| Walter Craveiro/Flip/Divulgação |
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| O professor Davi Arrigucci Jr. palestra na Festa Literária de Parati |
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Abusando da capacidade de ser claro e de sua espantosa erudição, o professor aposentado de Teoria Literária da USP, Davi Arrigucci Jr., manteve uma platéia de 500 pessoas absolutamente envolvida por sua exposição, marcada pela oralidade e por uma excepcional capacidade de articulação de idéias.
Especial sobre a FLIP
A partir de noções de Aristóteles, Walter Benjamin e de uma introdução ao enredo do livro, Arrigucci Jr. procurou explicar por que Grande Sertão: Veredas se inscreve entre os maiores romances da literatura universal. Em sua opinião, trata-se de um livro "com vocação à totalidade", uma espécie de súmula da experiência humana. Nele, haveria uma profunda unidade poética caracterizada pela constante mistura de temas e gêneros. "Tudo isso aparece num 'todo muito entrançado'", explicou o professor, aludindo a uma frase do romance.
Para desdobrar seu argumento, Arrigucci Jr. leu o primeiro parágrafo do livro, que abre pela célebre expressão "- Nonada." A figuração do demônio, que nas primeiras linhas se mostra encarnado num animal híbrido, serviu de mote para a exemplificação das diversas passagens em que essa mistura se faz notar. No título, por exemplo, o termo "sertão", vasto, se une a "vereda", que implica delimitação de espaço. Outro exemplo: o encontro entre Riobaldo e Diadorim, passagem decisiva do romance, que se dá no entroncamento do De Janeiro, rio de pequeno porte, e o caudaloso São Francisco. "Esse encontro individualiza o Riobaldo. A partir daí, ele tem uma biografia", frisou Arrrigucci Jr. "O masculino e o feminino, o bem e o mal, a sensualidade, o medo e a coragem, tudo isso se presentifica na vida dele a partir dali".
Apesar da descida vertical que empreendeu em sua análise, o professor não abriu mão de explicar em linhas gerais os pontos decisivos do enredo. Frisou que se trata da narração ininterrupta de um ex- jagunço, agora proprietário de terras, a um visitante "letrado" que não tem voz em momento algum do livro. Enfatizou a paixão homossexual que se estabelece entre ele e Diadorim, filho do jagunço Joca Ramiro. Destacou que a passagem da morte de Diadorim, em duelo com Hermógenes, lhe parece uma das mais pungentes da literatura brasileira (sem deixar de lembrar que é a essa altura que se revela a identidade feminina do personagem). E reconheceu a dificuldade que, a princípio, o livro impõe aos que nele se aventuram. "Não é fácil ultrapassar as trinta primeiras páginas. Mas quem consegue fazê-lo logo percebe que se trata de um romance extraordinário, de paixão, amor, morte e guerras."
Outro ponto crucial de sua exposição foi a tentativa de situar o romance em relação à tradição da narrativa oral. Valendo-se da concepção que Walter Benjamin apresenta para o problema (especialmente no texto O narrador, do qual Arrigucci é um dos principais exegetas no Brasil), o professor insere o livro na tradição do romance, gênero do qual seria representante por excelência. "O texto narra a educação sentimental de um jagunço. Tenta entender o significado de sua vida. E esse ponto, o do destino individual, é próprio do romancista, e não da sabedoria coletiva."
Em contraposição ao que normalmente se afirma, Arrigucci Jr. lembrou ainda que são poucos os neologismos do livro. Em sua maior parte, os termos responsáveis pelo estranhamento exercido por sua linguagem estão presentes no vernáculo, seja como arcaísmos, seja como estrangeirismos. E, também na contramão, destacou a inutilidade de se compará-lo ao Ulisses, de Joyce. "O projeto de escrita de Guimarães Rosa não é joyceano", lembrou.
Conhecedores de Joyce ou não, leitores ou não de Guimarães, os espectadores aplaudiram a palestra com a intensidade com que se saúda um artista no palco. A escolha de Rosa como homenageado da 2a FLIP estava mais que justificada.
As informações são da assessoria de imprensa da Festa Literária de Parati.
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