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O norte-americano Jeffrey Eugenides ficou conhecido do grande público quando seu primeiro romance, As Virgens Suicidas, ganhou as telas do cinema pelas mãos de Sofia Coppola. Nove anos se passaram até o lançamento de seu segundo livro, Middlesex, baseado em um personagem hermafrodita.
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Durante o período de criação, Eugenides ganhou uma bolsa do governo alemão e foi viver com a mulher e a filha, que hoje tem 5 anos, em Berlim. O esforço valeu a pena: ele venceu o prêmio Pulitzer de melhor obra de ficção em 2003. A Rocco acaba de lançar a edição brasileira durante a 2a Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro.
A trama de 586 páginas retrata a saga de uma família que atravessa cem anos da história dos Estados Unidos fazendo sexo entre si, com direito a várias procriações que culminam com o nascimento do narrador da história. Ele é um hermafrodita que certo dia se descobre homem, após ter passado grande parte da vida pensando ser mulher.
A história se passa em Detroit, cidade natal do escritor de origem grega, inglesa e irlandesa, que nasceu em 1960. Foi no cenário de sua infância que ele encontrou os elementos para compor a narrativa, onde há espaço para os avós que imigraram da Grécia, a vizinhança onde cresceu e uma descrição física do personagem que muitos identificam como sendo similar à sua.
"Quando parei de refletir sobre mim mesmo e comecei a descobrir o entorno é que comecei a escrever", disse o escritor a jornalistas nesta quinta-feira, após ler um trecho do romance durante uma mesa literária com o inglês Jonathan Coe.
Em comum, ambos buscam inspiração na adolescência vivida nos anos 1970, em seus respectivos países.
"Dizem que todos os escritores devem ter tido uma infância triste para escrever, mas esse não foi o nosso caso", disse Eugenides, sobre outra coincidência entre ambos, revelada na palestra para cerca de 500 pessoas em Parati.
Além de olhar para seu próprio passado, o escritor teve de recorrer a longas pesquisas sobre hermafroditismo e genética para escrever Middlesex, livro que define como uma "solitária viagem de montanha-russa de um gene através dos tempos".
"Foi quase como voltar para a faculdade e fazer outra carreira, eu tinha de ir à biblioteca frequentemente", afirmou.
No caso de Virgens Suicidas, a idéia surgiu de um incidente quase banal: uma baby sitter de 15 anos que trabalhava para sua irmã contou-lhe que ela e suas irmãs estavam cogitando se suicidar. As razões ou o que aconteceu depois ele nunca soube, mas esse fato ficou marcado em sua memória.
"Aí imaginei alguns garotos ficando completamente obcecados pelas meninas. A partir dessas duas idéias surgiu o romance", contou.
Sua própria história de vida também requereu pesquisa de campo, já que ele tem dois irmãos mais velhos. Na adolescência, relatou, ir à casa de uma família onde só houvesse filhas mulheres era "como ir a um safári".
"Eu prestava muita atenção nas garotas, nos batons, nas colchas, em tudo. Depois, como na minha geração nos casamos tarde, tive a oportunidade de me relacionar com várias mulheres, de desfrutar uma 'monogamia seriada' ('a serial monogamy')", afirmou, arrancando risadas da platéia.
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