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Literatura
Domingo, 18 de janeiro de 2004, 22h55 
Portugal lembra o poeta José Carlos Ary dos Santos
 
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A Casa das Artes prepara na capital portuguesa um "grande espetáculo" para lembrar José Carlos Ary dos Santos, poeta, declamador e autor das letras de vários fados conhecidos, cuja morte completa neste domingo 20 anos.

A organização regional lisboeta do Partido Comunista Português (PCP) também organizou uma concentração no túmulo de Ary, nascido em uma família burguesa, mas que deixou para os comunistas a maioria de seus bens antes de sua prematura morte, aos 47 anos.

A Sociedade Portuguesa de Autores prepara um recital de poesia e canto, que contará com a participação de Fernando Tordo e José Fanha em homenagem ao poeta.

Muitas das grandes figuras da canção portuguesa, como Carlos do Carmo, Simone de Oliveira e a própria Amalia Rodríguez, cantaram as letras de Ary dos Santos, que em seus poemas sempre demonstrou a ausência do afeto materno, já que o poeta perdeu sua mãe em plena adolescência.

Homossexual, estudante rebelde, começou aos 15 anos sua caminhada poética, que dividiu com diversos ofícios, como o de publicitário, mas sua fama chegou quando Simone de Oliveira interpretou sua composição Desfolhada e ganhou o Festival da Canção da RTP, em 1969.

No ano seguinte, sua Canção de Madrugar, na voz de Hugo Maia de Loureiro, conquistou um polêmico segundo lugar, mas em 1971 outra obra sua, Menina, cantada por Tónica, foi de novo vencedora.

Tourada lhe daria em 1973 seu terceiro título na voz de Fernando Tordo, quando Ary dos Santos já tinha iniciado sua relação com Amalia Rodrigues e o cantor José Afonso, cujo Grándola Vila Morena serviu de contra-senha em 1974 ao movimento militar que desencadeou a Revolução dos Cravos.

Ary dos Santos foi autor de centenas de canções e preparava um romance autobiográfico que devia completar sua bibliografia, que inclui títulos como A Liturgia do Sangue (1963), Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964), Adereços, Endereços (1965), Insofrimento In Sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1970), Resumo (1972), As Levas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1978) e Vinte Anos de Poesia (1983).

José Saramago, Natalia Correia e José Jorge Leitria foram alguns dos intelectuais de esquerda que comentaram a figura de Ary dos Santos e sua morte.

Para lembrar o poeta estará aberta até o próximo dia 31, em Gondomar, perto de Porto, uma mostra intitulada "Vinte Anos sem Ary" e seus amigos comunistas organizaram outra, até o dia 23, com o título de "Ary dos Santos, poeta das Revolução".

O órgão comunista, "Avante", também lançará um DVD sobre Ary dos Santos em sua próxima edição de abril, dedicada a comemorar o trigésimo aniversário da Revolução dos Cravos.

Fernando Tordo, o cantor que colaborou com Ary dos Santos por quase 14 anos, disse que mais que um poeta ou um militante de partido, foi um "poeta extraordinário" e lamentou o ostracismo a que foi submetido por outros intelectuais pelo feito de ter escrito letras para canções.

Carlos do Carmo, um dos principais intérpretes de fado contemporâneos, que acaba de comemorar 40 anos de carreira, comentou que "há um fado antes e outro após Ary dos Santos", e que sente "a falta de um amigo inesquecível", enquanto que sua colega Simone de Oliveira garante que o poeta "continua vivo em minha memória".
 

EFE

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