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Arte e Cultura
Sábado, 4 de julho de 2009, 22h55 
Flip: novo jornalismo de Gay Talese ganha destaque
 
Isaac Ismar
Direto de Paraty
 
Isaac Ismar/Especial para Terra
Gay Talese participa da Flip
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Ao invés de entrevistas com os grandes astros, um bate-papo com seu mordomo, motorista, cozinheira... Essa é uma das sugestões de Gay Talese para os futuros jornalistas. Nascido em Nova Jersey, nos Estados Unidos, o senhor alto, de 77 anos de idade, vestido com terno e gravata e chapéu panamá na cabeça foi colaborador da revista The New Yorker e publicou livros como O reino e o poder, A mulher do próximo, Fama e anonimato e Vida de escritor. Durante os 75 minutos que falou sobre a sua vida profissional e pessoal na mesa Fama e Anonimato, neste quarto dia da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Gay contou que sempre tentou contar histórias interessantes e verdadeiras aos seus leitores.

A platéia estava repleta de admiradores do talentoso escritor. Assim como na mesa de Chico Buarque, não havia lugares vazios na Tenda dos Autores, local da palestra. Quem ficou do lado de fora precisou se contentar com um telão que exibiu o debate no início da noite de temperatura amena em Paraty, ainda que a chuva vez por outra insistisse em cair. Os ingressos foram os mais concorridos da Flip e se esgotaram há alguns dias.

Outro escritor, Mario Sergio Conti, autor do famoso livro Notícias do Planalto, teve a missão de fazer as perguntas a Gay. A primeira delas abordou um dilema na vida de Gay, já que ele era filho de italianos que eram simpáticos ao ditador Mussolini, mas viviam nos Estados Unidos, rivais da Itália na Segunda Guerra Mundial.

"Meus pais são da parte mais pobre da Itália, a Calábria. Nasci em uma cidade não muito diferente de Paraty, com praias. Meu pai era alfaiate. Eu tinha dez anos quando a guerra se intensificou no sul da Itália. Minha casa era no segundo andar da loja onde meus pais vendiam roupas. Eu ajudava na loja e aproveitava para bisbilhotar as histórias contadas pelas freguesas da minha mãe, que falavam de suas vidas. Tanto o meu pai como a minha mãe eram pessoas completamente diferentes durante a noite. Na loja eram pró-americanos para que os clientes não desconfiassem. Em casa eram totalmente italianos, só falavam em italiano, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial", recordou.

Ainda no início da carreira, com pouco mais de 20 anos de idade, ele reconheceu que muitas matérias, com perfis mais peculiares, não foram publicadas na The New Yorker porque os editores não se importavam com personagens normais. "Eu não queria que minhas matérias estivessem nas manchetes. Preferia escrever sobre pessoas normais. Queria ser um contador de histórias sobre pessoas que ninguém jamais escreveria. Como o tocador de sinos de um ringue de boxe ou a mãe de um pugilista que estava apanhando. Assim comecei no jornalismo", afirmou.

Mergulhar na intimidade dos entrevistados, em alguns casos, de acordo com Gay, foi necessário. Em outros, ele preferiu manter a distância, citando como exemplo o Frank Sinatra, que não quis lhe ceder uma entrevista. "Quando escrevi sobre o Sinatra, conversei com pessoas próximas a ele. E me senti muito confortável. Adorava ficar com elas, mas os astros não gostam de conviver com pessoas com grau de instrução menor que o deles. No caso do Sinatra, ele não queria falar comigo, mas eu também não queria falar com ele. Geralmente as pessoas só falam o que lhes interessam em uma entrevista. O que me interessava era o motorista, o office boy... Eles tinham mais coisas a dizer. Nem sempre o jornalista precisa escrever sobre os personagens principais. Outras pessoas têm algo a mais a contar. Essa curiosidade de ouvir as histórias dos outros começou na loja da minha mãe", garantiu.

De criação católica rígida, Gay frequentava a igreja semanalmente na adolescência, onde foi coroinha. Em uma viagem no tempo, o autor recordou que na década de 1960 a igreja proibia que seus fiéis lessem alguns livros. Alguns anos depois, no entanto, muita coisa havia sido liberada. Em 1971, ao voltar de um jantar com a mulher, ele se deparou com um prostíbulo. A vocação para o jornalismo foi mais forte e decidiu fazer uma reportagem sobre a novidade. "Fiquei fascinado, pois 15 anos antes aquilo era uma coisa proibida. Queria saber como eram os clientes, as mulheres... Quem são essas pessoas? Precisava escrever sobre o pecado e para isso consegui um emprego de cafetão. Tudo resultado da curiosidade. Sempre quis saber a verdade", disse, reconhecendo que experimentou os serviços disponíveis na casa de massagem.

No momento que tinha tudo para ser o mais nervoso do bate-papo, Mario Sergio Conti perguntou a Gay se ele interpretava como sensacionalismo a exposição da vida da sua mulher no livro A mulher do próximo, sendo colocado em um nicho que não era o dele. "Recebi muitas críticas por esse livro, mas sempre tentei contar a verdade. Há outras coisas na vida além do sexo. Parece besteira quando se tem 77 anos, mas já vivi muito e sei o que estou dizendo. Se uma história não for bem escrita, pode ser vergonhoso para o escritor e para os personagens. Quando escrevi A mulher do próximo, humilhei a minha mulher sem querer. Sempre quis escrever de maneira honesta. Eu tinha filhos pequenos na escola que foram vítimas disso. O livro foi condenado pela crítica que me qualificou como degenerado e pervertido", lamentou.

No final, para decepção da platéia, o público que estava na Tenda dos Autores não pôde fazer perguntas a Gay, como aconteceu nos debates anteriores. O mediador justificou o veto: "Tanto o entrevistador como o mediador, são prolixos". Restou a quem havia comprado algum exemplar de Gay Talese buscar um lugar na fila da Tenda dos Autógrafos para garantir a dedicatória do autor.

Jornalistas reverenciam Gay
Muitos jornalistas que não estavam a trabalho aproveitaram a oportunidade de ouvir Gay Talese, durante a sétima edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Alguns compraram exemplares das obras do escritor e buscaram um autógrafo.

"Gostei muito da platéia, principalmente do ensinamento a respeito de reportagens com um olhar diferente do foco que estamos acostumados, para pessoas que não são noticiadas normalmente, mas têm algo a mais a dizer. Estou conhecendo o Gay no curso de jornalismo. Agora vou começar a lê-lo com mais profundidade", contou Danilo Thomaz, 20 anos, estudante de jornalismo em São Paulo.

A jornalista Sandra Alves, de 32 anos, também tirou algumas lições das palavras de Gay. "O new jornalism vive a situação junto com as pessoas, com histórias reais. Para quem gosta de escrever, a palestra acrescentou muito", afirmou Sandra, que levou para casa o livro A mulher do próximo autografado.

A Flip segue para o seu último dia neste domingo. Destaque para a mesa Antologia Pessoal, com Zuenir Ventura.
 

Especial para Terra