inclusão de arquivo javascript

 
 

Autor turco Orhan Pamuk pode ser preso por falar sobre genocídio

31 de agosto de 2005 12h17

O escritor turco Orhan Pamuk, autor de vários best-sellers, pode ser condenado a até três anos de prisão por ter alegado que os armênios sofreram genocídio nas mãos dos turcos otomanos, 90 anos atrás. A informação foi divulgada na quarta-feira por seu editor.

Pamuk foi um dos convidados da Festa Literária Internacional de Parati (Flip) deste ano, que aconteceu em julho.

Promotores turcos também estão investigando supostos comentários de Pamuk segundo os quais cerca de 30 mil curdos teriam sido mortos mais recentemente na Turquia, em choques separatistas com as forças de segurança.

"Foi aberto um processo contra Orhan Pamuk que pode resultar numa sentença de três anos de prisão", disse a editora Iletisim Publishing, em comunicado que foi enviado à Reuters por fax.

Pamuk fez suas observações sobre armênios e curdos em entrevista publicada em 6 de fevereiro deste ano na Das Magazin, o suplemento semanal do jornal suíço Tages Anzeiger.

Na entrevista, o escritor teria dito: "Trinta mil curdos e 1 milhão de armênios foram mortos nestas terras, e ninguém exceto eu tem coragem de falar sobre isso."

Suas declarações suscitaram reações iradas de políticos e nacionalistas turcos na época, e o autor chegou a receber ameaças de morte anônimas.

O publisher da Iletisim, Tugrul Pasaoglu, disse à Reuters que o promotor público do distrito de Sisli, em Istambul, considerou que as observações de Pamuk violam o código penal turco, recentemente revisto, pelo qual denegrir a identidade turca é crime.

Pasaoglu disse que a primeira audiência do julgamento de Pamuk foi marcada para 16 de dezembro.

A promotoria se negou a comentar o assunto.

QUESTÃO DELICADA

Ancara sempre negou que os armênios tenham sofrido genocídio às mãos dos otomanos, durante ou após a Primeira Guerra Mundial, dizendo que eles foram vítimas dos combates internos, que também provocaram a morte de muitos turcos muçulmanos.

A Turquia também é extremamente sensível no que diz respeito à maneira como é retratada a questão dos curdos. Suas forças de segurança vêm combatendo guerrilheiros separatistas na empobrecida região sudeste do país desde 1984. Os combates voltaram a se intensificar recentemente, após um período de relativa calma.

Pamuk é conhecido sobretudo como autor de romances históricos ambientados na Turquia otomana, entre eles "Meu Nome é Vermelho" e "O Castelo Branco". Seu romance recente, "Snow", é uma reflexão sobre o amor e a política na Turquia moderna. Seu livro "Istambul" relata as memórias pessoais de sua infância na maior cidade da Turquia.

Seus livros já foram traduzidos para o inglês e muitas outras línguas.

O julgamento de Pamuk pode ser embaraçoso para o governo turco, no momento em que o país se prepara para iniciar, em 3 de outubro, as conversações para seu ingresso na União Européia. A UE já declarou que Ancara terá que respeitar os padrões europeus de liberdade de expressão.

Reuters
Reuters - Reuters Limited - todos os direitos reservados. Clique aqui para limitações e restrições ao uso.