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O Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Assis, reúne o maior acervo do jornalista e escritor paulista João Antônio, morto em 1996. Sua obra ficou conhecida por retratar os marginalizados paulistas e cariocas de forma crítica, que foi reconhecida pelos prêmios Jabuti e Fábio Prado. Antônio também foi o criador da expressão "imprensa nanica" no Pasquim e jornalista do "corpo-a-corpo com a vida".
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Seus pertences foram doados para a instituição pela própria família e estão sob a coordenação da professora Ana Maria de Oliveira. Os objetos estavam no apartamento alugado pelo escritor na praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O acervo reúne livros escritos por Antônio e também aqueles que ele comprou e recebeu dedicatória de outros autores brasileiros e estrangeiros, como Caio Fernando Abreu, Jorge Amado, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Lygia Fagundes Telles.
Entre as obras mais conhecidas do escritor estão Malagueta, Perus e Bacanaço e Abraçado ao meu rancor. Para o professor da Unesp de Bauru, Marcelo Bulhões, a obra de João Antônio se constitui "sob a forma da negatividade, do inconformismo e plasmada com os meios de expressão dos despossuídos. Ela está comprometida, até as vísceras, com a realidade social degradada".
O que mais impressiona os leitores de Antônio é a forma como ele relatou as putas, os malandros, os trabalhadores e os trambiqueiros. Bulhões destaca que o escritor defendia o enfrentamento com a vida, sem demagogia, o que propiciou aproximar a sua narrativa jornalística à literatura. O próprio Antônio já definira essa postura em Corpo-a-corpo com a Vida, do livro Malhação do Judas Carioca :
"Literatura de dentro para fora. Isso é pouco. Realismo crítico. É pouco. Romance-reportagem-depoimento. Ainda é pouco. Pode ser tudo isso trançado, misturado, dosado, conluiado, argamassado uma coisa da outra. E será bom. Perto da mosca. A mosca - é quase certo - está no corpo-a-corpo com a vida. Escrever é sangrar. Sempre, desde a Bíblia", escreveu ele.
No acervo, descobre-se mais desse defensor do "escrever é sangrar". Segundo Ana Maria, "João Antonio tinha absoluta consciência da posteridade", o que se confirma com o bloquinho de anotações feitas em embalagens de cigarro que guardou. A impressão que se tem é a de que o escritor sabia que seria descoberto pelos pesquisadores. Merece destaque a sua vasta coleção de discos de 78 rotações e a de revistas literárias, acadêmicas e até pornográficas. Há diversas edições de Realidade, ousada revista da década de 1960 que teve João Antônio como um dos seus criadores em 1966. Nela, abordaria a prostituição em 1968, com "Um dia no cais", o primeiro conto-reportagem brasileiro.
Após ver seus velhos bilhetes da loteria criteriosamente arquivados, duas certezas surgem: João Antônio era atento aos amigos e extremamente organizado. Ana Maria lembra que "ele numerava as correspondências e até marcava no envelope se já as havia respondido". Nas gavetas, pelo volume de cartas, percebe-se que o jornalista mineiro Manoel Lobato foi um de seus grandes confidentes. Outra preciosidade arquivada é a agenda pessoal, preenchida com contatos do escritor. Muitos são europeus e talvez lhe tenham sido úteis nas passagens pela Alemanha, Polônia, Tchecoslováquia e Espanha. Mas, João também fez da agenda seu guia de gírias. Na letra M, por exemplo, "malandreco" é "o mais verdadeiro dos malandros" e "marreco" um elegante sinônimo para "otário".
Quem tiver paciência, lerá as dedicatórias oferecidas a João, inclusive a de uma escritora ucraniana que em Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres anotou: "João Antônio, dizem que este livro ensina a amar. Mas você já sabe. Abraço da Clarice. 31 de março de 1977".
O internauta Bruno Espinoza, de São Paulo (SP), participou do vc repórter, canal de jornalismo participativo do Terra. Se você também quiser mandar fotos, textos ou vídeos, clique aqui.
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