|
O escritor português José Saramago está orgulhoso de sua última obra, A viagem do elefante, que o autor considera um texto cheio de vida apesar de ter sido escrito à beira da morte e que será apresentado na próxima semana em São Paulo. "É um livro no qual não se notam nem os 86 anos nem a doença que tive que suportar", diz Saramago em entrevista à Agência Efe na qual confessa que, apenas por esta circunstância, a obra já tem um caráter especial para ele. "Disseram que é um livro iluminado. É um livro que não tem nada de triste, mas que poderia ter", afirma Saramago, para quem sua mais recente produção é "cheia de humor" e não reflete nada do que pôde pensar, sentir e imaginar quando, há um ano, uma pneumonia o obrigou a ser internado em estado grave. Terminar a obra foi uma "grande vitória" tanto pelo fato de se recuperar quanto "por dizer a si mesmo que a capacidade criativa não se esgotou", admite Saramago. A viagem do elefante é lançada quando o escritor português acaba de completar 86 anos e dez do Prêmio Nobel de Literatura, duas "coincidências" que o obrigam a romper a vida tranqüila que gosta de levar em Lisboa e na ilha espanhola de Lanzarote. O novo livro "surge do nada e, não fosse por ter estado em Salzburgo (Áustria), porque uma professora de português da universidade convocou um jantar no restaurante Elefant e não houvesse pequenas figuras que descreviam a viagem, sem tudo isto o livro não estaria aqui", declarou o autor. A história da viagem de Lisboa a Viena do paquiderme, dado no século XVI pelo rei de Portugal ao arquiduque da Áustria, inclui várias parábolas sobre a condição humana, e Saramago acredita que também marca uma etapa em seu próprio périplo literário, que considera ter "começado tarde". No relato - um conto grande e não um romance para o autor - a nobreza, os militares e a Igreja não são bem retratados, e Saramago assegura que sua crítica "não é feita de forma gratuita, mas porque é necessário desmistificar instituições, ou o que for, que são apresentados a nós como algo sem o qual poderíamos viver".
|