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Arte e Cultura
Domingo, 23 de maio de 2004, 17h24 
Importante livro de Câmara Cascudo é reeditado
 
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Provinciano incurável, como ele mesmo se definia, o pesquisador, escritor, historiador, crítico literário e folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo é uma das principais referências quando se trata de usos e costumes do povo brasileiro.

Dezoito anos após sua morte, Cascudo - que se recusava a deixar Natal, cidade na qual nasceu em 1898 - tem um dos seus livros mais importantes relançados pela Global Editora. Locuções Tradicionais no Brasil, publicado originalmente em 1970, é mais uma obra de Cascudo que a editora recoloca em circulação no mercado livreiro do Brasil.

Com anuência da família, a Global acrescentou nesta edição os acentos no nome do autor e apenas corrigiu erros de digitação nas notas, uma vez que já não existem os originais da obra. O jeito peculiar com o qual Cascudo registrava suas fontes foi mantido em respeito à forma encontrada na última edição do autor em vida. Locuções tradicionais no Brasil é um livro curioso e informativo que permite fácil acesso às 485 frases, termos e expressões que aparecem dispostas nas páginas da publicação como se fossem verbetes num dicionário.

"Todas as locuções reunidas neste livro foram ouvidas por mim. Evitei as tentações do esclarecimento controvertido daquelas frases que tinham sido queridas e vulgares em Portugal de trezentos anos passados, fixadas na literatura coetânea e jamais vivas na linguagem brasileira. Limitando a tarefa às locuções tradicionais, não recusei hospitalidades às relativamente modernas, pequeninas construções novas erguidas com o material das reminiscências sem idade, como surge uma aldeia nas ruínas do castelo desmoronado", escreveu Cascudo (que também incursionou pela poesia tornando-se parte da primeira geração do Modernismo), na apresentação do livro.

Diversão Garantida
As quase 500 expressões coletadas por Câmara Cascudo proporcionam ao leitor atento uma fonte de reflexão sobre sua própria língua e, conseqüentemente, sobre o emaranhado que forma o caldo de cultura nacional. Porém, mais do que uma fonte de informações, o livro é também um belo divertimento. A primeira expressão citada por Cascudo, em seu livro, é "favas contadas". "Antigamente votava-se com as favas brancas e pretas, valendo o sim e o não. Cada votante atirava o voto na urna. Depois, vinha a solene apuração pela contagem dos grãos. Estaria eleito quem obtivesse maior número de favas brancas. Favas contadas decidiam o pleito, e mesmo julgamento em concursos", explica o autor que entrou na Faculdade de Medicina da Bahia, entre 1916 e 1918, mas não concluiu o curso.

"Abafar a banca" é outra expressão de significado interessante. Cascudo diz que o termo surge a partir do jogo do marimbo, também denominado abafo, jogado com três cartas. Quem julga possuir o maior número de pontos cobre com as cartas o monte das apostas, dizendo: "abafo a banca!". "A frase derramou-se pelo Brasil. O vitorioso em qualquer façanha, política, literária, esportiva, científica, é aquele que abafou a banca. Ou, simplesmente, abafou! Abafar, sinônimo de sucesso evidente para o próprio adversário, êxito incontestado e público, é vocábulo de velho uso em Portugal, popular no século XVI".

O que não faltam, neste livro, são expressões ainda hoje usadas cotidianamente, a exemplo de "passou-lhe a mão na cabeça" - desculpar, perdoar, relevar vícios, erros e mesmo crimes -; "bater com a mão na boca" - autopunição simbólica às palavras blasfêmicas ou irreverentes aos assuntos religiosos -; "bode expiatório" - o grande culpado inocente, responsável pelas culpas alheias, expiando os crimes que não cometeu. Assim como a também famosa "pé-rapado" - descalço, de pés nus, pé no chão. "Constitui a mais humilde categoria social. O sapato é uma promoção econômica. Era, no Brasil anterior a 1888, a primeira compra do escravo alforriado, índice da conquista autárquica. Nos sertões e praias, o único par de calçados era usado em festas religiosas e visitas de alta cerimônia", justifica o estudioso.

Câmara Cascudo era um entusiasta da cultura brasileira e costumava declarar seu interesse pelas coisas do campo e da cidade. Também não escondia o fascínio pelo que humildes, sábios e analfabetos tinham a dizer. Formado em direito em Recife, Cascudo colaborou em jornais como O Estado de S. Paulo, e escreveu 127 livros. Um dos membros-fundadores da Academia Norte Rio Grandense de Letras, em 1936, recebeu o Prêmio João Ribeiro pelo livro Geografia dos mitos brasileiros (1947); teve a rua na qual ficava a casa onde nascera rebatizada com seu nome (1955); e ainda levou o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.
 

Correio da Bahia