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Arte e Cultura
Sexta, 9 de julho de 2004, 11h07 
Jeffrey Eugenides e Jonathan Coe palestram na Flip
 
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Jeffrey Eugenides é americano, autor de Virgens Suicidas, levado às telas por Sofia Coppola, e mora em Berlim. Jonathan Coe é inglês, autor de Bem-vindo ao Clube e apaixonado por cinema. Nada poderia, portanto, adiantar a afinidade revelada entre os dois na conferência na Tenda dos Autores da Flip, acompanhada, ainda, por Luis Fernando Verissimo. Trocando figurinhas sobre as relações entre experiência pessoal e criação literária, a dupla conseguiu iluminar um pouco a questão e também divertir o público. "Como Jonathan, eu também tive uma infância feliz", iniciou Eugenides. "E não se espera que um escritor tenha uma infância feliz. Por isso, eles escrevem livros", disse, arrancando gargalhadas. "Então, por ter tido uma infância feliz, tive de escrever", provocando mais risos.

Especial sobre a FLIP

A obra de cada um dos autores parece não ter relações diretas com a do outro. Em livros anteriores, como O legado da família Winshaw, Coe construiu um cenário ácido para desbancar o sucesso atribuído ao governo conservador de Margaret Tatcher na onda de liberalização dos anos 70 e 80. Eugenides já é visto como um navegador de tramas íntimas. Mas descobriram-se pontos de contato.

Mediador do encontro, o jornalista Sérgio Rodrigues apontou a coincidência de idades: ambos nasceram no início dos anos de 1960 e cresceram nos loucos anos 70 e na contra-reforma dos 80. O primeiro período, aliás, é palco dos livros dos dois. "Estou interessado em iluminar aquele período de minha vida", contou Coe. Além disso, Virgens Suicidas, de Eugenides, não se restringe à tragédia das irmãs que se matam. Por trás, há o triste mundo dos ex-funcionários da indústria automobilística. O desemprego leva à desestruturação de famílias como a delas.

Em seus novos trabalhos, lidos na conferência, os autores voltaram à carga. Middlesex, de Eugenides trata de um hermafrodita empregado em uma montadora americana na primeira metada do século 20. A leitura do autor mostra que o personagem se desumaniza no lugar, ao mesmo tempo em que realiza uma mudança de sexo. O mediador, então, questionou: primeiro virgens, agora um hermafrodita - "por que o interesse pelo bizarro?" Eugenides rejeitou: "Não tenho interesse pelo bizarro, mas pela transformação das pessoas. E o sexo pode ser uma chave poderosa para revelar isso."

Eugenides bem que tentou, mas não conseguiu escapar de um tema: a qualidade da adaptação de seu Virgens suicidas para o cinema. A pergunta veio do público. "Então respondo", brincou. Antes, ele explicou a dificuldade em ver sua obra a partir do ponto de vista de outra pessoa - Sofia Coppola, no caso. "É muito difícil, porque as situações e personagens me são tão familiares... como vê-las agora como estranhos?" Para quebrar o gelo, Sofia convidou o americano para uma sessão privada - que ele diz ter sido algo como uma "pancada". Já na première, Eugenides começou a se acostumar com a idéia, ainda com restrições. "Finalmente, uma noite estava em Berlim, de madrugada, com pouca bebida em casa. A programação da TV acabou e...", provocando o humor da platéia, "...achei-o maravilhoso!"

Deliciando-se com os comentários do colega, Coe falou de seu mais recente livro, The Closed Circle, ainda inédito no Brasil, em que ele volta a mergulhar seus personagens na política. Desta vez, ele coloca suas criaturas nos problemas dos dias de hoje - a era Tony Blair. Tanto assim que o desfecho do livro se dá quando a primeira bala de canhão é disparada pelo Exército americano avisando a invasão do Iraque, em 2003. "O que me interessa é abordar as relações entre os indivíduos e a sociedade: como os problemas como a política interferem na vida pessoal de cada um e quais as soluções que cada um dá para isso."

As informações são da assessoria de imprensa da Festa Lietrária de Parati.
 

Redação Terra