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Arte e Cultura
Quinta, 8 de julho de 2004, 09h12 
Vilma Guimarães Rosa emociona na abertura da Flip
 
Walter Craveiro/Flip/Divulgação
Vilma Guimarães Rosa na abertura da Festa Literária de Parati
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A abertura da Festa Literária de Parati emocionou os presentes na tarde de quarta-feira. A escritora Vilma Guimarães Rosa relembrou passagens fundamentais da carreira literária e revelou detalhes da vida em família com seu pai. João Guimarães Rosa (1908-1967), escritor homenageado desta edição da Flip. Reunidos na Tenda dos Autores, autoridades e um grande número de apaixonados por literatura acompanharam a conferência da escritora, segundo informou a assessoria do evento.

Especial sobre a Flip

Vilma recuperou histórias da infância de Guimarães Rosa, vivida na pequena Cordisburgo, interior de Minas Gerais. A cidade era lugar de passagem de tropas de vaqueiros e gado, tão presentes em seus contos mais famosos, como os reunidos em Sagarana. Cordisburgo promoveu ainda, relatou Vilma, o contato entre o escritor e a natureza, plantas e bichos do campo. Os "causos" da gente simples, dos vaqueiros, serviriam também de matéria-prima.

A filha repassou detalhes das carreiras profissionais do pai. Depois do aprendizado de diversos idiomas, da escolha da faculdade de medicina e o exercício da profissão na pequena Itaguara, veio a grande guinada: a carreira diplomática. Pelo Itamaraty, Rosa serviu na Alemanha nazista do período da Segunda Guerra Mundial. Mas Vilma reservou uma revelação sobre o tema, contada a ela diretamente pelo pai: Guimarães Rosa foi responsável por fazer circular entre as embaixadas brasileiras na Europa mensagens secretas do governo brasileiro. Era uma tarefa arriscada àquela altura.

A dimensão mística, que Rosa tanto cultivou (ele previu a própria morte), teve início também durante a estada na Alemanha. Temendo pela vida durante os bombardeios, Rosa procurou abrigo nas orações e sentiu-se confortado por Deus. Até o fim da vida, ele estudaria e cultivaria a espiritualidade e o ocultismo. "E isso também está intensamente presente em sua obra", disse Vilma.

As palavras mais emocionadas, porém, vieram quando Vilma tratou do Guimarães Rosa escritor como pai. Tocada pelas lembranças do pai, Vilma arriscou uma síntese da personalidade que poucos conheceram e que é cultuada hoje por amantes da literatura em todo o mundo, afinal, Rosa está traduzido para diversos idiomas. "Era um homem firme, mas que jamais perdia a delicadeza", disse. Em situações de aparente conflito, aconselhava: "Minha filha, somos Rosa, mas às vezes temos de ser violeta, delicados."

Quando a filha ensaiava os primeiros passos na literatura, concretizados com a estréia em 1967, orientou: "Se você gostar de tudo o que escreve, desconfie; se quiser destruir tudo, você estará perto da perfeição." O conselho - vindo do mestre - serve ainda hoje para os novatos. Sobre mestres, aliás, Rosa costumava dizer: "Mestre é aquele que, de repente, também aprende."

Saudando a abertura da FLIP, o prefeito de Parati, José Cláudio de Araújo, apontou a importância da festa para a literatura, para a vida e economia da cidade e a permanência de Guimarães Rosa nas artes. "Ele levou o nome do Brasil e nossas histórias para o mundo e não morre." Afinal, como o próprio Rosa disse certa vez: as pessoas não morrem, ficam encantadas.
 

Redação Terra