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Arte e Cultura
Biografia de Fernando Sabino
 
EFE
O escritor mineiro Fernando Sabino
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"O escritor é um ser solitário que passa a vida exorcizando seus demônios", disse, certa vez, Fernando Sabino. O mineiro começou nas letras cedo e, já aos 18 anos, recebeu elogios de ninguém menos que Mário de Andrade, em 1942. De lá pra cá, o escritor nascido em 12 de outubro de 1923 produziu como gente grande, apesar de guardar o desejo de permanecer jovem, como afirma a frase que pediu para sua lápide: "nasci homem; morri menino".

Menino-prodígio
Aos sete anos já havia sido alfabetizado pela mãe e passou a freqüentar o curso primário do Grupo Escolar Afonso Pena, onde fez amizade com Hélio Pellegrino. Nesta época começou a ler com compulsão e a aprimorar seus conhecimentos com grandes autores, como Gil Vicente e João de Barros, Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco. Depois, como contou em crônicas e entrevistas, passou a devorar a obra de Eça de Queiroz e Machado de Assis.

O mineiro já se mostrou um "prodígio" aos 12 anos, apresentando um programa na Rádio Guarani (BH), o Gurilândia. Aos 13, escreveu o primeiro conto. O menino também era ativo nos esportes. Em 1934 tornou-se escoteiro (título ao qual nunca abdicou) e, em 1939, bateu recordes no nado de costas. Apesar do sucesso nos esportes, Sabino decidiu-se, aos 17 anos, pelo curso de Gramática.

As primeiras obras
Influenciado por livros de aventuras, como Winnetou, de Karl May, e pelos romances policiais de Edgar Wallace, Sax Rohmer e Conan Doyle, o garoto publicou seu primeiro conto na revista Argus, órgão da Secretaria de Segurança de Minas Gerais. Aos 15 anos, lançou o primeiro livro e um jornalzinho chamado A Inúbia. A experiência rendeu, no mesmo ano, artigos, crônicas e contos nas revistas Alterosas e Belo Horizonte.

Nesta época, o mineiro escreveu um artigo de crítica sobre o dicionário de Laudelino Freire, publicado no jornal de letras Mensagem, graças ao diretor Guilhermino César, escritor mineiro que se torna amigo e seu grande incentivador. João Etienne Filho, secretário de O Diário, é outro a estimulá-lo no início de sua carreira. Sabino passa a publicar artigos literários, juntamente com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, com quem manteu amizade ao longo da vida.

Em 1939, Sabino participou da Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica, empatando com Hélio Pellegrino no segundo lugar em Minas Gerais e em todo o Brasil. Os amigos viajam juntos para o Rio de Janeiro, onde recebem um medalha do então Ministro da Educação, Gustavo Capanema.

O ingresso no jornalismo
De 1941 a 1944, Sabino prestou serviço militar na Arma de Cavalaria do CPOR. Em seguida, começou o curso superior na Faculdade de Direito, mas o convívio com escritores e a indicação de seu amigo Murilo Rubião, fazem com que Sabino ingresse no jornalismo como redator da Folha de Minas.

O jornalista Marques Rebelo reuniu os primeiros contos de Sabino no livro Os Grilos Não Cantam Mais, e bancou a publicação da obra no Rio de Janeiro. O trabalho foi bem recebido pela crítica e rendeu ao mineiro uma carta elogiosa enviada pelo modernista Mário de Andrade.

Com o impulso na carreira, Sabino começa a colaborar com o jornal literário do Rio Dom Casmurro, com a revista Vamos Ler e com o Anuário Brasileiro de Literatura. Em 1942, foi admitido como funcionário da Secretaria de Finanças de Minas Gerais e também começou a dar aulas de Português no Instituto Padre Machado. Na mesma época, conheceu o poeta Carlos Drummond de Andrade. Tornaram-se amigos.

Sabino foi nomeado oficial de gabinete do secretário de Agricultura de Minas Gerais em 1943 e fez um estágio no Quartel de Cavalaria de Juiz de Fora. A experiência lhe inspira a escrever sobre episódios da época no livro O Grande Mentecapto, de 1979, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, em 1980. Neste período o escritor passa a colaborar regularmente com o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, onde conhece o poeta e músico Vinicius de Moraes, que viria a se tornar um de seus grandes amigos.

Mudança para o Rio de Janeiro
Sabino muda-se para o Rio e publica o ensaio Eça de Queiroz em face do cristianismo na revista Clima, de São Paulo. Em 1944 integra a equipe mineira na Olimpíada Universitária de São Paulo, e usa o evento como pretexto para conhecer pessoalmente Mário de Andrade.

Com boas relações e trabalho no Rio, o mineiro muda-se para a cidade, assumindo o cargo de Oficial do Registro de Interdições e tutelas da Justiça do Distrito Federal. A capital carioca amplia suas amizades e o faz conviver com grandes nomes da época, como Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Carlos Lacerda, Di Cavalcanti, Moacyr Werneck de Castro, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt, entre outros.

Em 1945, Sabino participa da delegação mineira no Congresso Brasileiro de Escritores em São Paulo, onde desafia a polícia sugerindo ao público que fosse lida a Moção de Princípios proclamada pelo Congresso, exigindo do ditador Getúlio Vargas a abolição da censura e a restauração do regime democrático, com a convocação de eleições diretas. O episódio lhe rendeu uma profunda amizade com a escritora Clarice Lispector.

Nova York
Já formado em Direito, em 1946 o escritor licenciou-se do cargo que exercia na Justiça e embarcou para os Estados Unidos ao lado de Vinicius de Moraes. Já em Nova York, trabalhou no Escritório Comercial do Brasil e, depois, no Consulado Brasileiro. Também colaborou com os jornais Diário de Notícias, Diário Carioca e O Jornal, do Rio, vendo seus textos republicados em jornais de todo o País. É nesta época que Sabino começou a escrever o romance Ponto de Partida e a obra Movimentos Simulados - trabalhos não acabados que foram reorganizados para compor Encontro Marcado. A estadia em Nova York rendeu ao autor uma série de entrevistas com nomes como Salvador Dalí e Lazar Segal.

Retorno ao Brasil
A volta ao País acontece em 1948 a bordo de um navio cargueiro, em uma viagem tumultuada por um incêndio em meio a uma tempestade. Quando chega ao Rio, é transferido para o cargo de escrivão da Vara de Órfãos e Sucessões. Logo na chegada também passa a fazer a crônica semanal no suplemento literário de O Jornal. Em 1950, reúne várias delas sobre sua experiência americana no livro A Cidade Vazia.

Em 1952 publica, em tiragem limitada, o livro A Vida Real, composto por novelas sob a inspiração de "emoções vividas durante o sono". Sabino também passa a escrever sob o pseudônimo de Pedro Garcia de Toledo. Escreve crônicas com o título geral Aventuras do Cotidiano, no Comício, "semanário independente" fundado e dirigido por Joel Silveira, Rafael Correia de Oliveira e Rubem Braga. Também colabora com a revista Manchete a partir do primeiro número, e até o seu 15º ano.

Em 1954 faz campanha política no Recife e em Fortaleza, a convite de Carlos Lacerda, e traduz um dicionário de Gustave Falubert. Depois viaja pelo sul do Brasil em companhia de Millôr Fernandes. Em reportagem para a revista Manchete e com a companhia de Otto Lara Resende, então diretor da revista, antecipa o lançamento da candidatura do general Juarez Távora à Presidência da República.

Em 1956, publica o romance O Encontro Marcado, com adaptações teatrais no Rio e em São Paulo. Apenas em 1957 abandona o cargo público e dedica-se exclusivamente à produção intelectual como escritor e jornalista, escrevendo, também, crônica diária para o Jornal do Brasil e mensal para a revista Senhor.

Uma viagem à Europa em 1959 é retratada no livro De Cabeça para Baixo. Até o ano de 1964 produz dezenas de roteiros e textos de filmes documentários para diversas empresas. Em 1960 vai a Cuba, como correspondente do Jornal do Brasil, acompanhando a comitiva de Jânio Quadros, recém-eleito presidente da República.

Entrada no mundo das editoras
Sabino retrata a revolução cubana em A Revolução dos Jovens Iluminados, da Editora do Autor, fundada por ele em sociedade com Rubem Braga e Walter Acosta. Na mesma época, Fernando Sabino lança o livro O Homem Nu pela nova editora.

Em 1964 trabalha para o governo João Goulart, exercendo as funções de adido cultural junto à Embaixada do Brasil em Londres, de onde colabora com o Jornal do Brasil, Manchete e revista Cláudia e faz crônica na BBC de Londres em programa especial para o Brasil.

O também jornalista faz a cobertura da Copa do Mundo de 1966 pelo Jornal do Brasil e, no mesmo período, desfaz a sociedade na Editora do Autor. Com Rubem Braga, funda a Editora Sabiá, lançando livros de Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Dante Milano, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Autran Dourado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Murilo Mendes, Stanislaw Ponte Preta e a série Antologia Poética, de Pablo Neruda e Jorge Luiz Borges.

A Editora Sabiá lançou durante festa no Museu de Arte Moderna, no Rio, a Revolução dentro da Paz, de Dom Hélder Câmara; Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda; O Cristo do Povo, de Márcio Moreira Alves, e Nossa luta em Sierra Maestra, de Che Guevara. A publicação do Ato Institucional que oficializa a ditadura militar barra a festa.

Os últimos anos
Já na década de 90, Sabino escreve a biografia autorizada de Zélia Cardoso de Mello, ministra da Fazenda do governo de Collor. Zélia, Uma Paixão, lançado em 91, acabou criando complicações para o escritor, devido aos escândalos da vida privada da ministra. No ano seguinte, viaja ao Chile para lançar a edição em espanhol da biografia de Zélia e, em 93, lança a trilogia Aqui Estamos Todos Nus e, em 94, o livro Com a Graça de Deus.

Em julho de 99, Sabino foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras com o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. O escritor nunca se candidatou à ABL, aliás, "por se considerar velho demais para ser imortal", como contou o amigo Alberto de Costa e Silva. Nos últimos anos, manteve-se recluso. Em 2003, ao explicar o motivo pelo qual não comemorou seus 80 anos, disse: "Meus amigos estão no São João Batista, que fecha às 18h", referindo-se ao cemitério que escolheu para ser enterrado. Sabino sofreu por dois anos de câncer no pâncreas, que o matou um dia antes de seu 81° aniversário.
 

Redação Terra