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18ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Terça, 20 de abril de 2004, 08h21 
Corredores cheios marcam fim de semana na Bienal
 
Ana Cristina Pereira
 
Reuters
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou na abertura da 18ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
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O primeiro final de semana da Bienal Internacional do Livro de São Paulo - que acontece até o próximo domingo - foi marcado por uma realidade de filas e corredores cheios no Centro Cultural Imigrantes. Uma verdadeira festa. Misto de feira com evento artístico-cultural, o evento paulista, um dos maiores do mundo no gênero, chega à 18ª edição com a receita equilibrada de como promover o livro nesta terra de tão poucos leitores: fazer várias bienais dentro de uma só.

Tem a bienal do parque de diversão infantil, a das estrelas do livro, a dos profissionais do livro, a dos grandes debates e a dos muitos negócios. Tudo misturado, com o objetivo final de popularizar o livro e a leitura no Brasil. A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura oficial, quinta-feira passada, colocou um ingrediente a mais no clima de empolgação. Foi o primeiro presidente da república a abrir o evento, em 34 anos, o que serviu como um atestado de preocupação com o tema. "Nosso país só estará incluído neste mundo globalizado quando estivermos exportando, além de matéria-prima, conhecimento", afirmou.

O próprio Lula apontou os "desafios" a vencer, dando dados preocupantes como a existência de apenas 26 milhões de leitores ativos (pessoas que lêem pelo menos três livros por ano) ou o fato de 52% das crianças de 5ª série não conseguirem interpretar o que lêem. Disse ainda que o Ministério da Cultura, um dos responsáveis pela engrenagem do mercado no país, deverá comprar 124 milhões de livros, cerca de 40 milhões a menos do que em 2003. "O gesto do presidente e das autoridades presentes demonstra a importância e a prioridade que a causa do livro merece dos governantes", considerou Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade que promove a bienal.

Em meio a tantas dificuldades, quando alguém se destaca no meio, recebe, com justiça, muitas reverências. Não foi por acaso que a escritora gaúcha Lygia Bojunga foi convidada para dar a largada ao Salão de Idéias, o espaço mais importante de debates na bienal. Ela receberá em maio, na Suécia, o prêmio Astrid Lindgren Memorial Award 2003, que, ao lado do Hans Christian Andersen, é o mais importante do mundo para a literatura infanto-juvenil. "Fiquei muito indignada das pessoas só destacarem o valor financeiro do prêmio", desabafou a escritora, referindo-se aos U$$600 mil.

Pega de surpresa e honrada com a escolha, que desbancou escritores de todos os cantos do mundo, a autora do clássico A bolsa amarela anunciou a criação de uma fundação em prol do livro e sua autonomia editorial. Seus últimos nove livros foram publicados pela Editora Casa Lygia Bojunga e em breve a escritora será detentora dos direitos de todos os seus 20 títulos. "Acabo de ter uma sorte inesperada e vou concretizar meu sonho de uma fundação que traga o livro para perto do jovem", afirmou Lygia. Ela disse, ainda, que reconhece os esforços do governo, mas acha que o processo está muito lento diante das nossas necessidades. "Não é só ter livros, é preciso criar o hábito da leitura, que ainda é um privilégio de poucos no Brasil", refletiu.

Privilégio também foi uma palavra usada pela poeta mineira Adélia Prado, que honrou esta edição da bienal, participando pela primeira vez do evento. Impressionada com o tamanho do "banquete" servido ao público, ela disse que é preciso colocar mais gente à mesa. "Este banquete está longe de ter uma festa real. A língua portuguesa e a literatura brasileira são consideradas coisas menores. Precisamos colocar nossa energia na mudança da educação", afirmou a escritora, que durante anos foi também professora.

Para ajudar a pensar, e até mesmo oferecer soluções ao mercado editorial, o antropólogo e escritor Felipe Lindoso preparou o livro O Brasil pode ser um país de leitores? (Summus Editorial), que está lançando no evento. Com uma visão global do processo - ele já foi editor e durante dez anos integrou a Câmara Brasileitra do Livro -, Lindoso diz que só haverá solução se o Brasil tiver uma política integrada para o livro. "É preciso uma ação global que envolva os ministérios da Educação, Cultura, Indústria e Comércio e até o de Relações Exteriores. O que temos são ações dispersas como o Fome de Livro, que sozinhas não levarão a nada", observou.
 

Correio da Bahia