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20 de janeiro de 2013 • 23h10 • atualizado às 23h49

Walmor Chagas não queria dar trabalho nos últimos dias, diz amigo

Walmor Chagas foi encontrado morto nesta sexta-feira (18) 
Foto: TV Globo / Divulgação
 

Walmor Chagas, encontrado morto na última sexta (18), com um tiro na cabeça, em sua chácara em Guaratinguetá (SP), não queria dar trabalho para os amigos quando estivesse próximo de seus últimos dias. "Ele falou que se tivesse dificuldades e começasse a se sentir mal, desejaria partir", disse Antonio Carlos Cardoso, dono do restaurante em que Chagas ia todos os domingos, ao Fantástico deste domingo (20). Segundo o amigo, a saúde do ator, diabético, havia piorado nos últimos meses. "Não enxergava, mal conseguia andar, já não estava mais comendo", disse, contando que em 20 dias Chagas perdeu 8kg.

Luiza Maria Espíndola, empregada que ajudava Chagas há 12 anos, confirmou os problemas com o patrão. "Ele dependia da gente para ajudar ele." Ela contou que, quando justificava sua escolha por morar na chácara, afastada de Guaratinguetá, ele sempre dizia que queria morar em um lugar tranquilo, que fizesse bem para ele. Segundo ela, na sexta-feira ele manteve sua rotina, tirando inclusive uma soneca após o almoço. O último prato que o ator comeu foi um macarrão ao estilo japonês, com molho shoyu, preparado pela mulher de Antonio Carlos. O amigo contou que entre os pratos preferidos de Chagas estavam costela no bafo e feijoada.

O corpo de Walmor Chagas, 82 anos, foi cremado na tarde de sábado (19), no cemitério e crematório Parque das Flores, em São José dos Campos. Um velório reservado à família e amigos aconteceu no mesmo local, até às 17h.

Investigação

O ator Walmor Chagas foi encontrado morto em sua chácara, em Guaratinguetá, cidade localizada no Vale do Paraíba, interior de São Paulo (SP). A Sala de Comunicações da Polícia Civil da cidade chegou a divulgar que o óbito foi devido a um tiro no peito, mas no final da noite, corrigiu dizendo que foi na cabeça. A polícia investiga o caso e inicialmente trabalha com a hipótese de suicídio. O ator tinha 82 anos.

Embora não descarte outras possibilidades, a principal hipótese da investigação é de que ele tenha se suicidado, devido às circunstâncias em que seu corpo foi encontrado, apesar de o artista não ter dado sinais de que tiraria sua própria vida, segundo relatou aos investigadores José Arteiro de Almeida, funcionário que trabalhava há 30 anos com Chagas e o encontrou morto.

De acordo com informações do boletim de ocorrência, disponibilizado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), o corpo de Chagas foi encontrado pelo funcionário por volta das 17h, que chamou a Polícia Militar. O ator estava na copa da casa, com uma marca de tiro no lado da cabeça e, sobre sua perna, a polícia encontrou uma arma calibre 38, que foi recolhida para perícia ainda ontem. Também foram apreendidos o aparelho celular da vítima e munições da arma, que passarão por perícia.

À Polícia Civil, Arteiro disse que Chagas vinha reclamando de problemas de saúde, como diabetes e problemas na visão, mas que não aparentava estar depressivo, nem deu sinais de que poderia se matar. O funcionário afirmou ainda que, pouco antes do ocorrido, ele e o ator haviam conversado normalmente. O funcionário, então, relatou que saiu da casa por volta das 16h e, quando voltou, já o encontrou sem vida. A polícia não confirmou, porém, se Chagas teria deixado algum bilhete ou carta. Segundo a análise do corpo, o tiro entrou pelo lado direito da cabeça, atravessou o crânio e saiu pelo lado esquerdo.

Além de Arteiro, outros dois funcionários viviam na casa com o ator - um auxiliar de idosos e uma cozinheira -, mas eles não estavam no local no momento em que o fato ocorreu. Por ter sido a pessoa a acionar a PM, Arteiro foi submetido a um exame residuográfico (o procedimento é padrão em casos de investigação de morte).  A Polícia Civil deve colher novos depoimentos na próxima semana.

Legado
Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 28 de agosto de 1930, Walmor Chagas estrelou diversas novelas de sucesso ao longo de sua carreira televisiva, entre elas Locomotiva, na pele do personagem Fábio, Coração Alado, como Alberto Karany, e Salsa e Merengue, dando vida a Guilherme Amarante. Mas foi no teatro que o ator começou e no palco que se consagrou como um dos grandes atores da dramaturgia brasileira. Estreou no final dos anos 1940 e neles esteve até o final da década de 1990, mais de 50 anos depois. 

Também atuou em diversos filmes, entre eles Xica da Silva (1976), como o Comendador João Fernandes, Asa Branca: Um Sonho Brasileiro (1980), além de adaptações para livros de Machado de Assis, casos de Um Homem Célebre (1976) e Memórias Póstumas (2001). 

Apesar de ter se mantido bastante ativo como ator até 2009, quando trabalhou na novela Mutantes: Promessas de Amor, exibida pela TV Record, Chagas se distanciou dos palcos, sua grande paixão, na última década. Em entrevista concedida há poucos anos ao programa Starte, da Globo News, Chagas explicou ter se afastado do teatro por uma escolha pessoal, já que o universo teatral não seria mais o mesmo.

"A partir dos 80 anos, você percebe que faz parte de uma outra geração e a geração nova é que está com o teatro nas mãos hoje. São eles que fazem o teatro", afirmou. "O teatro que eu fazia não se faz mais, então comecei a me sentir deslocado da vida artística teatral brasileira. Poderia não ser assim, eu poderia continuar fazendo comédias, isso e aquilo, mas sempre fui muito exigente do ponto de vista intelectual, sempre tive um repertório artístico de altíssima qualidade. E isso me obrigava a fazer o tipo de teatro maravilhoso que a gente fez - e que eu acho que hoje já não se faz mais. Se faz outro teatro: maravilhoso, fantástico, da época de agora, que não é a minha época mais."

Chagas foi casado com a atriz Cacilda Becker, morta em 1969, aos 48 anos, em decorrência de um derrame cerebral. Com ela, o ator teve sua única filha, Maria Clara Becker Chagas.

Com informações da Agência Brasil

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