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Renato Aragão estréia como romancista picante

28 de novembro de 2004 11h32 atualizado às 11h32

O humorista Renato Aragão, que estréia como romancista. Foto: Globo/Divulgação

O humorista Renato Aragão, que estréia como romancista
Foto: Globo/Divulgação

Dos 44 filmes que estrelou ao longo da carreira, Renato Aragão calcula ter escrito uns 35. Volta e meia, enquanto desenvolvia o roteiro de um deles, o humorista era obrigado a "arquivar" determinadas idéias. Ou porque elas não interessavam ao seu principal público-alvo, o infantil, ou porque elas encareciam o orçamento de seus filmes.

Mas, como de bobo não tem nada, o humorista resolveu transformar o que seria o argumento de um filme em seu primeiro romance (bastante caliente!), Amizade Sem Fim, lançado pela Mondrian. "É bom que se diga que esse romance não tem nada a ver com crianças. Nem o Didi aparece nele! Mas acho, sim, que ele daria um bom filme. O livro, aliás, está à disposição para quem quiser", convida.

De fato, se adaptado para o cinema, Amizade Sem Fim teria pouco ou nada a ver, por exemplo, com os sete filmes dos Trapalhões que figuram, há décadas, entre os dez nacionais mais assistidos de todos os tempos. Afinal, o romance narra a história de um jovem empresário, Ely, que, numa atitude digna de São Francisco de Assis, abre mão de sua fortuna para empreender uma tocante busca interior.

Com clara inspiração espírita, o protagonista recorre à regressão hipnótica e descobre que, numa de suas vidas passadas, foi amigo íntimo de Jesus Cristo. "Até pensei em fazer regressão para escrever sobre o assunto com mais consciência, mas ficou só na vontade. No final das contas, pensei: 'Ah, não vou entrar nessa não!'", brinca.

Prestes a completar 70 anos, em 13 de janeiro, Renato admite que está gostando da brincadeira. Tanto que mal acabou de publicar o primeiro romance e já está na metade do segundo. A mais nova empreitada literária do trapalhão já tem até título: o controverso O Segundo Filho de Deus.

"Como Jesus veio à Terra e não conseguiu cumprir a sua missão, porque os homens não deixaram, Deus resolve mandar um segundo filho. Aí, sim, Ele cumpre a missão", devaneia o humorista, que se diz católico, mas acredita em reencarnação.

Durante os quase dois anos que levou para concluir Amizade Sem Fim, Renato Aragão sempre se perguntou se não estaria perdendo tempo ao escrever um livro. Por isso mesmo, assim que pôs um ponto final nele, pediu que a editora o entregasse para alguém que realmente entendesse do assunto.

O aval do acadêmico Carlos Heitor Cony, que assinou o prefácio do livro, tranqüilizou o humorista. "Quando você coloca o coração no que faz, nunca joga tempo fora. Tudo que você faz sempre dá frutos", filosofa. Renato, aliás, está tão confiante que não teme sequer eventuais "cassetadas" da crítica literária.

"Já nos tempos dos Trapalhões, a crítica metia o pau na gente, dizendo que o nosso humor era subdesenvolvido. Quando estreamos na Globo, disseram: 'Ah, que saudades dos tempos em que os Trapalhões estavam na Tupi! Aquilo, sim, era bacana'. Por isso, nunca dei muita atenção à crítica", ressalta.

Hoje, 20 e tantos anos depois de sua estréia na Globo, Renato luta para preservar um pouco do humor anárquico, quase circense, dos áureos tempos dos Trapalhões. Logo no começo, a mania de Renato de denunciar paredes de isopor e gramas sintéticas dos estúdios da emissora suscitava memorandos irados do então "todo-poderoso" José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

"Tenho procurado me renovar sempre, mas o meu estilo é o do palhaço. Até hoje, se você reparar bem, trabalho num circo eletrônico, de lona acrílica. Se eu mudar meu estilo, as crianças não vão gostar", acredita.

Mesmo satisfeito com a atual fase literária, Renato Aragão não se anima em escrever sobre o quarteto mais famoso do Brasil. "Não posso fazer isso. Já imaginou eu exaltando a mim mesmo? Não daria certo", justifica.

Por essas e outras, a mulher de Renato, Lílian Taranto, já chamou para si a hercúlea tarefa de escrever uma biografia sobre o marido. Num dos capítulos, adianta Renato, ela escreveria sobre a formação do grupo, ainda na extinta Excelsior.

TV Press