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Arte e Cultura
Domingo, 5 de julho de 2009, 21h01  Atualizada às 22h29
Flip termina com homenagens a Manuel Bandeira
 
Isaac Ismar
Direto de Paraty
 
Isaac Ismar/Especial para Terra
Edson Nery e Zuenir Ventura debatem na Flip
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Como não poderia ser diferente, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega ao fim com uma homenagem a Manuel Bandeira, um dos grandes poetas do Brasil. Neste domingo (5), a mesa Antologia Pessoal, na Tenda dos Autores, recebeu duas pessoas que conviveram com o poeta: Zuenir Ventura, ex-aluno do pernambucano na faculdade de filosofia, e o amigo Edson Nery da Fonseca. A mediação ficou com Humberto Werneck.

Paraty, município no litoral sul do Rio de Janeiro, já começa a se despedir da Flip. As ruas de paralelepípedos da cidade histórica não estão tão cheias como nos outros dias e foram lavadas pela chuva que caiu no início da noite. O clima de fim de festa está no ar, tanto que a energia elétrica falhou por breves segundos, mas logo a normalidade voltou a normal com o retorno da luz.

O público que acompanhou o bate-papo entre Zuenir e Edson foi bom, mas a platéia não estava lotada como nas palestras de Chico Buarque, na sexta-feira, e Gay Talese, no sábado (4). No entanto, quem esteve na Tenda dos Autores deixou o local satisfeito. As histórias e casos de Manuel Bandeira narrados tanto por Edson, como por Zuenir encantaram. A despedida foi apoteótica, com empolgados aplausos da platéia de pé.

A memória afetiva a Manuel ganhou destaque. Ambos classificaram o poeta como um homem extremamente inteligente, cumpridor de suas obrigações e de humor muito peculiar, que vez por outra fica explícito em seus poemas. "Ele tinha um excelente humor, embora às vezes fosse uma pessoa implicante, um gozador. Durante uma aula, o Manuel estava lendo um texto com certa dificuldade, quando um aluno brincalhão perguntou se o professor queria ajuda. O Manuel aceitou a colaboração e entregou o texto escrito em grego ao rapaz", relembrou Zuenir.

Profundo conhecedor da obra deixada pelo poeta, o bibliotecário Edson Nery da Fonseca, que conviveu com Manuel no Rio de Janeiro e em Pernambuco, recordou do poema Luz Mediterrânea. "É sobre um amigo dele que namorava uma moça recatada e depois ia satisfazer seus desejos em uma casa de prostituição", divertiu-se Edson, que organizou livro o Poemas Religiosos e Alguns Libertinos, coletânea de poemas de Manuel.

Edson é um senhor, certamente com mais de 70 anos, de cabelos brancos e que caminha com a ajuda de uma bengala. Outra das suas principais características é a memória, capaz de fazer inveja a muitos jovens. Ele declamou vários poemas de Manuel Bandeira, sem a ajuda da leitura, durante o bate-papo, para encantamento do público.

Até a feiúra de Manuel foi citada. De acordo com Zuenir, o seu eterno professor, mesmo dentuço, não se intimidava ao lado das mulheres, inclusive as alunas. "O Manuel era realmente muito feio. Ele mesmo dizia que tinha engolido um piano e esquecido as teclas na boca. Era míope e tinha tosse de ex-tuberculoso, sempre colocava a mão na boca ao tossir para não passar o bacilo da doença. Não era um professor performático. Embora tivesse vários poemas e fosse reconhecido, evitava falar dele mesmo, preferia ensinar a parte técnica. Tinha esse pudor", afirmou.

Logo em seguida, Edson aproveitou o gancho para cantar uma música feita pelas alunas da faculdade de filosofia. "Sendo dentuço, ele aprendeu com a mãe dele, que também era dentuça, que o dentuço deveria sorrir sempre. Pois dentuço sisudo ficaria antipático. As alunas cantavam pra ele: 'Tu me ensinas a fazer verso, eu te ensino a namorar...'".

A tuberculose, doença que quase tirou a vida do poeta quando ele era jovem, também surgiu no bate-papo. Manuel, ainda criança, chegou a ser desenganado pelos médicos e mais tarde buscou ajuda na Suíça. Para lembrar do estigma e preconceito que os tuberculosos enfrentaram durante os anos de 1950 e 1960, Zuenir leu o poema Pneumotórax. "O estigma sobre a tuberculose era muito grande. Não se falava o nome da doença, apenas que 'fulano é HT'. Numa referência ao Hospital de Tuberculose, em Nova Friburgo", contou Zuenir.

À frente do seu tempo, na opinião de Edson, Manuel convivia com os boêmios da Lapa, na região central do Rio, em uma época que havia muito preconceito e não eram tolerados esses tipos de amizades entre os intelectuais e artistas. "Mas ele vivia na Lapa em promiscuidade com os malandros e compositores. Foi até jurado de concurso de miss", contou Zuenir.

Graças ao pedido do mediador, Edson deu mais uma demonstração de sabedoria e lucidez ao declamar Arte de Amar. "Recito a cada mulher que conheço", respondeu Edson a Humberto Werneck, que perguntou se ele conhecia tal poema.

No encerramento as perguntas do público foram substituídas por mais um poema. Desta vez, Evocação ao Recife, para delírio da platéia. "Viva Manuel Bandeira!", finalizou Edson.

Fila de autógrafos
Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca deixaram a Tenda dos Autores e foram levados para a Tenda dos Autógrafos. Lá, receberam o carinho dos admiradores, que levaram seus livros para dedicatórias dos autores. Cyntia Andretta, jornalista, 26 anos, estuda jornalismo literário brasileiro e saiu da palestra satisfeita com as histórias contadas por Zuenir e Edson. "A palestra resgatou o tema Manuel Bandeira na Flip, que não apareceu em outros encontros. Foi muito poética e bonita pelas poesias. Adorei a sintonia deles que chegaram juntos e saíram juntos", contou Cyntia.

A Flip chega ao fim após cinco dias de muita literatura e cultura. Diversos temas foram debatidos, mas o grande homenageado era o poeta Manuel Bandeira. Em julho de 2010 está prevista mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty.
 

Especial para Terra