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Arte e Cultura
Sábado, 31 de maio de 2008, 10h54  Atualizada às 10h55
Biografia de Paulo Coelho expõe experiências com drogas e suicídio
 
Ricardo Calazans
 
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Como os milhões de leitores de Paulo Coelho mundo afora, o jornalista Fernando Morais tinha vontade de conhecer os mistérios que cercavam o escritor. "Eu sabia o que ele é, o autor que mais vende livros hoje, mas tinha curiosidade de saber quem estava debaixo daquela pele", diz Morais, que durante quatro anos grudou em Paulo Coelho para escrever O Mago.

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O livro, porém, só foi concluído quando o biógrafo teve acesso a um baú com quatro décadas de memórias e confissões de Coelho. "Quando abri o tal baú, parecia o Santo Graal em Indiana Jones. Saiu anjo e saiu demônio - mais demônio que anjo, aliás", diz ele. Apesar de experiente - são suas as biografias Olga e Chatô -, Fernando Morais se viu confuso, diante de um diário bem diferente da imagem zen que Paulo Coelho tem hoje.

Em 170 cadernos e 100 fitas de áudio, o futuro autor de O Alquimista expunha suas experiências com drogas, suicídio, loucura, satanismo, tortura, homossexualidade. "Achei que era muita areia para o meu caminhão. Ali não tem uma vírgula que não seja espantosa. Achei muita coragem dele se expor assim. Se minha vida tivesse metade dessa tragicidade, não sei se teria peito de vê-la publicada", admite.

Ao encontrar Paulo Coelho pela primeira vez, no início de 2005, Morais impôs uma condição. "Logo de cara, falei: 'você não lerá os originais'. Ele topou sem fazer exigência", conta. Já abrir o baú não foi fácil.

"O Paulo havia determinado, em seu testamento, que o baú deveria ser incinerado logo após sua morte. Ele só me deixou ver o que havia lá se eu descobrisse o nome do major que, em agosto de 1969, ameaçou arrancar seu olho e comer, num quartel no Paraná." Fernando descobriu. O nome do major, que aparece em listas do projeto Brasil Nunca Mais por seu envolvimento em torturas na ditadura, está na página 228 de O Mago.

Não é a revelação mais perturbadora do livro. Depois de fazer um aborto, no início dos anos 70, uma namorada de Paulo pensou em se matar. Ele não só a incentivou, como parte de um tratamento de choque psiquiátrico, como ficou vendo-a, entupida de barbitúricos, nadar ao encontro da morte no mar de Ipanema.

Por sorte, ela escapou. Há sexo num cemitério, a descrição de suas três experiências homossexuais quando jovem e até um encontro pavoroso com o demônio. O Mago oscila entre várias literaturas: fantástica, esotérica, romance, terror. Mas termina como um conto de fadas. Paulo Coelho é hoje o único autor vivo traduzido em mais línguas do que William Shakespeare.
 

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