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Arte e Cultura
Sexta, 11 de junho de 2004, 13h09 
Dublin comemora os 100 anos de Bloomsday
 
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No verão de 1924, o escritor irlandês James Joyce, sentado sozinho em Paris, anotou em seu caderno, em tom sombrio: "Hoje, 16 de junho 1924, 20 anos depois. Será que alguém vai se lembrar desta data?".

Dois anos tinham se passado desde que Joyce publicara seu romance épico Ulysses, e as coisas não iam bem para ele.

Apesar de ter atraído um núcleo pequeno de admiradores fiéis, o livro tinha sido criticado pelos irlandeses como imoral e anticristão, proibido na Grã-Bretanha e queimado pelos censores americanos em vista de sua "indecência".

Joyce tinha a impressão de que o 16 de junho de 1904, o dia em que a ação do livro se desenrola, estava passando desapercebido. Mas ele não precisaria ter se preocupado.

Na próxima semana, Dublin e o mundo vão comemorar o centésimo aniversário do dia hoje conhecido universalmente como "Bloomsday", em honra ao personagem central de Ulysses, Leopold Bloom.

Milhares de "joyceanos" - acadêmicos, escritores e turistas - vão invadir a cidade natal do escritor para prestar homenagem a um livro visto por muitos como o romance mais importante escrito na língua inglesa e um dos marcos da literatura ocidental.

Cerca de 10 mil pessoas vão tomar o café da manhã ao ar livre em uma das ruas principais de Dublin para lembrar o rim de porco, frito em "molho de manteiga crepitante" e salpicado com pimenta, que Bloom prepara para si perto do início do livro.

Dezenas de ciclistas usando roupas da época eduardiana vão percorrer o caminho seguido pelos personagens fictícios de Joyce, e 800 acadêmicos participarão de um simpósio de uma semana sobre todos os aspectos imagináveis da obra do escritor.

Bloomsbury 100 será uma das maiores festas literárias já promovidas na Irlanda e terá versões em 80 outros países, incluindo Itália, Suíça e França, os três países em que James Joyce passou a maior parte de sua vida adulta.

A semana terminará com um "Baile Bloomsday" em um hotel elegante de Dublin, para o qual os ingressos custarão 250 euros (US$ 300) por pessoa.

Livro Alcança Status Cult
Ulysses já deixou para trás há muito tempo sua reputação inicial de "livro que se pode ler em todas as paredes de banheiros de Dublin" e é visto como um dos livros mais criativos já escritos, embora, também, um dos mais difíceis de ler.

Mas o que o livro tem que leva homens e mulheres adultos a percorrer as ruas de Dublin, em junho de cada ano, lembrando as vidas de pessoas que nunca existiram e fatos que nunca aconteceram?

"O apelo do livro está em seus temas universais: nascimento, morte, amor, casamento, angústia existencial, tudo o que é humano", disse Laura Weldon, estudiosa de Joyce e coordenadora das comemorações da próxima semana.

Joyce também ajudou a alimentar sua reputação. "Incluí em "Ulysses" tantos enigmas e charadas que os acadêmicos passarão séculos discutindo o que eu quis dizer", ele escreveu certa vez. "É a única maneira de assegurar a imortalidade."

Mas Ulysses é mais que uma brincadeira inteligente. É, sobretudo, um tributo grandioso à bondade e ao calor humano, personificados no herói do livro, Bloom.

James Joyce encerrou o livro com a palavra que descreveu como sendo a mais afirmativa da língua inglesa, "sim", e o ambientou em 16 de junho de 1904 porque foi nesse dia que ele primeiro cortejou a mulher que acabaria se tornando sua esposa.

A ironia da festa programada para a próxima semana é que Joyce odiava sua cidade natal tanto quanto a amava. Ele deixou Dublin em 1904 e retornou a ela poucas vezes até sua morte, em 1941.

Certa vez, escreveu que Dublin "é uma paralisia que muitos consideram ser uma cidade" e que os dublinenses são "a raça de charlatães mais inveterados, inúteis e inconstantes que já conheci". Mesmo assim, continuou obcecado com a cidade.

Indagado, perto do fim de sua vida, se cogitaria em voltar à Irlanda algum dia, Joyce parou para pensar. "Alguma vez a deixei?", respondeu.
 

Reuters

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