| Walter Craveiro/Flip/Divulgação |
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| Caetano Veloso se desmanchou em elogios ao escritor angolano José Eduardo Agualusa |
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Caetano Veloso se desmanchou em elogios ao escritor angolano José Eduardo Agualusa durante encontro com o público, na quinta-feira, na 2ª Festa Literária Internacional de Parati, litoral do Rio de Janeiro.
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A mesa, mediada pelo cineasta Cacá Diegues, tinha como nome "África e Brasil: verdades tropicais", alusão a Verdade Tropical, livro publicado por Caetano em 1997.
Depois de defender exaustivamente que o Brasil "tem a oportunidade e a responsabilidade de resolver a África negra e os negros da diáspora", o músico brasileiro se viu em uma saia justa quando perguntado sobre o que achava das cotas raciais, sistema em estudo que reserva vagas para negros em instituições públicas de ensino.
"Alguma coisa tem que ser feita. Por um lado não posso ser contra, mas o Brasil é tão complicado", disse Caetano. "Em princípio você já está concordando com a idéia de raça, o que é uma estupidez."
"A injustiça com a população descendente de escravos se perpetua na sociedade muito suspeitamente", continuou o músico e compositor. "Acho que tem de se acompanhar caso a caso, dentro das instituições."
O escritor angolano, que respondeu à pergunta antes, foi mais incisivo: "É um sistema injusto, não sou a favor ... Você não consegue legislar sobre raça, já está mais do que comprovado."
Agualusa, que não vive mais em Angola e escreveu alguns livros em Berlim, citou diversos casos, nunca sem perder o bom humor, sobre a confusão que presenciou de pessoas tentando definir suas raças e causando polêmica.
Também perguntaram a Caetano como o preconceito racial poderia ser extinto, ao que o músico respondeu: "Tempo, a gente precisa de tempo para digerir a questão. O organismo social brasileiro vai ter de ir metabolizando isso bem."
"E olha que estou sendo otimista. Às vezes acho que não vai dar nada certo", disse Caetano, que disse ter ficado deprimido depois de visitar alguns países da África pela primeira vez.
Nesse momento, Agualusa demonstrou confiança no governo Lula e no ministro Gilberto Gil. "Creio que eles têm a noção de que essa guerra precisa ser resolvida. Os africanos precisam ser resgatados."
No início do encontro, Agualusa, que tem tios e avós cariocas, leu um trecho de seu novo livro, O Vendedor de Passados, e escutou em silêncio as impressões de Caetano sobre seu romance "O ano em que Zumbi tomou o Rio" (2002), onde faz diversas referências à cultura popular e erudita brasileira. Ele também publicou Nação Crioula (1998) e Estação das Chuvas (1997).
"É um livro dolorosamente atual. São referências tão recentes e tão vivas de acontecimentos. Parece que foi escrito aqui, neste ano", disse Caetano.
A trama do romance, escrito quando o autor morava em Berlim, leva às últimas consequências a hipótese de que haveria nas favelas do Rio imigrantes angolanos infiltrados, radicalizando a luta armada entre traficantes e polícia.
Para o brasileiro, o livro faz a seguinte pergunta aos negros que moram no Brasil: "Este país foi descolonizado? Nós consideramos que sim, mas não deveríamos!"
Sobre a relação entre os dois países, o autor angolano disse que a música brasileira nunca deixou de entrar no país, mesmo quando, na década de 1950, cessou a enxurrada de literatura e outras influências constantes desde o século 19.
"Todos os músicos que vão tocar lá são brasileiros. Não têm praticamente outros da América Latina. É o que o público quer ver", contou Agualusa.
Sobre literatura, o escritor, que participa do júri do Prêmio Saramago para jovens autores em língua portuguesa, comentou que os africanos têm em comum com os brasileiros o otimismo, apesar dos paulistas demonstrarem um pessimismo muito parecido com o dos romances sombrios dos jovens portugueses.
"Mesmo passando o maior sufoco, o africano ainda consegue contar uma piada ... A África salvou o Brasil de Portugal e agora está salvando Portugal da melancolia", disse Agualusa.
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