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Projac, "cidade dos sonhos" da Globo, completa 10 anos

02 de outubro de 2005 15h08

Ainda hoje, ao completar dez anos no dia 2 de outubro, o Projac continua conhecido pela abreviatura da época em que era apenas o "Projeto Jacarepaguá". Há exatamente uma década, após seis anos de obras e cerca de US$ 250 milhões de investimento, o presidente da Globo, Roberto Marinho, centralizou os 40 núcleos de produção espalhados pelo Rio em um único endereço, na Estrada dos Bandeirantes nº 6.700, no bairro de Jacarepaguá, Zona Oeste carioca.

Lá, a 30 km do Centro da cidade, foi erguida a Central Globo de Produção. Com 1,6 milhão de m2, logo tornou-se o maior centro de produção da América Latina e o quarto do mundo - atrás apenas das norte-americanas ABC, CBS e NBC. "A necessidade de um centro de produção foi registrada, pela primeira vez, em uma ata de 1968. Por isso, não esqueço da minha alegria no dia da inauguração ao ver um sonho de quase 30 anos realizado", recorda o então vice-presidente de operações José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

No Projac, funcionam, atualmente, dez estúdios de gravação, seis cidades cenográficas, duas fábricas de cenários e figurinos e uma infinidade de outros estabelecimentos, como restaurantes, posto médico, caixa eletrônico e até um espaço vital, que oferece serviços de shiatsu e acupuntura. "Tudo o que eu queria era que aqui tivesse também um apart-hotel. Só assim, eu tomava banho e já caía dura na cama...", brinca Eliane Giardini, a viúva Neuta de América.

Como toda cidade que se preze, o Projac tem também a sua igreja. Cenográfica, é claro. Ela foi construída depois que a Arquidiocese do Rio proibiu a emissora de gravar cenas de casamento nas dependências de suas igrejas. "O pior é que, até o final de América, terei seis casamentos. É muito casamento para uma igreja só. Vou ter de fazer mágica!", graceja a diretora de arte Tiza de Oliveira.

Mas "fazer mágica" parece ser uma especialidade de quem trabalha no Projac. Que o diga Mauro Franco Wanderley, o diretor de infra-estrutura da emissora. Se o Projac é uma "cidade", Mauro Franco é o "prefeito". Responsável por manter o Projac funcionando 24 horas por dia, 365 dias por ano, coordena uma equipe de 156 funcionários diretos e mais 1.800 terceirizados, entre vigilantes, bombeiros e jardineiros. "O nosso trabalho é sempre muito ingrato. Se a gente atende às expectativas, ótimo, não fizemos mais do que a nossa obrigação. Agora, se ele ficou abaixo, puxa vida, o serviço é uma porcaria!", brinca.

Há dez anos como "prefeito" dessa "cidade", Mauro Franco também já teve o seu dia de pesadelo: 11 de janeiro de 2001. Um incêndio causado por um curto-circuito no estúdio F do Projac interrompeu a gravação do Xuxa Park e gerou pânico. De férias em casa, chegou a tempo de ajudar os bombeiros no resgate dos feridos. "Minhas férias terminaram na hora...", recorda.

Diariamente, cerca de 6 mil pessoas, entre funcionários, figurantes e convidados, circulam pelo Projac. Eles são responsáveis, direta e indiretamente, pela produção de 4.420 horas anuais de programação, entre seriados, programas de auditório e, principalmente, novelas. "Costumo dizer que o exercício físico de fazer novela é a grande estiva da tevê brasileira. Você tem de estar sempre à disposição da obra. Ou seja, é um trabalho que envolve nervos de aço, concentração e muita disciplina", garante o ator Tony Ramos, 28 anos de Globo.

Mas nem só de atores famosos, como Eliane Giardini e Tony Ramos, vive a "cidade dos sonhos". Outros moradores, igualmente importantes, ajudam a manter o Projac em atividade. O contramestre da oficina de costura e alfaiataria, Crizólito Ribeiro Pinheiro, é um deles. Com 35 anos de casa, coordena uma equipe de 55 funcionários e 100 prestadores de serviços. Todos os meses, recebe uma média de 2 mil peças de encomenda. Às vésperas de estrear uma novela de época, esse número aumenta para 4 mil. "Quando vejo uma roupa que desenhei e costurei na TV, sinto uma emoção indescritível. É como um pai que vê o filho crescer, ficar independente e ganhar a vida com seus próprios pés", emociona-se.

Fábrica de ilusões
A novela Explode Coração, de Glória Perez, foi a primeira inteiramente gravada no Projac. Seis anos antes, porém, a cidade cenográfica de Avilan, de Que Rei Sou Eu?, já havia sido erguida no lugar que, anos mais tarde, abrigaria o Projac. Naquele tempo, lembra a figurinista Marília Carneiro, 32 anos de Globo, o Projac era um pedaço de terra cercado de nada por todos os lados... "À noitinha, os sapos faziam uma balbúrdia danada. A barulheira era tanta que tínhamos de fechar portas e janelas para termos reunião", recorda ela.

Apesar do coaxar interminável dos sapos, Marília fala com saudade dos tempos em que podia transitar pelo Projac de patins e bicicleta. "Era ótimo porque eu fazia exercício e trabalhava ao mesmo tempo. Infelizmente, com o tempo, eles proibiram as bicicletas", queixa-se.

Ao longo dos anos, os patinetes e as bicicletas foram substituídos por cinco microônibus e 120 carrinhos elétricos. A modernização do Projac, aliás, parece se refletir também nos projetos, cada vez mais ambiciosos, de autores e diretores. Cenógrafo da Globo há 23 anos, José Cláudio Ferreira dos Santos brinca ao dizer que, no papel, tudo parece simples e fácil. Até hoje, ele não esquece do susto que levou ao saber que, na minissérie Chiquinha Gonzaga, de Lauro César Muniz, teria de reproduzir a Guerra do Paraguai. "Não dá para fazer uma Guerra do Paraguai com meia dúzia de gatos pingados. Além disso, você não encontra roupa de época no bazar da esquina, tem de mandar fazer. Às vezes, duas linhas de texto equivale a uns dez dias de trabalho duro", esclarece.

Instantâneas
# O Projac possui dez estúdios. Seis têm 1 mil m2 e são usados para novelas e programas de auditório. Já os outros têm 560 m2 e são para séries e humorísticos.
# Os cenários do Projac são todos de madeira e compensados. Estima-se que o consumo anual seja de 38 mil m3. Os fornecedores, porém, são devidamente homologados pelo Ibama.
# Em dias de gravação, os figurantes são orientados, através de uma cartilha, a não abordarem atores e diretores para pedir autógrafos ou tirar fotos.
# O acervo de roupas e acessórios do Projac conta com 65 mil peças. Entre as relíquias, os uniformes das paquitas e o figurino muçulmano de O Clone.
# Um galpão abriga a fábrica de cenários. Para lá, todas as noites, são levados os cenários desmontados em rebocadores. No dia seguinte, os cenários são remontados no estúdio.
# O Projac possui 156 mil m2 de área construída e 160 mil m2 de cidade cenográfica. Consome energia suficiente para iluminar uma cidade de 90 mil habitantes.

TV Press