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Arte
Terça, 11 de maio de 2004, 13h20 
Aos 100 anos, Salvador Dalí permanece irreverente
 
Jean Dieuzaide/Reprodução/Divulgação
Salvador Dalí
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Nascido na cidade de Figueres, a 11 de maio de 1904, o pintor catalão Salvador Dalí foi batizado com o mesmo nome de um irmão que morrera três anos antes vítima de meningite. O fato de ser obrigado a levar, ainda pequenino, flores à tumba de alguém que tinha seu próprio nome, criaria nele uma intensa instabilidade emocional. Em conversas com pessoas mais próximas, Dalí já adulto chegava a mencionar o seu otro yo (outro eu). Artista irônico, intrigante, fanfarrão, surpreendente, polêmico, provocador e revolucionário, um dos mais importantes do século XX, Dalí completaria, hoje, 100 anos de idade, não fosse o ataque cardíaco que interrompeu, em 1989, sua brilhante trajetória.

Veja algumas obras de Dalí

Impossível afirmar com certeza, mas aquele fato dramático da infância pode tê-lo aproximado do surrealismo, movimento cuja premissa básica é o afastamento da realidade ordinária. Fato é que Dalí criou um mundo pictórico só seu e nada medíocre. Segundo André Breton, no manifesto divulgado em 1924, através do qual se lançaram as bases do movimento surreal, a idéia era "resolver a contradição até agora vigente entre sonho e realidade pela criação de uma realidade absoluta, uma supra-realidade".

O texto informava que a importância do mundo onírico, irracional e inconsciente, estava ligada diretamente ao uso que os artistas faziam da obra de Sigmund Freud e da psicanálise, o que os liberava para explorar nas artes o imaginário e os impulsos ocultos da mente. Como se freqüentasse uma sessão de psicanálise na qual ele era ao mesmo tempo analisado e terapeuta, Dalí mergulhou fundo na proposta apresentando para o mundo suas imagens duplas, seus relógios moles, e elefantes com pernas finas. "Não interessa se os relógios são moles ou duros, o que importa é que eles dêem a hora certa", rebateu, diante dos burburinhos em torno da obra.

Na maioria dos seus trabalhos, ele ofereceu ao observador a chance de perceber numa mesma obra diferentes elementos, na medida em que mudava de perspectiva. É o caso de O mercado de escravos (1940), no qual aparece a imagem encoberta do filósofo francês Voltaire. O artista que fez sua primeira reprodução da Venus de Milo em barro, com apenas 8 anos de idade, marcou o imaginário do século passado com obras como a conhecidíssima A persistência da memória (1931), a tal dos relógios moles. E tinha plena consciência do próprio talento.

"Toda manhã quando acordo eu experimento uma excepcional alegria - a alegria de ser Salvador Dalí - e me pergunto de súbito: 'Que coisas maravilhosas este Salvador Dalí vai aprontar hoje?'", disse, certa vez.

Dalí não tinha motivos para se fazer de modesto. "Serei um gênio, talvez incompreendido, mas serei gênio", alardeava, ainda no começo da carreira. O catalão reuniu-se aos companheiros de movimento surrealista nos anos 1920, quando mudou-se para Paris. Em seus tempos de França, foram produzidas El gran masturbador, El espectro del sex-appeal, El juego lúgubre, e La persistencia de la memoria, entre outras.

Pouco depois, em 1929, Salvador Dalí conhece a russa Helena Diakonova, que se tornaria sua musa, empresária e esposa. Ao encontrá-lo, Gala (como era conhecida) vaticinou: "Não nos separaremos nunca mais". Viveram juntos por 53 anos, até a morte dela, em 1982. A devoção com que tratava a mulher despertou a ira de muitos críticos. Gala foi responsável pela escalada financeira de Dalí e organizou a vida do homem que era incapaz até de providenciar coisas mínimas, como uma passagem de avião.

Também em 1929, Dalí escreveu o roteiro para Um cão andaluz, dirigido pelo espanhol Luís Buñuel. A idéia era chocar as platéias com imagens bizarras como a famosa cena da lâmina que corta ao meio o globo ocular de uma pessoa e as formigas que surgem do nada nas mãos de um homem. É considerado uma experiência surrealista levada até as últimas conseqüências. O público recebeu bem o filme, mas Buñuel, prevendo o pior, assistira à premiére com os bolsos cheios de pedras para se defender da turba. Dois anos depois, Dalí repetiu a parceria com Buñuel em A idade do ouro.

Talvez a mais intrigante experiência cinematográfica de Salvador Dalí tenha sido Destino, gestada em 1946 com Walt Disney. Com direção de John Hench, pretendia ser uma cena poética sobre o amor e o tempo, embalada pela canção homônima do espanhol Armando Dominguez. Também deveria atender à pretensão de Disney em provar que desenho animado poderia ser uma forma de arte. O curta mostra figuras humanóides deformadas, montadas sobre cascos de tartaruga que, quando se juntam, apresentam a forma de um sino que, por sua vez, se transforma em bailarina. O objetivo era levar ao espectador imagens que ele reconheceria de uma forma e, em seguida, visualizaria de modo completamente diferente.

"Vim a Hollywood e tropecei com três grandes surrealistas americanos: os Irmãos Marx, Cecil B. DeMille e Walt Disney", escreveu Dalí, em 1937, numa carta para o então amigo André Breton. O material, que ficou esquecido por 57 anos, foi recuperado no ano passado por uma equipe de 25 peritos em animação sob a supervisão de Roy Disney, sobrinho de Walt e vice-presidente da companhia, e concorreu ao Oscar 2004 de melhor curta animado. A fita teve seu conceito e desenho originais preservados. O processo de conclusão da peça (que concentrou, em seis minutos, 150 desenhos e pinturas feitos em oito meses de trabalho de Dalí) foi orientado por Hench, atualmente com 95 anos de idade.

Como já sabia, desde o começo da carreira, que seria gênio e também incompreendido, Dalí não dava a mínima às críticas contra suas convicções políticas de direita (assumiu sua simpatia pelo ditador espanhol Francisco Franco) e à forma que conduzia a carreira. Não hesitou em romper com os surrealistas. André Breton, mentor do movimento e agora ex-amigo, chegou a criar o anagrama Avida dollars com o nome do pintor. Dalí achava que os ex-companheiros o censuravam pelo fato de não ter virado comunista e, pior das heresias, ter apresentado Lênin com as nádegas moles no desenho O enigma de Guilherme Tell (1933). "A diferença entre mim e os surrealistas é que eu sou surrealista", escrachou.

Salvador também flertou com a cultura pop. "O chocolate Lanvin me deixa louco", dizia no comercial de tevê da guloseima francesa, veiculado em 1969, com os olhos arregalados e o excêntrico bigode levantado. Desconstruiu objetos e fez o famoso sofá vermelho no formato dos lábios de Mae West, e o telefone-lagosta que influenciariam o ícone Andy Warhol. Criou bolsas, carteiras e pastas de couro para regalar os amigos, dentre os quais o duque e a duquesa de Windsor. Os acessórios, que produziu em edições limitadas na década de 60, foram atualizados no ano passado e serão relançados no mercado de luxo de vários países. No Brasil, os mimos de Dalí devem chegar ao preço médio de R$5,9 mil.

Embora criasse imagens alucinantes (o que estimulou a imaginação de algumas pessoas, fazendo-as crer que o artista usava substâncias químicas), consta que ele nunca usou drogas. "Não consumo drogas, eu sou as drogas". Dalí parou de pintar quando Gala morreu e diminuiu suas aparições públicas. Morreria sete anos depois da amada. Sempre que era perguntado sobre o motivo de usar aquele bigode tão irreverente, o gênio catalão respondia ironicamente: "Para passar despercebido". Provavelmente o único desejo que não conseguiu realizar.


 

Correio da Bahia