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Atores estrangeiros invadem as novelas brasileiras

29 de novembro de 2004 08h06 atualizado às 08h06

O ator português Ricardo Pereira vive o bom moço Daniel Cascaes em  Como uma Onda. Foto: Globo/Divulgação

O ator português Ricardo Pereira vive o "bom moço" Daniel Cascaes em Como uma Onda
Foto: Globo/Divulgação

Eles estão entre nós. Não é difícil identificá-los: basta prestar atenção no sotaque. No começo, os atores estrangeiros limitavam-se a fazer participações esporádicas e, geralmente, papéis secundários. Hoje, assumem os principais personagens de novelas brasileiras.

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É o caso de Ricardo Pereira, o Daniel de Como uma Onda, a nova novela das seis da Globo. Aos 25 anos, ele é o primeiro ator estrangeiro a protagonizar uma trama da emissora. Mas Ricardo não está sozinho: o português Nuno Mello arranca suspiros da mulherada em Senhora do Destino, a venezuelana Christina Dieckman enfeita o elenco de Seus Olhos, o americano Lucas Babin está confirmado em América...

Para atuar em Como uma Onda, Ricardo Pereira teve de deixar para trás casa, família e, inclusive, outras propostas de trabalho em sua terra natal. Escolhido entre outros 20 "gajos", ele garante que já estava mesmo na hora de alçar vôos mais altos em sua ainda modesta carreira de sete anos. "Estava prestes a protagonizar uma novela lá quando resolvi vir para cá. Trabalhar no país das telenovelas, ainda mais como protagonista, não podia ser melhor...", derrama-se.

Mais experiente que o "patrício" de Como uma Onda, Nuno Mello, o Constantino, de Senhora do Destino, tenta explicar o afã dos portugueses em trabalharem no Brasil. "A Globo possui os melhores técnicos, diretores e equipamentos do mundo", resume. Há seis meses no Brasil, Nuno já constatou, também, que as fãs brasileiras são, digamos, mais "expansivas" que as lusitanas... "Todas elas querem saber onde encontrar um homem bonzinho como o Constantino...", sorri.

A próxima aposta da Globo, porém, não vem de Portugal e, sim, dos Estados Unidos. Depois de desfilar no último Fashion Rio, Lucas Babin foi apresentado à autora Glória Perez. Por uma dessas coincidências que só acontecem em novelas, ela estava mesmo à procura de um americano para interpretar Nick, um peão de rodeios em América. "Ele era perfeito para o papel! Já sabia falar português e, por ser texano, sabia até montar. Ele vai passar toda a credibilidade que o papel exige", acredita a autora.

Mas não é só a Globo que vem "importando" atores estrangeiros. O SBT, por exemplo, convidou Christina Dieckman para enfeitar o elenco de Seus Olhos. Miss Venezuela em 97, ela garante não ter tido problemas com o idioma - mesmo porque foi alfabetizada no Brasil, onde morou com os pais, em Curitiba, dos seis aos 12 anos. "Esta experiência foi muito importante para eu crescer como atriz. Quem sabe este trabalho não possa me abrir outras portas aqui no Brasil", insinua a atriz, que fez Gata Selvagem, já exibida no Brasil pela Rede TV!

Se dependesse de Christina, ela não demoraria muito para fazer companhia para outra venezuelana: a ex-modelo e apresentadora do Telemundo Elena Toledo. Ela veio ao Rio para gravar a versão hispânica de Vale Tudo e acabou ficando. Primeiro, interpretou a vedete Nina, de Kubanacan. Depois, a dançarina Pepa, de Cabocla. "Já recebi propostas para voltar ao meu país, mas decidi ficar. Gosto muito da cidade, da praia, das novelas da Globo... Eu arrisquei e acho que está dando certo", acredita.

Mas não é todo estrangeiro que se adapta ao Brasil. Assustado com o assédio do público, Nuno Lopes, o "murruga" José Manuel de Esperança, voltou logo para Portugal. "Nasci para ser ator e não para ser famoso", justificou. Para Maria João, que viveu a Rita de Sabor da Paixão, a maior dificuldade que ela enfrentou não foi tanto o calor humano... "Em Portugal, só temos calor forte por dois meses. Aqui, o ano todo é abafado", queixa-se.

Na maioria das vezes, porém, os estrangeiros gostam e aprovam. Tanto que repetem. A própria Maria João emendou Sabor da Paixão em O Clone. O italiano Nicola Siri é outro que não pensa em voltar para casa tão cedo. Depois de seduzir o mulherio como o padre Pedro de Mulheres Apaixonadas, continua à espera de novos convites. O último que recebeu foi para participar de Sob Nova Direção... "Sair do meu país e vir para outro foi sofrido. Mas trabalhar no Brasil era o sonho da minha vida. As novelas brasileiras são famosas no mundo inteiro", justifica.

Tipo exportação
Houve um tempo em que os diretores brasileiros preferiam escalar um ator que imitasse sotaque português a convidar um representante da "terrinha" para uma participação especial.

Na extinta Tupi, em 1968, o autor Geraldo Vietri escalou o brasileiro Sérgio Cardoso para interpretar o protagonista de Antônio Maria. Mas, em 1977, quando o diretor Régis Cardoso escalou Toni Corrêa para o papel de Machadinho em Locomotivas, o alvoroço foi um só. "Até hoje, o público se refere ao Machadinho como se a novela tivesse terminado ontem", espanta-se Toni, que fixou residência no Brasil.

O autor Benedito Ruy Barbosa também se orgulha de ter escalado o português David Arcanjo para fazer um dos personagens-títulos de Os Imigrantes, da Band. "O sotaque não fica forçado", explica ele. Inexplicavelmente, Benedito não viu necessidade de fazer o mesmo em Mad Maria, minissérie que estréia em janeiro na Globo. Apesar de ser repleta de personagens estrangeiros, o elenco é formado apenas por atores brasileiros ou, no máximo, descendentes.

Mas, depois de exportar novelas para o mundo inteiro, as emissoras brasileiras começaram a exportar também atores. Oscar Magrini, o Macário de Cabocla, por exemplo, trabalhou um ano em Portugal. Nesse período, fez duas novelas: Ganância, pela SIC, e Senhora das Águas, pela RTP1. Em Ganância, chegou a fazer par romântico com Maria João, a Rita de Sabor da Paixão, e a contracenar com Leonardo Vieira, o Leandro de Senhora do Destino. "A Globo é uma ótima vitrine, mas o ator deve enriquecer o currículo com outros trabalhos", orgulha-se.

Instantâneas
# A primeira novela brasileira a escalar um estrangeiro foi Casarão, em 1976. O português Toni Corrêa bebia um refrigerante em frente à Globo quando foi chamado para um teste.
# Ao contrário da Tupi, que escalou Sérgio Cardoso para interpretar o personagem-título de Antônio Maria, a Manchete escalou um autêntico lusitano para protagonizar sua versão, exibida em 1985: o ator Sinde Felipe.
# A produção recordista em participação de estrangeiros foi a malograda Metamorphoses, da Record. O núcleo japonês da trama contabilizava seis atores. Só Kissei Kumamoto interpretava dois gêmeos mafiosos.
# Nos primeiros capítulos de Como uma Onda, Ricardo Pereira contracena com Joana Solnado, que interpreta sua namorada Almerinda. A atriz fez Morangos com Açúcar, exibida pela Band no Brasil.
# O ator e modelo Lucas Babin já fez diversos trabalhos para a tevê americana. Recentemente, atuou nas séries Sex and the City e Angel. No cinema, participou de Escola de Rock, estrelado por Jack Black.

TV Press