Moradora do Edifício Master sobre Coutinho: 'ficou uma amizade gostosa'

Corpo do cineasta morto no Rio é velado em cemitério de Botafogo; para Vera Savelle, Coutinho 'soube extrair um pedaço de vida de cada um'

Vera Lucia Maciel Savelle, que participou do documentário Edifício Master, foi se despedir do cineasta 
Foto: Daniel Ramalho / Terra
  • André Naddeo
    Direto do Rio de Janeiro
 

Daniel Coutinho, 41 anos, filho do cinesta Eduardo Coutinho, 81 anos, é considerado por um vizinho que não quis se identificar como uma pessoa "muito introvertida". O rapaz tem esquizofrenia e está preso sob custódia, apontado como o principal suspeito da morte do pai, assassinado a facadas no domingo no Rio de Janeiro. "Ultimamente quase não o via mais. Ele praticamente não saía de casa. Sempre foi uma pessoa muito quieta", contou o morador do apartamento do 6º andar do edifício onde morava um dos principais documentaristas do Brasil. O vizinho também relatou que, após ter atacado os pais, Daniel bateu em sua porta e disse: "libertei meu pai. Tentei libertar minha mãe". 

Eduardo e a mulher, Maria das Dores de Oliveira Coutinho, 62 anos, eram tidos como um casal "generoso e tranquilo". "Ele emprestava a garagem pra guardar o carro. O pessoal do prédio está chocado. Era um casal muito meigo", disse o morador no velório do cineasta que ocorre desde as 11h desta segunda-feira no Cemitério São João Baptista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. 

O vizinho relata que procurou o porteiro do prédio e acionou o socorro, e "primeiramente, os bombeiros desceram com o Daniel, que estava ferido, mas fumava ao mesmo tempo". O vizinho conta ainda que o filho do cineasta agradeceu por ele ter feito a chamada telefônica e repetiu: "ele disse que não era a hora dele ainda".

"Minha esposa, depois disso, lembrou que tinha ouvido gritos da Dora (esposa do Coutinho). Foi quando eles (bombeiros) voltaram e a encontraram trancada e ferida em um dos cômodos do apartamento. O corpo do Eduardo se encontrava na sala", relembrou também.

'Personagens' descrevem experiência em documentários
Vera Lucia Maciel Savelle, 62 anos, que fez parte do documentário Edifício Master, dirigido por Coutinho, considerou "incríveis" os três meses de convivência com o cineasta. "Vim prestar minha homenagem. Infelizmente vi isso somente nos jornais de hoje. É uma lamentável notícia, não podia deixar de vir aqui dar meu adeus." 

Moradora do prédio que deu nome ao documentário, Vera contou que foram meses de vida compartilhados com todos os moradores do Master. "Ficou uma amizade gostosa de alguém que sabia conversar com as pessoas e que soube extrair um pedaço de vida de cada um dos moradores", elogiou, com um cartão postal em suas mãos com a imagem do prédio. "Foram meses de muita farra, alegria e de momentos que vou guardar para sempre na minha memória", completou. 

O ator Paulo Ascenção conhecia Coutinho há 20 anos e trabalhou com o cineasta em Edifício MasterO Astro. No velório, ele valorizou a competência e a generosidade do documentarista. "Ele tinha muito conhecimento do que fazia e sensibilidade de extrair tudo o que precisava do entrevistado. Generosidade por não ter receio de ensinar e não tinha problema em trocar figurinhas. Jamais esperaria isso. Foi uma pancada."

Para Ascenção, Edifício Master pode ser considerado como o auge do trabalho dele. "Foram dias incríveis em que as pessoas não queriam sair de casa e tinha vergonha de aparecer na câmera, mas como a abordagem dele foi fantástica, ele conseguiu produzir esse belo trabalho", completou.

O ator Lázaro Ramos também passou, rapidamente, pelo velório do cineasta Eduardo Coutinho para prestar sua homenagem. "Não conhecia os filhos, mas conhecia o Eduardo da convivência (no mundo do cinema). Foi uma tragédia, uma fatalidade. É a perda de um sábio", afirmou aos jornalistas no velório, que ocorre na capela 3 do cemitério São João Batista. O enterro será às 16h.

"Era uma pessoa engraçada"
"Foi uma surpresa muito grande e ruim para todo mundo. Eu era a ligação dele com a família de São Paulo", disse Heloísa de Oliveira Coutinho, 78 anos, irmã do cineasta, paulista e radicado no Rio de Janeiro. Ela disse que recebeu a notícia do sobrinho, Pedro Coutinho, por volta de 13h do último domingo e chegou ainda ontem ao Rio para o velório e enterro do irmão.

"A gente se falava pouco. Ele era uma pessoa muito discreta, não externava a sua vida pessoal", afirmou ainda sobre o ataque de Daniel, seu outro sobrinho, ao irmão e cunhada. A Polícia Civil já confirmou que ele foi o ator do assassinato do pai e da tentativa de homicídio da mãe. Ele está sob custódia no hospital municipal Miguel Couto, na zona sul do Rio. Após os golpes com faca no casal, ele teria tentado se matar. 

"A gente desaba com uma notícia dessas. Mas eu posso dizer que o meu irmão, apesar do conhecido mau humor, era uma pessoa engraçada, com umas tiradas incríveis, ótimo pai e com uma maneira inigualável de ser", concluiu.

Silêncio do filho
Ao chegar ao velório do pai por volta das 15h, Pedro Coutinho preferiu o silêncio e não quis conversar com a imprensa. Ele, que é promotor de Justiça em Petrópolis, na região serrana do Rio, desembarcou no cemitério emocionado, acompanhado da esposa e de outros familiares. 

O ator João Miguel confessou ter ficado abalado com a notícia. "É uma pessoa que vai deixar saudades, mas também inspiração. Um homem como o Eduardo não foi só um documentarista. Ele era um dos melhores cineastas inventivos do Brasil", elogiou. 

Quem também passou pelo local para se despedir do cineasta foi a cantora Adriana Calcanhoto. "Conheci pouco, mas não tenho palavras, sou muito fã dele. Adorava tudo o que ele fazia. Ele fez cinema de um jeito só dele", afirmou. 

Barretão considera que a morte de Coutinho 'é uma perda enorme para o cinema brasileiro e mundial'
Foto: Daniel Ramalho / Terra

"Respeitado no mundo inteiro"
Para o cineasta Luiz Carlos Barreto, mais conhecido como Barretão, a morte de Coutinho é uma perda enorme para o cinema não só brasileiro, mas mundial. "Ele foi um documentarista respeitado no mundo inteiro. Ele modernizou a linguagem do documentário com uma linguagem dramatúrgica, com profundidade de análise, e não apenas com um registro. Em suma, ele abriu uma escola e levou as pessoas ao cinema para ver documentários, coisa que as pessoas não eram acostumadas a fazer", considerou.

Barretão diz que via Coutinho "ocasionalmente, o que eu lamenta muito", mas que virou amigo quando ele o ajudou a escrever o roteiro de Dona Flor e Seus Dois Maridos, em 1976, premiado filme nacional dirigido pelo filho, Bruno Barreto. 

"Nessa época ele conviveu muito comigo, com a Lucy (Barreto, sua esposa) e com o Bruno (Barreto). Vivíamos na minha casa, em Botafogo, onde trabalhamos juntos. Era uma pessoa de um humor ótimo, apesar de ser conhecido por ser discreto e na dele. Ele não desperdiçava palavras e guardava, de fato, o talento dele para os filmes. Não era exibicionista", afirmou ainda. "Nos encontramos pela última vez no Jardim Botânico, onde tomamos um café, há cerca de sete meses. Uma pena". 

Entenda o caso
O cineasta Eduardo Coutinho, 81 anos, considerado um dos principais documentaristas do Brasil, foi assassinado a facadas neste domingo, dentro de casa, no bairro da Lagoa, zona sul do Rio Janeiro. A mulher do documentarista, Maria das Dores de Oliveira Coutinho, 62 anos, também foi ferida e encaminhada em estado grave para o hospital Miguel Couto.

O filho do documentarista, Daniel Coutinho, 41 anos, que tem esquizofrenia, confessou ser o autor do crime. Ele foi preso em flagrante pela polícia, e a Justiça decretou a prisão preventiva.

De acordo com o delegado e diretor da Divisão de Homicídios, Rivaldo Barbosa, "o que aconteceu por volta das 11h é a expressão genuína da palavra tragédia. Filho atinge mortalmente seu pai a facadas o matando. Posteriormente a isso, se dirige à mãe e a atinge. Ela correu para um cômodo, provavelmente o banheiro, se trancou e acionou o outro filho pelo telefone", descreveu Barbosa.

O delegado ainda disse que Daniel, ensanguentado, bateu nas portas dos vizinhos e falou palavras desconexas: "libertei meu pai e tentei libertar minha mãe e eu. Tentando, me furei duas vezes e nada acontece". Depois, ele aguardou a chegada dos bombeiros no apartamento onde morava com os pais e abriu a porta voluntariamente.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, Maria foi esfaqueada duas vezes na região da mama, três no abdômen e sofreu também lesões no fígado. Ela foi operada e seu estado de saúde é grave. O filho do cineasta também foi encaminhado ao hospital Miguel Couto, com dois ferimentos provocados por faca na região abdominal. Ele foi operado e seu estado de saúde é considerado estável. 

Coutinho era considerado um dos maiores documentaristas do Brasil. Entre outros filmes, ele é autor de Cabra Marcado para Morrer, Babilônia 2000, Jogo de Cena e Edifício Master. Entre as diversas premiações internacionais e nacionais que recebeu, o documentarista é vencedor do Kikito de Cristal, tido como a mais importante premiação do cinema nacional, pelo conjunto de sua obra.

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