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Arte e Cultura
Quinta, 8 de julho de 2004, 14h15 
Guimarães Rosa une Minas Gerais a Parati na FLIP
 
Walter Craveiro/Flip/Divulgação
Caetano Veloso fez uma participação rápida no show em homenagem a Guimarães Rosa
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O sertão ficou mais próximo do mar na quarta-feira, dia em que as Minas Gerais se uniram em música, verso e prosa ao Rio de Janeiro no show-homenagem ao escritor João Guimarães Rosa. O espetáculo deu início à 2ª Festa Literária Internacional de Parati, que acontecerá até domingo.

Especial sobre a FLIP

Mais de 1.000 pessoas compareceram à praça da Matriz, no centro histórico da cidade, para assistir à festa e ver o cantor Caetano Veloso, que fez uma apresentação-relâmpago de apenas duas músicas.

"Eu vim aqui para ver uma palhinha dessas, mas achei que ele ia cantar mais", disse a microempresária paratiense Fátima Santos, com um tom de decepção na voz, após o cantor encerrar a noite com a leitura de uma carta de Manuel Bandeira a Rosa, com comentários sobre a obra Grande Sertão: Veredas, seguido da canção A Terceira Margem do Rio.

Ele saiu rapidamente do palco, para decepção do público, que já tinha conferido o show da cantora Mônica Salmaso e do grupo Uatki. Ao final da apresentação, depois de manifestações ruidosas por um bis, os artistas voltaram ao palco para Caetano entoar Cajuína.

Durante todo o espetáculo, as músicas foram pontuadas por intervenções dos músicos Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, que leram trechos da obra de Guimarães Rosa para a platéia, trazendo os personagens do sertão das Minas Gerais que povoam os livros do autor, como o menino míope Miguilin e "a" jagunço Diadorim.

O mestre de cerimônias, o músico e professor de literatura José Miguel Wisnik, foi o responsável pelo clima "papo cabeça" que imperou na amarração da leitura de trechos dos livros com as músicas da MPB.

"Para um festival de literatura, teve texto no ponto certo. O legal é que mesclaram com muita música", disse o administrador de empresas Eloy Azzali, que está de férias na cidade.

A paratiense Fátima elogiou a organização do festival, melhor e mais estruturada que na primeira edição, mas preferiu o show do ano passado, que relembrou Vinicius de Moraes e teve show de Gilberto Gil. "Foi mais agitado", disse.

Com cabelos soltos, vestido vermelho e gestos contidos, Mônica Salmaso interpretou canções como Correnteza, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, e Assentamento, de Chico Buarque.

Na letra dessa última, apareceram os neologismos de Rosa: "Zanza daqui/Zanza pra acolá/ Fim de feira, periferia afora/ A cidade não mora mais em mim/ Francisco, Serafim/ Vamos Embora/ Embora/ Ver capim, ver o baobá/ Vamos ver campina quando flora/ A piracema, rios contravim/ Binho, Bel, Bia, Quim Vamos embora."

Na mesma tenda onde aconteceu o show-homenagem, fãs de literatura menos afoitos poderão conferir, por meio de telões, palestras de escritores como Paul Auster, conhecido do público pelo roteiro de filmes como Cortina de Fumaça, e Ian McEwan, ganhador do Booker Prize, principal prêmio literário do Reino Unido.

Os 500 fãs dedicados compraram ingressos para se acomodar na Tenda dos Autores, mais perto de seus escritores favoritos, pagando R$ 15 por cada das 19 mesas literárias, das quais participarão 36 palestrantes, entre eles Chico Buarque, Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Veríssimo.

A primeira conferência da quarta-feira aconteceu horas mais cedo, durante a tarde, quando a filha de Guimarães Rosa, a escritora Vilma Guimarães Rosa, contou reminiscências da vida com o pai médico, diplomata e escritor, que viveu entre 1908 e 1967. Em seguida, foi a vez do crítico literário e professor da USP Davi Arriguci Jr. falar sobre a obra do autor.

Entre as atividades desta quinta-feira estão as mesas "A lírica exata: três vozes", com Arnaldo Antunes, Antonio Cícero e Francisco Alvim, e "África e Brasil: verdades tropicais", com Caetano Veloso e o angolano José Eduardo Agualusa. Cerca de 10 mil visitantes são aguardados para acompanhar o festival e os ingressos para as palestras mais concorridas já se esgotaram.
 

Redação Terra