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Arte e Cultura
História da Bienal de São Paulo
 
Juan Guerra/Fundação Bienal de São Paulo/Divulgação
Detalhe de Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, em São Paulo
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A Fundação Bienal de São Paulo foi criada em 1962, mas suas origens remontam aos anos 40, ao processo de modernização da sociedade brasileira e, em particular, à criação das bases institucionais e culturais que levaram São Paulo a ingressar, definitivamente, no circuito internacional das artes do século XX.

Até a década de 40, o investimento do Governo na produção cultural e artística modernas se restringia ao Rio de Janeiro, capital do país. No restante do Brasil, não havia programas culturais de maior amplitude que levassem a marca do Estado.

Ao contrário do Rio de Janeiro, em São Paulo a produção artística esteve historicamente ligada à iniciativa privada e de uma forma bastante peculiar, já que não havia grandes investimentos com bases empresariais. Homens ricos da elite tradicional limitavam-se a fazer pequenas doações de partes de heranças, acudiam aos artistas com aquisições de peças ou quadros, intermediavam relações e contatos com políticos.

Nos anos 40, um grupo remanescente do movimento pioneiro da Semana de Arte Moderna, ampliado por representantes da elite paulista, por novos artistas e intelectuais recrutados na recém-criada Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, procurava fundar associações e clubes com o intuito de divulgar a arte moderna brasileira e internacional. No entanto, com a guerra mundial em curso, tornava-se difícil um contato mais estreito com a Europa, que fora a principal fonte de inspiração e de formação dos artistas modernos e da elite paulista durante os primeiros 20 anos do século passado. Assim, o Brasil assistia a um processo de substituição das referências do modelo europeu para o modelo norte-americano, com a implementação da chamada "Política de Boa Vizinhança", que teve como coordenador o milionário norte-americano Nelson Rockefeller, dono da Standard Oil e presidente do Museum of Modern Art (MoMA). Nesse contexto, a discussão sobre uma instituição voltada para a preservação e divulgação da arte moderna começou a tomar corpo, inspirada em instituições norte-americanas.

Quando a guerra acabou, o Brasil dispunha de divisas acumuladas para investimentos nos diversos setores da economia e da cultura. O intercâmbio internacional também era favorável, já que os países europeus, em reconstrução, colocavam sua produção artística no mercado a preços baixos. Com esse ambiente propício, só faltava quem investisse recursos para dar continuidade ao processo de institucionalização da cultura.

Os dois grandes museus, Museu de Arte de São Paulo (MASP) e Museu de Arte Moderna (MAM), fundados no final dos anos 40, resultaram da iniciativa dos setores emergentes da sociedade paulista, que desejavam se colocar como representantes de um projeto modernizador compatível com a construção de seus parques industriais.

O Museu de Arte de São Paulo (MASP) foi criado, em 1947, por Assis Chateaubriand, jornalista paraibano e proprietário da primeira grande rede de comunicações do Brasil. Para construção do acervo do Museu, associou-se ao galerista italiano Pietro Maria Bardi, que deu à Instituição um caráter bastante dinâmico. Desenvolveu atividades didáticas nas áreas de história da arte, publicidade, design e construiu um dos mais importantes acervos de artes plásticas da América Latina. A formação do acervo do MASP, no entanto, não foi feita por meio de critérios críticos e técnicos de organização e sim pela oportunidade da hora e esteve sempre bastante centralizada na figura do "mecenas" e de seu principal colaborador.

Ao contrário do MASP, o Museu de Arte Moderna (MAM), criado em 1948 pelo industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, contou desde o início com a participação de representantes de todas as áreas das artes e da cultura, que traçaram o perfil e a política de aquisição e de formação do seu acervo. Ciccillo Matarazzo financiou de seu próprio bolso a compra das obras para a coleção do Museu e fomentou seu posterior crescimento com o "Prêmio Aquisição" promovido pelas futuras bienais. Os estatutos do Museu previam a criação de comissões de cinema, arquitetura, folclore, fotografia, gráfica, música, pintura e escultura. Sua sede foi instalada numa sala do edifício dos Diários Associados, na rua 7 de Abril, cedida por Assis Chateaubriand.

Em 8 de março de 1949, o Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurado com a célebre exposição Do Figurativismo ao Abstracionismo, que reuniu 51 artistas, entre os quais três brasileiros: Cícero Dias, Waldemar Cordeiro e Samson Flexor.

Logo após a inauguração do MAM, Ciccillo Matarazzo propôs a realização de uma grande mostra internacional inspirada na Bienal de Veneza, enfrentando a resistência de alguns membros da Diretoria que achavam prematura uma aventura de tais proporções. Assim mesmo, Ciccillo definiu o ano de 1951 para a realização do evento e o montante de recursos destinado à premiação.

A maior dificuldade para realização da mostra foi convencer os artistas dos países estrangeiros - principalmente os europeus - a participar da aventura de mandar obras de arte para um país que não tinha presença política nem cultural no cenário mundial. Ciccillo percebeu que somente por meio de correspondência e convites a mostra seria um fracasso. Solicitou, então, a Yolanda Penteado, sua esposa, que fosse pessoalmente à Europa fazer os convites a artistas e representações estrangeiras para participarem do evento. Como embaixatriz da primeira Bienal, Yolanda superou todos os desafios com competência e absoluto sucesso.

Como local para abrigar a I Bienal, a equipe do MAM obteve da Prefeitura de São Paulo a cessão do espaço hoje ocupado pelo MASP - a esplanada do Trianon -, onde havia um antigo salão de baile. Sobre a estrutura do salão, os arquitetos Luís Saia e Eduardo Kneese de Mello projetaram um polígono de madeira que, construído, garantiu uma área de exposição de 5.000 m2. A I Bienal foi inaugurada em 20 de outubro de 1951. O Pavilhão adaptado recebeu 1.854 obras representando 23 países.

O êxito da I Bienal, apesar de toda improvisação, mostrou a capacidade de realização de Ciccillo e da equipe do MAM. Ainda sob o impacto do sucesso, já se programava a II Bienal, que viria a acontecer no final de 1953, abrindo as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo, sob o comando de Ciccillo Matarazzo como presidente da Comissão organizadora dos festejos. O local escolhido foi a área do Ibirapuera, na época uma várzea distante e sem nenhuma infra-estrutura urbana.

Oscar Niemeyer foi convidado a projetar o conjunto de edificações. Considerando suas dimensões, o Parque, seus edifícios e os jardins de Burle Marx foram construídos em tempo recorde. Dos sete prédios - entre pavilhões e centros de cultura propostos - foram edificados o Pavilhão das Indústrias, o Pavilhão dos Estados e o Pavilhão das Nações, ligados por uma elegante marquise. Eram integrados também ao espaço do Parque o Pavilhão da Agricultura (hoje o Detran) e o Ginásio de Esportes, este último projeto de Ícaro de Castro Mello.

Considerada uma das mais importantes Bienais, esta 2ª edição reuniu obras dos mais importantes artistas modernos e, como destaque maior, 51 telas de todas as fases Picasso, entre as quais Guernica, que, por vontade do pintor, tinha o MoMA como depositário enquanto a Espanha estivesse sob a ditadura franquista. Até então, a grande tela nunca havia deixado Nova York.

Em novembro de 1953, a II Bienal começou a ser montada ocupando o Pavilhão das Nações, onde ficaram expostas as representações dos países da Europa e do Oriente, e o Pavilhão dos Estados que recebeu as representações das Américas, do Brasil e a Mostra Internacional de Arquitetura. Eram, no conjunto, 24.000 m2 de exposição. Em 12 de dezembro a mostra foi inaugurada com a representação de 33 países e 3.374 obras.

Em 1957, A IV Bienal de São Paulo passou a ocupar definitivamente sua atual sede no Parque Ibirapuera, o Pavilhão Ciccillo Matarazzo.

Com o êxito da II Bienal, iniciava-se um período da história do Brasil em que se institucionalizavam, cada vez mais, os eventos culturais que estavam imbricados com a modernização do Estado brasileiro.

No entanto, o crescimento e o prestígio das bienais realizadas durante o período do governo Kubitschek começaram a pôr em xeque o papel do MAM como promotor das mostras. As bienais consumiam a maior parte dos esforços e das verbas arrecadadas pelo Museu, transformando-o quase que exclusivamente num escritório para sua operacionalização. Ciccillo Matarazzo resolveu, então, que era o momento de separar o MAM da Bienal, dando independência financeira e decisória a esta última.

Em 1958, o MAM já havia mudado definitivamente para o Parque Ibirapuera. No momento da mudança, ocupando espaço improvisado no segundo andar do Pavilhão Armando Arruda Pereira, atual Pavilhão Ciccillo Matarazzo, constatou-se a dificuldade quanto à organização museológica do acervo. Além da necessidade de uma reserva técnica e do correto acondicionamento das obras, havia o problema de se distinguir o que pertencia ao MAM, o que era de fato doação de Ciccillo e de Yolanda Penteado, e o que não havia sido doado e estava apenas depositado no Museu.

A forma de gerir o Museu e a vinculação do caixa da Instituição com o bolso de seu presidente resultaram numa reforma dos estatutos do MAM, em 1959. Ciccillo já preparava o caminho para separar as bienais do MAM, apesar da forte oposição dos meios intelectuais e dos artistas à extinção do Museu. Mário Pedrosa, seu diretor artístico na ocasião, fez várias tentativas junto a Ciccillo que, no entanto, resultaram infrutíferas. Em 8 de maio de 1962, já estava criada a Fundação Bienal de São Paulo, uma instituição privada sem fins lucrativos. Em janeiro de 1963, o MAM é extinto e seu patrimônio transferido para a Universidade de São Paulo.

Com mais de 70 anos de idade, Ciccillo começava a preparar sua sucessão. Em 1975, depois da realização da XIII Bienal, afasta-se definitivamente da diretoria da Fundação Bienal e, dois anos depois, em 16 de abril de 1977, falece deixando a Bienal como sua mais importante realização.

A 14ª edição da Bienal, em 1977, é o primeiro evento realizado sob o comando de um novo presidente, Oscar Landmann, sucessor de Ciccillo Matarazzo. As edições seguintes tiveram como presidentes:
15ª Bienal (1979) : Luiz Fernando Rodrigues Alves
16ª (1981) e 17º Bienal (1983): Luiz Diederichsen Villares
18ª Bienal (1985): Roberto Muylaert
19ª Bienal (1987): Jorge Wilheim
20ª Bienal (1989): Alex Periscinoto
21ª Bienal (1991): Jorge Eduardo Stockler
22ª(1994) e 23ª Bienal (1996): Edemar Cid Ferreira
24ª Bienal (1998): Julio Landmann
25ª Bienal (2002): Carlos Bratke

São 50 anos de atividades, 25 edições com a participação de 148 países, 10.660 artistas e cerca de 56.932 obras, num espaço que permitiu a estimulante convivência das artes plásticas, das artes cênicas, das artes gráficas, do design, da música, do cinema, da arquitetura e de muitas outras formas de expressão artística.

Único evento brasileiro assinalado no calendário internacional da arte e da arquitetura, há meio século a Bienal de São Paulo vem projetando o Brasil no cenário mundial, sendo considerada, junto com a Bienal de Veneza, o mais importante evento do gênero entre os mais de cinqüenta existentes no mundo.

Texto de Rosa Artigas extraído do Livro Bienal 50 Anos, São Paulo, Fundação Bienal de São Paulo, 2001
 

Redação Terra