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Arte e Cultura
Quarta, 22 de setembro de 2004, 23h25 
Curador clama pelo "retorno da arte" na 26ª Bienal
 
Márcio Lima/Divulgação
Uma das atrações é Sobressalto, obra em madeira-ripão agreste e pau roliço de autoria do brasileiro Maxim Machado
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Com entrada gratuita pela primeira vez na sua história, a Bienal de Artes de São Paulo quer transformar seu prédio no parque Ibirapuera em um "território livre". Livre para os visitantes voltarem quando quiserem, livre para os artistas viajarem em suas obras.

"Território livre, do ponto de vista do conceito do tema da Bienal, é o espaço próprio da arte, é um espaço sem dono, fora do domínio da economia e da política", disse a jornalistas o curador-geral da mostra pela segunda vez consecutiva, o alemão Alfons Hug.

Serão exibidos trabalhos de 135 artistas, de 62 países, todos os dias da semana, das 9h às 23h, até 19 de dezembro. A Bienal abre neste sábado para convidados e, no domingo, para o público.

Ao dar ênfase na parte estética das obras - ou seja, no sentido puramente visual -, em detrimento de trabalhos que tenham algum tipo de apelo social ou político, Hug optou por ir na contramão de outras bienais recentes.

"Percebi durante minhas viagens que há uma predominância de um discurso sociológico nos trabalhos de arte. Eu quero, ao contrário, privilegiar a essência da arte, isto é o que eu chamo de retorno da arte", disse Hug.

Ele comparou a edição atual com a Bienal anterior, quando escolheu como tema central as metrópoles. "Naquela Bienal, falávamos da energia, da força criativa e devassadora da metrópole. Agora teremos mais poesia, sutileza, obras extremamente sublimes."

O curador contou que praticamente todas as obras chegaram há quatro dias da abertura, e a confusão pelo espaço expositivo, onde aconteceu a conversa com jornalistas, era visível entre sons de martelos, cheiro de tinta e caixas vazias aglomeradas.

Um dos trabalhos que chegaria ainda nesta quarta-feira, um que provavelmente mais chamará atenção do público, é o do chinês Huang Yong Ping, composto por um elefante e um tigre empalhados.

PINTURAS E INSTALAÇÕES
A pintura aparece com força nesta Bienal, ao contrário de edições anteriores, como os trabalhos da brasileira Beatriz Milhazes, do chinês Chen Shaofeng, do belga Luc Tuymans e dos alemães Thomas Scheibitz, Neo Rauch e Albert Oehlen.

Boa parte delas estará na primeira metade do segundo andar, onde há uma luz natural favorável para o que o curador chamou de um "salão de pintura".

As fotografias criam um elo com os suportes, estendendo-se por pinturas, videoinstalações e esculturas. Um exemplo é a disposição das fotografias do brasileiro Caio Reisewitz, que se parecem com pinturas inspiradas no Romantismo Alemão do século 19, localizada em frente do trabalho do jovem artista equatoriano Pablo Cardoso, cujos desenhos, por sua vez, lembram fotografias.

Pintura e fotografia, portanto, somam mais de 40 por cento da exposição, mas, mesmo assim, são as instalações que ainda dominam a Bienal, com 26 por cento das criações. Os vídeos, que já estiveram mais presentes, comparecem em 14 por cento, e as esculturas, com 12.

O grande vão central do prédio projetado por Oscar Niemeyer, assim como todo o andar térreo, ficou para as esculturas e as instalações de grande porte, como a jangada do português radicado no Brasil Artur Barrio e a obra do britânico David Batchelor, uma espécie de totem colorido com chapas de acrílico e vinil, que chega até o terceiro andar.

PONTE PARA A BIENAL
Dos 80 artistas convidados - os outros vieram através das Representações Nacionais, quando um país escolhe o artista que irá representá-lo -, 20 são brasileiros.

Segundo Hug, um terço vem de São Paulo, a maioria artistas da nova geração, outro terço do Rio de Janeiro, uma geração mais consagrada, e o último terço do resto do Brasil, entre consagrados e emergentes.

Da nova geração está por exemplo Fabiano Marques, com o vídeo Mar Pequeno, no qual um homem tenta equilibrar um aparente objeto aos pedaços, no meio de rio a perder de vista. Há também Thiago Bortolozzo, que criou uma ponte com materiais precários, que começa no espaço expositivo, atravessa as vidraças do prédio, e se encerra do lado de fora.

Os organizadores da Bienal esperam receber mais de 1 milhão de visitantes, em parte pela gratuidade. Em 2002, foram 670 mil espectadores.

"Temos que acabar com esse preconceito que arte contemporânea é inalcançável", repetiu Hug, ao ser questionado sobre as ações institucionais que pretendem aproximar o público da arte, por meio das visitas monitoradas.

"Visitar uma mostra deste tipo é uma experiência subjetiva e individual. Não é uma aula de biologia ou matemática. Existe sim um esquema de apoio (as equipes de monitoria), mas no final das contas, vai ser ele (o visitante) e a obra, e só."
 

Reuters

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