> Diversão  > Arte e Cultura
 notícias por e-mail  fale conosco  rss terra celular

 Sites relacionados
Arteum
Blog
Caras
Disney
Fotolog
Fotosite
GLS Planet
Guia de Cidades
Guia de Motéis
OFuxico
Palavras Cruzadas
Passatempos
Portal Literal
Rádio Terra
Séries de TV
Teatro Chik
Virtual Books

 Fale conosco
Participe e envie suas sugestões aqui!

 Boletim
Receba as novidades por email. Grátis!

'
Arte e Cultura
Terça, 27 de novembro de 2007, 16h15 
Umberto Eco reflete sobre a feiúra em novo livro
 
Xavi Ayén e Justo Barranco
 
Últimas de Arte e Cultura
» Recordando o século 20, mostras nos EUA provam poder da arte
» Mostra 'Insights' explora universo de artistas cegos
» Stephen King pode escrever sequência de 'O Iluminado'
» Artista faz esculturas com peças de carros
Busca
Busque outras notícias no Terra:
Umberto Eco voltou a colocar os óculos de professor e, no mesmo tom ameno e didático com que explicou a história da beleza, em 2004, agora conta a história da feiúra, um tema que o fascinou porque, em suas pesquisas, descobriu que "o conceito do feio não é apenas a negação do belo, mas implica outras categorias". Eco demonstra, com numerosos exemplos extraídos das artes plásticas e da literatura, a absoluta relatividade do conceito de feiúra, através dos tempos, da antiguidade clássica aos dias atuais, passando pela Idade Média e pelo Renascimento.

"Voltaire já nos interpelava, em seu dicionário filosófico, propondo que perguntássemos a um sapo o que é a beleza, o ideal do belo. O sapo responderia que ele é representado pela fêmea de sua espécie, com os belos olhos redondos e esbugalhados, a cabeça pequena, a boca larga, o ventre amarelo, as costas escuras".

Eco fala sobre o primeiro tratado completo sobre o tema, A Estética da Feiúra, e sobre o diálogo entre um grande sábio e um jovem sequioso de se iniciar no mundo do conhecimento. Platão situa a beleza máxima no mundo ideal, e afirma que, "diante de uma deusa, não é certo que a mais bela das donzelas parecerá feia?"

O cristianismo em tese revolucionou essa ordem. "Tudo é belo", explica Eco, "porque tudo é obra de Deus", e na Idade Média o universo era encarado como "uma inesgotável irradiação de esplendores". Como conciliar essa idéia, pergunta o autor, com o fato evidente de que no mundo existem o mal e a deformidade? A solução foi fornecida por Santo Agostinho, que admitiu a existência no mundo de imagens que "insultam a vista", mas ainda assim fazem parte da ordem geral das coisas, porque aquilo que nelas se corrompe não é mais que algo positivo que se deteriora, e não algo de feio ou mau em si, pois o que predomina sempre é a beleza do conjunto.

A arte do Renascimento e do barroco dá espaço à feiúra, associada pela nova mentalidade à dor e, em termos concretos, ao martírio de Cristo, mostrado em todos os seus detalhes sangrentos. "O paradoxo é que Cristo seja exibido feio, ferido, fraco". Eco repassa as diferentes representações da morte, o diabo e uma variada taxonomia de monstros, do basilisco à medusa ou o Golem.

A relação entre sexo e feiúra é outro dos eixos do livro. Se na antiguidade, e no Renascimento, "a representação da genitália evidenciava a beleza de um corpo", hoje, como Freud percebeu, os órgãos genitais "nunca são considerados belos".

O conceito de feiúra feminina oscilou muito, ao longo das eras, ainda que o machismo e a misoginia tenham exercido papel predominante em estigmatizar as mulheres, com o tempo, representando a maldade como uma mulher velha. Quevedo declarou sobre as mulheres, com desdém, que "se lavassem o rosto, não as reconheceríamos". E, em O Martelo das Bruxas, de 1486, Sprenger e Kramer mostram sua agitação: "Bendito seja o Altíssimo, que até o momento preservou o sexo masculino de tal delito" (a bruxaria).

Outro grupo cuja aparência despertou críticas são os judeus, de cujo aspecto Wagner dizia, em 1850: "Ele nos repugna acima de qualquer outra coisa. Ninguém quer ter algo em comum com um homem que apresente tal aspecto".

Os românticos redimiram a feiúra, e foi então que surgiu com força o conceito do sublime, em um momento no qual os poetas elogiam "o vazio, a obscuridade, a solidão e o silêncio". Foi uma integrante do movimento romântico (Mary Shelley) que criou Frankenstein, o monstro infeliz ("sua feiúra diabólica tornava impossível contemplá-lo"); e Quasimodo, de Victor Hugo, é produto da mesma era.

Eles representam a mesma sensibilidade que reagiu de maneira adversa aos avanços técnicos da revolução industrial, considerando monstruosas as máquinas nascidas nas aglomerações urbanas. Proust, de sua parte, nos mostra a força da relação entre os preconceitos de classe e o ideal de beleza, ao descrever a Princesa de Guermantes, em À Procura do Tempo Perdido: "O que permitia identificar seu rosto era a conexão entre um grande nariz vermelho e um lábio leporino, ou entre duas bochechas enrugadas e um bigode fino", traços que se tornam sedutores porque infundem a idéia de que na feiúra existe algo de aristocrático, e é indiferente que o rosto de uma grande dama seja belo.

As vanguardas do século 20 optaram pela estética da feiúra, a ponto de levar Hitler ¿que se via como paladino da beleza, eis o perigo- a classificar seus expoentes como degenerados. Na metade do século, com Duchamp pintando bigodes na Mona Lisa e Warhol fazendo arte tendo o lixo como matéria-prima, nasceram o kitsch e o campo, cujos critérios estéticos ficam muito distantes da alta cultura.

Os exemplos extraídos da arte - exibidos em belas ilustrações - são numerosos, e o mesmo se aplica aos exemplos literários, que vão da Biblia e Platão a Don DeLillo e Patrick McGrath, passando por Dante, Baudelaire e Sartre (um homem que se comportava obsessivamente, por se considerar feio).

Enfim, a leitura de Eco confirma o que nos disse Schiller: o horrendo nos fascina, "as cenas de terror e dor nos atraem e repelem com a mesma intensidade" e nada que não "a disposição natural do espírito humano" seria capaz de explicar tais inclinações.

Melhor que a beleza
Como cabe a um livro que será lançado em 27 idiomas, o novo trabalho de Eco teve apresentação estrondosa na feira do livro de Frankfurt. O autor começou dizendo que escrever sobre feiúra havia sido muito mais interessante do que fazê-lo sobre a beleza, à que ele também dedicou um livro.

"Para ser bela, a pessoa não pode ser mais alta que tanto, mais baixa que tanto; é algo de limitado. Mas se pode ser feio de muitas maneiras - gigante, anão. A fenomenologia da feiúra é rica", ele brincou.

"Assim, o que é belo para a classe baixa é feio ou muito feio para os ricos, e, curiosamente, é campo para os ainda mais ricos. Ou seja, podemos ver que o mercado da feiúra oscila demais", afirmou.

Eco disse que os padrões com certeza mudam com o tempo: "A anorexia era bela, há alguns anos, e agora começa a ser feia". Como prova das ambigüidades do tema, Eco mostrou um quadro clássico, no qual um menino sorri para o homem feio que o abraça. "Há caras horríveis que nos agradam, nos fazem sorrir, como a de Jerry Lewis". A ambigüidade prossegue quando ele fala sobre o cristianismo: Eco lembra que, na cultura grega, também existiam horror e feiúra, mas foi o cristianismo que começou a tornar feio o corpo divino, mostrando-o em sofrimento, sob tortura, e representando a feiúra como traço positivo.

Quando alguém lhe mostra um quadro de Botero e pergunta se seu tipo é aquele, Eco sorri: "Bem, pelo menos ela não é anoréxica. Botero não gosta de representar a beleza contemporânea. Seria preciso conhecer a mulher dele¿. Outro espectador mostra páginas de um livro a Eco: retratos de criminosos tirados pelo pesquisador Cesare Lombroso, e um livro com uma foto de um jovem que porta piercings. Há semelhanças entre as imagens. Eco propõe: "Os jovens se consideram atraentes assim".

E ele recorda que a ambigüidade quanto ao que é ou não é desagradável vai de comer pernas de rã a ver sangue, que escorria caudalosamente em espetáculos públicos durante a Revolução Francesa. "Há muito de depravado em nossa visão da feiúra", conclui Eco.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
 

La Vanguardia