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Literatura
Quinta, 13 de maio de 2004, 14h53 
Conheça os best-sellers na América Latina
 
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O escritor brasileiro, Paulo Coelho, acumula US$ 3.600 por dia com os juros advindos de sua fortuna, segundo a lenda que circula entre os banqueiros de Zurique. O autor conseguiu esta proeza, sem se envolver com tráfico de drogas, ter uma indústria nem especular ações em Wall Street.

Seu mérito consiste em ter construído sua fortuna com a venda de 28 milhões de exemplares, número que o coloca entre os escritores de maior sucesso do mundo.

Não se trata de um fenômeno isolado na América Latina. Pela primeira vez, a lista de best-sellers internacionais inclui vários escritores de língua espanhola - como Isabel Allende, Arturo Pérez Reverte e Gabriel García Márquez -, que competem em igualdade de condições com autores anglo-saxões.

Com 28 milhões de cópias vendidas e traduções para 27 idiomas, a chilena Isabel Allende geralmente é considerada a romancista latino-americana mais lida do mundo, depois da inglesa J.K. Rowling, criadora da saga do bruxinho Harry Potter.

O espanhol Arturo Pérez Reverte, que encontrou um rentável filão com sua série de capa e espada do capitão Alatriste, vendeu mais de três milhões de exemplares que compõe a saga.

Somando seus outros títulos, seu total de vendas no mundo supera os 40 milhões de exemplares, traduzidos para 29 idiomas e é considerado o "recordista de vendas em castelhano", segundo seu site na Internet. Nesse nível, compete em pé de igualdade com os autores mais vendidos do gênero aventuras e mistério: John Grisham, Stephen King, Tom Clancy e Mary Higgins Clark.

Quando seu penúltimo livro saiu, um de seus leitores fanáticos calculou que os 250.000 exemplares da primeira edição de La reina del sur se esgotaram em três semanas num ritmo de oito exemplares por minuto, inclusive à noite.

Este fenômeno parecia difícil de imaginar entre o final dos anos 60 e a década de 70, quando Gabriel García Márquez colocou Cem anos de solidão nos primeiros lugares de vendas em todo o mundo, traduzido para mais de 50 idiomas.

Três explicações para o fenômeno
A ascenção vertiginosa que a literatura em espanhol registrou no mundo obedece pelo menos a três fatores convergentes:

· A expansão que o mercado editorial internacional teve, um fenômeno que reclama cada vez mais autores e temas capazes de saciar a demanda do público.

· O prestígio conseguido pela literatura em espanhol ao nível mundial, tanto como conseqüência do "boom" latino-americano como de uma nova geração de escritores espanhóis que surgiu depois do franquismo.

O tremendo vigor da indústria editorial espanhola, que atualmente produz 60 mil títulos por ano, quase tantos quanto os Estados Unidos e 10.000 a mais que a França, segundo estatísticas da International Publishers Association (IPA). Contudo, o país mais dinâmico nesta área é a Grã-Bretanha, com uma média de 110 mil livros anuais. (Estes números, no entanto, não permitem ver o grande contraste que reside na diferença de tamanho dos dois mercados: enquanto a indústria do livro nos Estados Unidos faturou US$ 26 bilhões em 2002, segundo a Association of American Publishers, as vendas na Espanha totalizam apenas 3,2 bilhões).

Num mundo onde se edita um livro a cada 30 segundos - ou seja, mais de um milhão de títulos por ano - localizar um título na lista de sucessos mundiais realmente representa uma proeza.

O que é um best-seller?
O fenômeno do best-seller abarca autores e títulos em espanhol tão diferentes quanto Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, o cavalheiresco Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, os romances de Isabel Allende e as aventuras de capa e espada de Pérez Reverte, os relatos místicos de Paulo Coelho, os livros de autoajuda de Jorge Bucay e até os romances açucarados de Corín Tellado, que entrou para o livro Guiness dos recordes, graças aos 400 milhões de exemplares que vendeu com os 4.000 títulos escritos em algo mais de meio século.

Por definição, um best-seller não prejudica a qualidade literária ou o conteúdo de um livro. Distante de qualquer juízo de valor, a própria expressão já diz tudo. Seu atributo é a quantidade vendida, sem alusão à qualidade.

"Se existem casos de escritores de baixa qualidade que produzem vendas maciças de livros facilmente esquecidos, isto se deve à pouca exigência intelectual do mercado e às necessidades financeiras do setor", explicou Ricardo Nudelman, diretor do Fundo da Cultura Econômica, em declarações à AFP.

Além disso, "a indústria precisa criar suas mitologias e o marketing força as condições do mercado para tornar em best-seller o livro efêmero, com pouco a ver com o aspecto cultural que pressupõe a publicação de um livro", acrescentou.

Nudelman, assim como outros editores de títulos de alta exigência de qualidade literária, admitem que é possível construir um best-seller a partir de um bom marketing e explorando situações conjunturais, embora sejam simples escândalos do espetáculo ou da política.

Assim, o esotérico La hermandad de la Sábana Santa, da escritora espanhola Julia Navarro, que ocupa há meses as listas dos livros mais vendidos da Espanha, foi publicado pegando carona no sucesso de O Código Da Vinci, de Dan Brown.

Best-seller do momento em quase todo o mundo, este livro gerou uma "reação em cadeia" de títulos similares ao trazer à tona a teoria de que Jesus e Maria Madalena tiveram uma filha.

Em abril, O código Da Vinci tinha vendido 15 milhões de exemplares em 30 idiomas: 1 milhão em espanhol e 53 mil no Brasil, desde que foi lançado, em abril passado.

Alguns best-sellers são obras de arte
O best-seller é "um produto fruto da moda, que vende como perfume ou modelo de carro", definiu o escritor Manuel Villar Raso.

Mas nem todo livro que vende bem é necessariamente produto de consumo. "É preciso reconhecer também que existem bons escritores, cujos livros se definem como best-sellers", admitiu Nudelman.

"Insisto em que o best-seller deveria ser o 'long-seller', ou seja, o que sempre se vende, por um longo período. Neste sentido, quem duvida que Shakespeare, Cervantes, Borges e Paz são best-sellers?", continuou.

É que o horizonte interminável dos milhares e milhares de best-sellers do mundo também inclui obras-chave da literatura.

García Márquez integrou - junto com outros autores como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Mario Benedetti - o chamado "boom" da literatura latino-americana, iniciado em meados dos anos 60, que rendeu vários best-sellers de grande valor para a literatura em castelhano.

"O boom nasce de uma situação muito complicada na América Latina, quando havia problemas sociais, políticos e econômicos", explicou à AFP o editor Francisco Porrúa, responsável pela primeira edição de "Cem anos de solidão".

A censura imposta pelo franquismo (na Espanha)", onde não se podia publicar, "deu forças a editoras latino-americanas".

Diferenças de mercado
Tudo muito distante da engenharia industrial do marketing e da imprensa a serviço das vendas: o mercado latino-americano tem suas particularidades e é, por exemplo, muito diferente do anglo-saxão, como explica Nudelman.

Um best-seller na América Latina, no sentido de venda rápida e fugaz, tem um mercado limitado a poucas dezenas de milhares de exemplares. Um livro de García Márquez ou de Vargas Llosa vende só na América Latina e em castelhano, até 100.000 ou 150.000 exemplares, o que não representa um volume muito grande em relação aos pagamentos adiantados.

Ao contrário, um best-seller nos Estados Unidos vende muito acima deste limite na primeira edição em capa dura e depois um milhão ou mais na edição pocket.

"O mercado americano é muito maior e previsível que o da América Latina e a comercialização é muito mais precisa também", disse.

"Nós temos fragilidades estruturais, que têm a ver com pobreza, falta de recursos para a educação e a saúde e muitos outros fatores que, como consequência, produzem um mercado leitor reduzido e frágil", disse Nudelman.

O filão da auto-ajuda
Esse contexto, por outro lado, também é particularmente fértil para os chamados "livros de auto-ajuda", entre os quais reina o brasileiro Paulo Coelho, com O Alquimista, que já vendeu 11 milhões de cópias e cujos direitos foram comprados pela Warner em 1993.

Segundo seu site na Internet, Coelho vendeu 28 milhões de livros em mais de cem países, com a fórmula de histórias e experiências místicas.

"Sua atração 'Nova Era' coincide com a sede de transcendência e de metafísica que foi mal saciada no Brasil e no mundo com esoterismo, novas seitas e livros estranhos e - para dizer a verdade - bastante superficiais", explicou o professor de Literatura Brasileira Gabriel Perissé, autor de uma tese acadêmica sobre o autor.

"Do meio de duendes, quiromânticos, pirâmides e ruínas, Coelho surgiu como um paradigma, como um exemplo para quem busca respostas mais 'elevadas' num contexto social desequilibrado, ao mesmo tempo individualista e massificante", acrescentou.

É que editores especializados em best-sellers se preocupam com que os livros que editam se amoldem a determinadas fórmulas, em particular para agradar o leitor. Porque, embora poucos o digam, este segmento da indústria literária é, acima de tudo, um negócio.
 

AFP

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