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Os três filhos sobreviventes do reverendo Martin Luther King Jr. já se envolveram em disputas no passado. Desta vez, as disputas giram em torno do legado e do espólio não de seu pai, mas de sua mãe.
No terceiro processo judicial envolvendo membros da família King em quatro meses, dois dos filhos de King se recusam a fornecer à biógrafa de sua mãe, Coretta Scott King, que morreu em 2006, uma coleção de fotos, cartas e documentos pessoais da viúva do líder dos direitos civis. O irmão deles, Dexter King, que é curador do espólio do pai, solicitou que um juiz os force a entregar o material.
O que está em jogo é um contrato de US$ 1,4 milhão para um livro, com o Penguin Group ¿bem como a reputação de uma das mais famosas famílias dos Estados Unidos.
A Penguin diz que pretende cancelar o contrato e solicitar a restituição de um adiantamento de US$ 300 mil caso a família King não entregue os papéis à biógrafa, Barbara Reynolds, até a sexta-feira.
Os dois filhos que se opõem ao livro, Bernice King e Martin Luther King III, dizem que sua mãe não queria que Reynolds escrevesse sua biografia. Dexter King, que orquestrou o acordo, diz que seus irmãos e mãe entregaram ao espólio de seu pai o controle de sua propriedade intelectual.
Um juiz convocou os King a depor perante um tribunal de Atlanta na terça-feira para resolver a disputa. "É triste e patético ver os três se comportando dessa maneira autodestrutiva", disse David Garrow, premiado com o Pulitzer por sua biografia de Martin Luther King.
"Infelizmente, todos os filhos parecem considerar o legado de seu pai como antes de tudo uma oportunidade de maximização de riqueza para todos eles".
Os advogados de ambas as partes extraem conclusões semelhantes, embora evidentemente atribuam a culpa à parte oponente. "Bernice e Martin parecem dispostos a destruir o legado do reverendo King para reforçar o seu", disse L. Lin Wood, advogado da King Inc., a corporação que administra os direitos das obras do reverendo.
"Eles estão envolvidos em comportamento que se pode descrever sem injustiça como autodestrutivo. Estão praticando uma política de terra arrasada. E infelizmente macularam o legado de King".
Jock Smith, o advogado de Bernice e Martin, disse que "a filosofia de Martin Luther King se baseava na inclusão de todos os filhos de Deus. Que Dexter não permita que Bernice e Martin desfrutem de direitos iguais no comando corporação que evangeliza de acordo com os preceitos de seu pai contraria a filosofia que ele defendia".
Reynolds, 66 anos, jornalista, pregadora e amiga de longa data da família King, disse que ela pode abandonar o projeto do livro, agora. "Existe um provérbio africano segundo o qual, quando elefantes brigam, a grama sai pisoteada", ela afirmou. "Estamos vendo irmãos lutando por controle de um patrimônio. Eu sou só uma escritora apanhada no meio desse confronto".
Uma série de processos e contraprocessos judiciais envolvendo membros da família começou em julho, quando Bernice e Martin processaram Dexter, alegando que ele estava administrando mal o espólio de seu pai e que havia removido indevidamente fundos do espólio de sua mãe.
Ele rebateu com outro processo no qual alega que seus irmãos haviam ocupado indevidamente escritórios e usado carros do King Center, um museu dos direitos civis em Atlanta. Ele também acusa Bernice de ter maculado o legado do pai ao presidir a um comício de oposição ao casamento gay, no museu.
Todos os três filhos de King encaminharam todas as questões sobre o caso aos seus advogados. O foco da mais recente disputa é um acordo de 1995, assinado pelos três e por sua mãe, que transfere o controle da propriedade intelectual da família à King Inc.
Advogados da corporação afirmam que o acordo impede que Bernice, executora do espólio de Coretta, tome posse dos documentos pessoais da mãe.
Mas Smith afirma que Dexter King violou o acordo ao receber US$ 200 mil por um livro de memórias publicado em 2003.
"Ele não pode ser dúplice", disse Smith. "Nossa posição é de que propriedades pessoais de qualquer dos três irmãos não são propriedade da corporação".
Ele também afirma que Dexter descumpriu seus deveres como presidente do conselho da corporação ao não convocar reuniões com seus irmãos há muitos anos.
Os papéis pessoais de Coretta Scott King foram descobertos em sua casa em 2006 por Yolanda King, sua filha mais velha, que morreu no ano passado. Incluem "cartas íntimas do casal King e documentos sobre o movimento dos direitos civis", de acordo com uma das petições do processo.
Reynolds está trabalhando há anos no livro, que combina entrevistas com Coretta e os textos que esta escreveu, criando uma autobiografia narrada com as palavras do personagem tema. As duas se conheceram em 1972, quando Reynolds era repórter do Chicago Tribune, e mantiveram contato até a morte de Coretta.
Reynolds escreveu cinco livros, entre os quais uma biografia do reverendo Jesse Jackson, e diz que Coretta lhe pediu pessoalmente que escrevesse sua nova biografia, que viria se somar a My Life With Martin Luther King Jr., que publicou em 1969.
Mas Smith, o advogado de Bernice e Martin, diz que a mãe deles desaprovava o estilo literário de Reynolds e mais tarde mudou de idéia sobre o livro.
"Embora seja verdade que nossa mãe um dia colaborou com Barbara Reynolds para seu segundo livro, a realidade é que o trabalho não foi concluído porque nossa mãe cortou o relacionamento muito antes de morrer", os dois afirmam em comunicado.
"Como guardiões de seu legado, nossa responsabilidade é garantir que os desejos dela sejam executados e que sua voz jamais silencie, especialmente no que tange à jornada de sua vida".
Reynolds afirma que a disputa a abalou. "A Sra. King era minha mentora", disse. "Eu só queria perpetuar seu legado".
Tradução: Paulo Migliacci ME
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