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Umberto Eco voltou a colocar os óculos de professor e, no mesmo tom ameno e didático com que explicou a história da beleza, em 2004, agora conta a história da feiúra, um tema que o fascinou porque, em suas pesquisas, descobriu que "o conceito do feio não é apenas a negação do belo, mas implica outras categorias". Eco demonstra, com numerosos exemplos extraídos das artes plásticas e da literatura, a absoluta relatividade do conceito de feiúra, através dos tempos, da antiguidade clássica aos dias atuais, passando pela Idade Média e pelo Renascimento.
"Voltaire já nos interpelava, em seu dicionário filosófico, propondo que perguntássemos a um sapo o que é a beleza, o ideal do belo. O sapo responderia que ele é representado pela fêmea de sua espécie, com os belos olhos redondos e esbugalhados, a cabeça pequena, a boca larga, o ventre amarelo, as costas escuras".
Eco fala sobre o primeiro tratado completo sobre o tema, A Estética da Feiúra, e sobre o diálogo entre um grande sábio e um jovem sequioso de se iniciar no mundo do conhecimento. Platão situa a beleza máxima no mundo ideal, e afirma que, "diante de uma deusa, não é certo que a mais bela das donzelas parecerá feia?"
O cristianismo em tese revolucionou essa ordem. "Tudo é belo", explica Eco, "porque tudo é obra de Deus", e na Idade Média o universo era encarado como "uma inesgotável irradiação de esplendores". Como conciliar essa idéia, pergunta o autor, com o fato evidente de que no mundo existem o mal e a deformidade? A solução foi fornecida por Santo Agostinho, que admitiu a existência no mundo de imagens que "insultam a vista", mas ainda assim fazem parte da ordem geral das coisas, porque aquilo que nelas se corrompe não é mais que algo positivo que se deteriora, e não algo de feio ou mau em si, pois o que predomina sempre é a beleza do conjunto.
A arte do Renascimento e do barroco dá espaço à feiúra, associada pela nova mentalidade à dor e, em termos concretos, ao martírio de Cristo, mostrado em todos os seus detalhes sangrentos. "O paradoxo é que Cristo seja exibido feio, ferido, fraco". Eco repassa as diferentes representações da morte, o diabo e uma variada taxonomia de monstros, do basilisco à medusa ou o Golem.
A relação entre sexo e feiúra é outro dos eixos do livro. Se na antiguidade, e no Renascimento, "a representação da genitália evidenciava a beleza de um corpo", hoje, como Freud percebeu, os órgãos genitais "nunca são considerados belos".
O conceito de feiúra feminina oscilou muito, ao longo das eras, ainda que o machismo e a misoginia tenham exercido papel predominante em estigmatizar as mulheres, com o tempo, representando a maldade como uma mulher velha. Quevedo declarou sobre as mulheres, com desdém, que "se lavassem o rosto, não as reconheceríamos". E, em O Martelo das Bruxas, de 1486, Sprenger e Kramer mostram sua agitação: "Bendito seja o Altíssimo, que até o momento preservou o sexo masculino de tal delito" (a bruxaria).
Outro grupo cuja aparência despertou críticas são os judeus, de cujo aspecto Wagner dizia, em 1850: "Ele nos repugna acima de qualquer outra coisa. Ninguém quer ter algo em comum com um homem que apresente tal aspecto".
Os românticos redimiram a feiúra, e foi então que surgiu com força o conceito do sublime, em um momento no qual os poetas elogiam "o vazio, a obscuridade, a solidão e o silêncio". Foi uma integrante do movimento romântico (Mary Shelley) que criou Frankenstein, o monstro infeliz ("sua feiúra diabólica tornava impossível contemplá-lo"); e Quasimodo, de Victor Hugo, é produto da mesma era.
Eles representam a mesma sensibilidade que reagiu de maneira adversa aos avanços técnicos da revolução industrial, considerando monstruosas as máquinas nascidas nas aglomerações urbanas. Proust, de sua parte, nos mostra a força da relação entre os preconceitos de classe e o ideal de beleza, ao descrever a Princesa de Guermantes, em À Procura do Tempo Perdido: "O que permitia identificar seu rosto era a conexão entre um grande nariz vermelho e um lábio leporino, ou entre duas bochechas enrugadas e um bigode fino", traços que se tornam sedutores porque infundem a idéia de que na feiúra existe algo de aristocrático, e é indiferente que o rosto de uma grande dama seja belo.
As vanguardas do século 20 optaram pela estética da feiúra, a ponto de levar Hitler ¿que se via como paladino da beleza, eis o perigo- a classificar seus expoentes como degenerados. Na metade do século, com Duchamp pintando bigodes na Mona Lisa e Warhol fazendo arte tendo o lixo como matéria-prima, nasceram o kitsch e o campo, cujos critérios estéticos ficam muito distantes da alta cultura.
Os exemplos extraídos da arte - exibidos em belas ilustrações - são numerosos, e o mesmo se aplica aos exemplos literários, que vão da Biblia e Platão a Don DeLillo e Patrick McGrath, passando por Dante, Baudelaire e Sartre (um homem que se comportava obsessivamente, por se considerar feio).
Enfim, a leitura de Eco confirma o que nos disse Schiller: o horrendo nos fascina, "as cenas de terror e dor nos atraem e repelem com a mesma intensidade" e nada que não "a disposição natural do espírito humano" seria capaz de explicar tais inclinações.
Melhor que a beleza
Como cabe a um livro que será lançado em 27 idiomas, o novo trabalho de Eco teve apresentação estrondosa na feira do livro de Frankfurt. O autor começou dizendo que escrever sobre feiúra havia sido muito mais interessante do que fazê-lo sobre a beleza, à que ele também dedicou um livro.
"Para ser bela, a pessoa não pode ser mais alta que tanto, mais baixa que tanto; é algo de limitado. Mas se pode ser feio de muitas maneiras - gigante, anão. A fenomenologia da feiúra é rica", ele brincou.
"Assim, o que é belo para a classe baixa é feio ou muito feio para os ricos, e, curiosamente, é campo para os ainda mais ricos. Ou seja, podemos ver que o mercado da feiúra oscila demais", afirmou.
Eco disse que os padrões com certeza mudam com o tempo: "A anorexia era bela, há alguns anos, e agora começa a ser feia".
Como prova das ambigüidades do tema, Eco mostrou um quadro clássico, no qual um menino sorri para o homem feio que o abraça. "Há caras horríveis que nos agradam, nos fazem sorrir, como a de Jerry Lewis". A ambigüidade prossegue quando ele fala sobre o cristianismo: Eco lembra que, na cultura grega, também existiam horror e feiúra, mas foi o cristianismo que começou a tornar feio o corpo divino, mostrando-o em sofrimento, sob tortura, e representando a feiúra como traço positivo.
Quando alguém lhe mostra um quadro de Botero e pergunta se seu tipo é aquele, Eco sorri: "Bem, pelo menos ela não é anoréxica. Botero não gosta de representar a beleza contemporânea. Seria preciso conhecer a mulher dele¿. Outro espectador mostra páginas de um livro a Eco: retratos de criminosos tirados pelo pesquisador Cesare Lombroso, e um livro com uma foto de um jovem que porta piercings. Há semelhanças entre as imagens. Eco propõe: "Os jovens se consideram atraentes assim".
E ele recorda que a ambigüidade quanto ao que é ou não é desagradável vai de comer pernas de rã a ver sangue, que escorria caudalosamente em espetáculos públicos durante a Revolução Francesa. "Há muito de depravado em nossa visão da feiúra", conclui Eco.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
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