|
O escritor Milton Hatoum foi parar na sala de aula na 2a edição da Festa Literária de Parati (Flip), no litoral sul do Rio de Janeiro, onde falou sobre a escrita da ficção a um grupo de cerca de 50 autores iniciantes.
Especial sobre a Flip
Até sábado, o autor de Relato de Um Certo Oriente e Dois Irmãos - ambos ganhadores do prêmio Jabuti - terá três encontros com os "estudantes", selecionados de vários lugares do país para assistir à oficina "Veredas da Literatura".
Durante o primeiro encontro, na quinta-feira, Hatoum foi logo avisando os pupilos que a tarefa de escrever não é um simples ato de iluminação criativa.
"O romance exige sobretudo trabalho", afirmou, citando William Faulkner, o primeiro de vários autores que usou para pontuar sua aula sobre gêneros literários. "A inspiração conta muito pouco na confecção de um romance".
A lição de casa era ter lido contos de autores previamente encaminhada por Hatoum. Nela, havia autores como Joseph Conrad, João Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Henry James e outros.
Para falar sobre o conto, ele recorreu a Julio Cortázar, para quem uma boa peça do gênero deve ter três elementos: tensão, intensidade e significação. Ou, como dizia o uruguaio Horácio Quiroga, cada conto é um andaime, e o romance é um edifício.
"O conto exige um único clímax, enquanto no romance há pontos de tensão que vão revelando a narrativa", contou Hatoum.
No meio do caminho, indicou o autor-professor, fica a novela. "Poucos autores se debruçaram sobre esse gênero que é dificílimo", afirmou, acrescentando que a novela não exige muitas digressões como o romance, mas demanda uma evolução da história que culmina com uma surpresa, mudando o enfoque da narrativa.
Como exemplos, ele citou Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e A Volta do Parafuso, de Henry James, onde uma governanta se depara com eventos sobrenaturais ao aceitar um novo emprego.
Hatoum destacou que, para que uma obra de ficção funcione, é interessante que se situe entre a realidade e a ficção "no terreno movediço entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido".
Depois de assistir às três aulas na Casa da Cultura de Parati - onde ocorreram os encontros com os autores na primeira edição do Flip, no ano passado -- os alunos terão que escrever uma peça literária até 11 de agosto uma com tema e tamanho determinado por Hatoum.
Um júri composto pela ensaísta Maria Esther Maciel, o escritor Sergio Sant'Anna e o crítico literário Manuel da Costa Pinto escolherá duas delas, que darão a cada um de seus autores uma bolsa de R$ 12 mil reais, a ser financiada por uma operadora de telefonia e paga em oito prestações.
O objetivo é que os ganhadores terminem o seu primeiro livro no final do período e tenham o volume publicado.
|