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Bruno Gagliasso comemora seu primeiro vilão na Globo

28 de abril de 2007 10h00

Bruno Gagliasso interpreta o vilão Ivan em  Paraíso Tropical. Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Bruno Gagliasso interpreta o vilão Ivan em Paraíso Tropical
Foto: Jorge Rodrigues Jorge/TV Press

Bruno Gagliasso sua a camisa para não fazer feio ao interpretar o malandro Ivan de Paraíso Tropical. Tudo porque, para manter a exuberante forma física que seu personagem exibe orgulhosamente nas areias de Copacabana, o ator precisa fazer da academia de ginástica uma extensão da cidade cenográfica da trama.

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Gagliasso não tem idéia de quanto tempo passa se exercitando para manter o corpo tão sarado, mas não hesita em dizer que assim que acabar esse trabalho vai dar um tempo na malhação. "Sou vaidoso, mas nem tanto. Não curto malhar. Essa foi a parte ruim da minha preparação para o trabalho", afirma.

Aos 24 anos e casado com a atriz Camila Rodrigues, que conheceu durante as gravações de América, Gagliasso se sente em um momento excelente da carreira e já sabe o que quer fazer no futuro: ser pai. "Vai depender de conciliar a minha agenda com a da Camila, mas um bebê está nos nossos planos", avisa o ator, com um brilho no olhar.

Leia a seguir a entrevista com o ator:

P - Dos seus personagens, o Ivan é o único vilão. O que você está achando de interpretar um tipo assim?
R - Em Chiquititas cheguei a interpretar um garoto mau, mas o Ivan é realmente o meu maior vilão. Estou adorando fazer, porque tem um charme especial. Mas não posso reclamar, porque fiz caipira, gay, um garoto que a mãe chamava de assassino por causa de um acidente onde o irmão dele morreu. Tive papéis excelentes. Não sei se posso afirmar que fazer vilão está sendo uma coisa tão importante assim para a minha carreira, já que tenho um monte de grandes mocinhos no currículo, todos muito bem escritos e desenvolvidos. Também encaro mais o Ivan como uma vítima da sociedade. Ele quer dinheiro sem ter que trabalhar ou fazer esforço. Se tiver que passar por cima de alguém, bater ou roubar, vai fazer essas coisas sem a menor culpa. É bom fazer personagens maus, só que ele é diferente. O rapaz cresceu ouvindo a mãe dizer que preferia que ele não tivesse nascido. Isso mexe com qualquer filho.

P - Esse histórico é parecido com o Inácio, que você interpretou em Celebridade. Isso facilita?
R - Sim, mas o que é legal é que são duas histórias similares, mas de papéis completamente distintos. O Inácio chorava, ficava quieto, aceitava tudo. O Ivan não, ele externa seus problemas. Estou com um personagem que bota tudo para fora, extravasa. O Ivan é agressivo, não controla seus sentimentos. É um excelente exercício como ator, porque esses dois papéis foram duas oportunidades de conduzir, de maneiras diferentes, uma mesma história.

P - Você tem apenas oito anos de carreira, mas já coleciona alguns personagens problemáticos. Por que você acha que isso aconteceu?
R - É verdade. Mesmo em Sinhá Moça, que era uma novela de época, fiz um personagem problemático. Mas acho isso o máximo. Sou bem novo, tenho apenas 24 anos, e me sinto um grande privilegiado na minha carreira. Comecei a seguir os primeiros passos no teatro aos 14 anos, num curso da Zona Sul do Rio. Aí, uns três anos depois, em uma montagem de fim de turma, fui convidado para um teste que acabou me levando para a Argentina. Na minha vida as oportunidades foram chegando e eu dei um jeito de agarrar e fazer bem. Acho que tenho uma carinha normal, sou um homem comum, mas já mostrei que posso encarar desafios e que faço meu trabalho com muito prazer. Os autores com quem trabalhei acabaram confiando em mim e na minha dedicação.

P - Seu irmão está seguindo o mesmo caminho e já está fazendo uma novela, na Record. Você acha que influenciou ele de alguma maneira?
R - O Tiago é mais novo, tem a mesma idade que eu tinha quando estreei na televisão, 17 anos. Eu acho que eu acabei servindo de inspiração para ele, assim como em vários momentos ele serviu para mim. Somos muito unidos, um virou referência para o outro. Ele acompanhou minha carreira desde o início, me ajudava a decorar minhas falas e acho que isso incentivou. Mas essa questão é bem relativa, porque nós temos uma irmã menor, de 8 anos, que não tem a menor vontade de ser atriz. Eu e o Thiago sempre fomos muito parecidos e amigos, temos os mesmos gostos.

P - Tudo na sua vida veio cedo. Estreou cedo na tevê, ganhou papéis de destaque e polêmicos cedo, se casou cedo. Isso assusta você?
R - Quando olho para os meus amigos, vejo que realmente tenho um estilo de vida completamente diferente da maioria deles, mas não acho que isso seja pior ou melhor. As coisas foram tomando seu próprio rumo dentro da minha vida. Eu e a Camila estamos curtindo muito a nossa vida a dois, crescendo juntos na nossa profissão. Acho que isso ajuda muito os dois lados. E não dá para negar que nós dois não precisamos passar por aquela fase de economizar para casar, juntar grana para ter uma casa, enfim... Ela ainda teve mais sorte que eu, porque na primeira novela já assinou um contrato longo. Só consegui essas regalias depois que acabou Celebridade. Sou muito jovem sim, mas enxergo que tudo na minha vida está acontecendo na hora certa. E essa história de que as pessoas que ganham bons personagens muito cedo acabam ficando apagadas no futuro não é uma regra. Quem se esforça e sabe ter dedicação e responsabilidade consegue se manter bem na carreira artística. Depois que fiz Chiquititas, nunca mais parei e sempre tive bons papéis.

P - Como foi a experiência de gravar Chiquititas durante um ano na Argentina?
R - Foi muito complicado. Tinha feito um teste depois de uma montagem de fim de curso. Quando me disseram que tinha sido escalado, fiquei muito contente e só pensava em trabalhar. Mas depois que cheguei lá, senti muita falta dos meus amigos e parentes. Sempre fui um garoto ligado aos amigos e à família. Eu era um moleque de 17 anos, praticamente uma criança, e sofri muito por estar longe do Brasil. A minha mãe não podia ir comigo e tive que me acostumar a me virar sozinho. O que me dava força era perceber que aquilo ia ser positivo para o meu amadurecimento. E isso me abriu portas para trabalhar na tevê, porque logo depois fui fazer As Filhas da Mãe na Globo. Fazia o José, filho da personagem da Regina Casé. Era um núcleo divertido, mas não chegava a ser comédia.

P - O Ricardo, de Sinhá Moça, foi seu primeiro personagem realmente cômico. Você gostou da experiência?
R - Tenho muito carinho por esse trabalho. Foi, de longe, o personagem que mais me deu alegria. Ali comecei a perceber minha capacidade de fazer humor. O resultado foi tão positivo que mudaram o final da novela, favoreceram o Ricardo. Isso foi uma vitória. Tudo conspirou a favor, vou guardá-lo sempre comigo para o resto da vida. E eu tinha muito medo de fazer comédia. Acho que Sinhá Moça me deu uma segurança maior como ator. É como se a partir dele eu pudesse mostrar de vez que não sou um rostinho bonitinho, que posso fazer mais e mais. É engraçado porque essa sensação veio com um papel cômico de novela das 18 horas. Fiz América e Celebridade recentemente, no horário nobre, e por mais que fossem personagens muito bons, não me trouxeram o reconhecimento que o Ricardo trouxe. Ninguém esperava tanta popularidade.

P - Porque você acha que fez sucesso?
R - Eu estava saindo de um papel polêmico, com o beijo gay tão esperado e que não aconteceu. O público estava acostumado a me ver em cima de grandes polêmicas nas novelas e o Ricardo era um personagem, até então, menos denso. Fui criando um tom leve e divertido para ele e o personagem acabou tendo vida própria dentro do Bruno. Deixei o Ricardo se desenvolver tanto que ele cresceu muito na história. Eu precisava arriscar. As pessoas olharam o Inácio de Celebridade e gostaram. Quando o Júnior veio, ficaram pensativas para ver o que mais eu poderia fazer. De repente, chegou o Ricardo e foi decisivo para o aplauso final. Eu enxergo as coisas mais ou menos assim.

Dedicação intensa
Apesar de dizer que Ivan é o personagem que mais custou esforço físico durante a preparação, Bruno conta que o papel mais complicado de compor de sua carreira foi o homossexual Júnior de América. Na época, o ator visitou casas noturnas e bares freqüentados por gays e leu dezenas de livros que abordam o assunto. A dedicação foi tanta que o rapaz não teve problemas para gravar a tão comentada cena do beijo entre seu personagem e o peão Zeca, de Erom Cordeiro. Quando assistiu ao último capítulo e não viu a cena sendo exibida, Bruno ficou desapontado. "Senti o que o Brasil sentiu", desabafa.

Apesar da censura em relação ao casal gay de América, Bruno acha que a história de Glória Perez abriu portas para que outros personagens gays sejam explorados nas novelas. É o caso do casal Rodrigo e Tiago, vividos por Carlos Casagrande e Sérgio Abreu em Paraíso Tropical. Mesmo assim, a idéia de que esse casal pode passar a trama inteira sem trocar um beijo na boca causa tristeza em Bruno. "A sociedade é muito preconceituosa. Eu trabalho com a arte, e nela não pode haver esse tipo de barreira", critica.

No centro da polêmica
O mais importante na profissão de um ator é formar a opinião pública e fazer alertas para problemas da sociedade. Essa é a opinião de Bruno. Tanto que, em seu currículo, o ator se orgulha de ter vivido personagens cheios de conflitos e com força nas tramas. Mesmo no vilão Ivan, de Paraíso Tropical, ele enxerga sua contribuição. "Mostramos um jovem que foi completamente desestruturado pela própria mãe. Isso é muito comum. Vejo vários Ivans pelas ruas", explica. Exatamente por isso, Bruno não torce por uma redenção do personagem. Ao contrário, quer vê-lo cada vez pior. "A melhor forma de defender um papel é fazê-lo do jeito que ele é", avalia.

Trajetória televisiva
Chiquititas Brasil (SBT, 2000) - Rodrigo
As Filhas da Mãe (Globo, 2001) - José Rocha
A Casa das Sete Mulheres (Globo, 2003) - Caetano
Celebridade (Globo, 2003) - Inácio Amorim
América (Globo, 2005) - Júnior
Sinhá Moça (Globo, 2006) - Ricardo
Paraíso Tropical (Globo, 2007) - Ivan

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