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Das 61 telas de Pablo Picasso exibidas em Madri na lendária exposição inaugurada pelo rei e pela rainha da Espanha em 25 de outubro de 1986, apenas uma ficou no país. O testamento de Jacqueline Roque, a última mulher e musa do pintor, dispunha, no entanto, que todos os quadros da exposição fossem doados à Espanha, de acordo com La Verité sur Jacqueline et Pablo Picasso, livro de Pépita Dupont.
É um trabalho explosivo, que não está à venda na biblioteca do Museu Picasso, de acordo com o jornal francês Canard Enchainé, porque "trata com dureza os descendentes de Picasso e certos negociantes de arte e leiloeiro que desrespeitaram as instruções de Jacqueline quanto ao fabuloso tesouro por ela legado".
Em conversa com o Vanguardia esta semana, Dupont leu as acusações que lhe são movidas por Marina Picasso e Hutin Blay. Marina solicita indenização de 15 mil euros por danos e difamação, e Blay quer indenização de 100 mil euros e a censura a trechos supostamente difamatórios do livro.
De acordo com a autora, "meu livro defende os mortos e ataca vivos poderosos. Por exemplo, a senhora Blay, que demorou seis anos para doar à Espanha um dos 61 quadros que foram legados ao país, agora vendeu uma dessas peças ao MNAC, de Barcelona, por 5 milhões de euros. Multiplicadas, somas como essa podem causar vertigens".
Dupont, repórter da revista francesa Paris Match há 33 anos, foi apresentada a Jacqueline Picasso em 1982. O encontro foi "uma explosão de amizade. Jacqueline se tornou uma espécie de segunda mãe para mim. Sempre que me telefonava, eu deixava tudo de lado e ia me encontrar com ela. Era uma pessoa de incrível sinceridade. E se sentia ferida com as suspeitas quanto ao seu interesse pela herança, pelos registros de propriedade da casa em Mougins. Ela me disse que os filhos do pintor revistaram até suas gavetas de calcinhas, e que ela não havia sabido se proteger. A atitude dos filhos do pintor a magoou".
Em 15 de outubro, o dia em que Jacqueline morreu, Dupont foi uma das primeiras pessoas a chegar à casa. "Testemunhei a tomada do poder pela senhora Hutin, que certamente não compareceu à vernissage da exposição em Madri, 10 dias mais tarde". Dupont estava lá, e a imprensa espanhola a entrevistou. Ela declarou que "Jacqueline gostaria que os quadros ficassem aqui".
A declaração não atraiu muita atenção porque simplesmente corroborava as afirmações de Javier Tusell, diretor de belas artes do governo espanhol, a quem Jacqueline havia expressado sua "vontade de doar diversas obras". A afirmação também corroborava declarações de J. M. Arnero, membro da equipe que negociou o retorno de Guernica, ou de Jacques Attali, conselheiro especial do presidente Mitterand.
Dupont lamenta, hoje, que "exista um véu de silêncio", que "Jorge Semprun não tenha querido se pronunciar", ou que Lorenzo Torriente (filho de Aurelio Torrente Larrosa, diretor do Museu Espanhol de Arte Contemporânea em 1985) "não tenha querido me fornecer cópias das páginas do diário em que seu pai me afirmou haver registrado a promessa de Jacqueline".
Dupont repetiu as alegações de seu livro, em entrevista na TV, uma semana atrás. Disse que Jacqueline sabia que era fácil obter licença de exportação para expor obras em outro país e que, "em troca, era praticamente impossível doar 60 peças de uma vez a outra nação. Por isso, decidiu realizar um empréstimo, mas sem a intenção de solicitar devolução em curto prazo".
Dupont insiste, apesar de tudo, em que não se trata de um livro de denúncia, mas sim de "uma homenagem a Jacqueline e a Picasso".
Tradução: Paulo Migliacci
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