| Jean Dieuzaide/Reprodução/Divulgação |
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| Salvador Dalí |
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Durante os anos que passou nos Estados Unidos, fugindo da guerra e da turbulência política na Europa, Salvador Dalí recortava e colecionava tudo o que saía na imprensa a seu respeito, toda semana. Mas o artista surrealista não lia os artigos recortados. Ele os pesava.
O jornalista Carlos Sentis, que ficou amigo de Dalí em Nova York, em 1946, conta: "Dalí dizia: 'esta semana foi boa, um pouco mais pesada'. Ele queria que as pessoas - as massas - conhecessem seu trabalho, mas não se importava com a opinião delas."
Para o artista, que capturou a imaginação do público com seu famoso bigode que desafiava a gravidade e seus quadros de estranhas paisagens oníricas, a publicidade negativa era algo que não existia.
"O chocolate Lanvin me deixa louco!" diz Dalí, com os olhos arregalados e as pontas do bigode se levantando com irreverência, em um comercial de TV do chocolate francês que fez em 1969.
O comercial faz parte de uma exposição montada em Barcelona para comemorar o centenário do nascimento do artista catalão, em 11 de maio, com destaque para suas investidas na cultura popular.
A mostra "Dalí e a Cultura de Massas" reúne mais de 400 trabalhos do artista, variando desde capas de revistas, comerciais, pinturas e esculturas até colaborações no cinema com diretores tão diversos quanto Walt Disney, Alfred Hitchcock e o cineasta de vanguarda espanhol Luis Bunuel.
As desconstruções que Dalí fez de objetos do cotidiano, tais como o famoso telefone-lagosta ou o sofá vermelho no formato dos lábios de Mae West, iriam influenciar artistas pop como Andy Warhol.
Mas nem todas suas tentativas de popularizar sua arte foram bem sucedidas. Em sua autobiografia, A Vida Secreta de Salvador Dalí, escrita em 1942, Dalí relata como quebrou a vitrine de uma loja na Quinta Avenida depois que a direção da loja modificou seu display.
Sua busca desavergonhada por riqueza, os ares aristocráticos que ele assumia e suas posições políticas de direita despertaram o repúdio de muitos de seus contemporâneos.
O líder dos surrealistas, o poeta francês André Breton, resumiu essa reação quando fez um anagrama com o nome de Dalí: "Avida Dollares". Dalí respondeu: "A única diferença entre os surrealistas e eu é que eu sou surrealista."
MENINO TÍMIDO
Filho de um tabelião da cidade de Figueres, Salvador Dalí foi um menino tímido cujo talento artístico foi incentivado por seus pais e sua irmã menor, que serviu de modelo para várias de suas primeiras telas.
Depois de mudar-se para Madri, em 1921, para cursar uma escola de arte, Dalí superou sua timidez por meio do exibicionismo e fez amizade com intelectuais como Bunuel e o poeta Federico García Lorca.
Admirador de Pablo Picasso, Dalí relata como o procurou em Paris, em 1927. "Vim ver você antes de ir ao Louvre", disse Dalí. "Você fez a coisa certa", respondeu o artista de Málaga, sem meias-palavras. Talvez não surpreenda que a amizade deles tenha se enfraquecido à medida que a fama de Dalí foi crescendo.
Para muitos, a força motriz por trás do sucesso do artista foi sua excêntrica mulher, Gala, uma emigrante russa que ele conheceu em 1929 e que se tornou sua amante, musa e empresária.
Gala facilitou seu ingresso na elegante sociedade parisiense e trabalhava incansavelmente para promover seu trabalho.
"Dalí era incapaz de qualquer coisa prática", contou Sentis. "Qualquer coisa como reservar passagens aéreas ou vender quadros era feito por Gala. Sem ela, Dalí não teria chegado aonde chegou."
A medida que sua fama foi aumentando, a imagem extravagante de Dalí se tornou tão importante quanto sua arte. Quando um entrevistador lhe perguntou por que ele tinha bigode, Dalí respondeu, com ironia: "Para passar desapercebido!"
Sua obra é repleta de objetos do cotidiano mostrados de maneira irreal, como os relógios que se derretem em sua obra-prima de 1931, "A Persistência da Memória".
Suas telas surpreendem o espectador com o surgimento de novos objetos à medida que se muda de perspectiva. É o caso do retrato oculto do filósofo francês Voltaire que se percebe em sua tela de 1940 "O Mercado de Escravos".
"Dalí era um homem muito irônico, que vivia zombando das pessoas", disse Sentis, sentado em Barcelona diante de um esboço de Dom Quixote que Dalí lhe deu em 1946. "Mas tinha grande charme e capacidade de manipular as pessoas."
O artista defendia a natureza subversiva de suas composições aparentemente caóticas, dizendo que era parte da exploração do subconsciente, uma premissa central da arte surrealista.
"Não é necessário que o público saiba se estou brincando ou sério, assim como não é necessário que eu mesmo saiba", dizia.
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