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Restauração de David de Michelângelo gera polêmica

17 de julho de 2003 14h20

A restauração do famoso David de Michelângelo criou uma grande polêmica sobre a necessidade da operação e o método escolhido para ela.

Isso não é novidade no universo das restaurações modernas já que quase todas foram envolvidas em controvérsia. A maior delas foi relativa à limpeza dos afrescos da Capela Sistina do Vaticano também criados por Michelângelo Buonarroti (1475-1564).

Agora é a vez da estátua de David, uma das mais famosas do mundo, de 5,16 metros de altura e que milhares de pessoas admiram diariamente na Galeria da Academia de Florença (Itália).

O belo pastor de Israel completará em breve 500 anos (foi exposto pela primeira vez em 8 de setembro de 1504) e, para comemorar essa data, foi planejada uma limpeza em 61 pontos da gigantesca estrutura de mármore.

Como em tantas outras vezes no passado, o alarme contra a operação foi acionado pelo professor de arte nova-iorquino James Beck, fundador da Artwatch International, que recrutou para a causa especialistas italianos e estrangeiros.

A convocação, que obteve destaque por sua publicação na primeira página do "The New York Times", atraiu outros grandes especialistas europeus, que criaram um rastro de discórdia em torno da restauração da estátua de David.

As diferenças já eram evidentes na Itália. Em março a responsável pelo trabalho, Agnese Parronchi, renunciou ao cargo por suas diferenças com o superintendente da arte florentina, Antonio Paolucci.

Agnese defendia uma limpeza de baixa intensidade e a seco, apenas com o uso de escovas suaves, borrachas especiais, pedaços de chamois e cotonetes, para a superfície da escultura não correr o risco de ser agredida.

Entretanto, Paolucci e a diretora da Galeria da Academia de Florença, Franca Falleti, são partidários da chamada limpeza "úmida", com compressas impregnadas de água destilada aplicadas sobre o mármore durante períodos de 15 a 20 minutos.

O método úmido será empregado a partir de setembro, com uma nova restauradora no comando da operação, Cinzia Parnigoni, que terá como prazo final de trabalho a Semana Santa de 2004.

A polêmica sobre a limpeza da estátua de David tem mais arestas, já que Parronchi e Paolucci, confrontados pelos métodos, são aliados no que classificam como "oportunismo" do americano Beck.

Eles acusam o professor de arte de apenas se fazer notar quando estão em questão grandes obras da História da Arte. A diretora da Galeria da Academia pede "silêncio", com o argumento de que estas polêmicas não ajudam a melhorar o resultado de um processo que não deixa de ser "extremamente delicado".

O David de Michelanglo completa a grande tríade de esculturas do artista, ao lado da Pietá e de Moisés. A estátua está acostumada a estas e outras intempéries de maior tamanho que o perseguem ao longo de sua história.

Encarregada pelo Governo de Florença de simbolizar o poder e a liberdade da República, a estátua foi sacudida por um raio, que a atingiu na base no ano de 1512.

Pouco depois, em 1527, a escultura teve o braço esquerdo amputado durante uma revolta popular contra a família Médici. O membro que foi recolocado no lugar sem muito cuidado e a imperfeição tornou-se muito aparente.

Em 1843 uma limpeza com ácido clorídrico eliminou a cera e a pátina originais. Desde 1873, o David está na Galeria da Academia, para onde foi levado após ser retirado da praça da cidade, onde há uma réplica.

Seu último percalço é recente. Em 1991, um homem chamado Pietro Cannata destruiu a pancadas um dedo do pé esquerdo, que depois foi reconstruído com o mesmo pó.

EFE
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