Apresentado no festival que vai até domingo, "Payback" (recuperação de investimento, numa tradução literal) está em competição pelo grande prêmio de documentário internacional.
A cineasta, a canadense Jennifer Baichwal, que já se apresentou outras vezes em Sundance, admite que, no começo, rejeitou a proposta de adaptar "Payback: Debt and the Shadow Side of Wealth".
O livro de Margaret Atwood, que aborda o tema da dívida pública, foi lançado em 2008, antes da explosão da crise financeira e econômica.
"Achava que seria uma produção linear sobre dinheiro e não estou acostumada a fazer filmes de investigação. Mas quando li o livro, fiquei fascinada", declarou ela à AFP.
No entanto, tinha que encontrar a maneira de expor em imagens as reflexões de Atwood, uma representante emblemática da literatura canadense, autora de trabalhos de reflexão, ao mesmo tempo atraentes, como "O Conto da Aia" e o livro "Assassino Cego".
"Pensei que a única forma de apresentar um filme sobre o livro seria através de histórias viscerais, de imagens presentes da dívida e da relação íntima entre o credor e o devedor", explicou Baichwal.
Assim, dividi o filme em quatro partes - a dívida financeira, a moral, a legal e a ambiental - passando livremente de uma a outra entrecruzando-as com imagens do trabalho de Margaret Atwood.
"Todas as minhas produções têm um final aberto. Não são lineares", precisou Baichwal. "O que me interessa é criar um espaço para pensar as coisas de maneira diferente".
Os dois planos mais fortes são os dedicados às dívidas financeira e moral. Para o primeiro, Bachwal se interessou por uma organização de imigrantes encarregados da colheita de tomates na Flórida (sudeste) e que obteve, graças à própria mobilização, melhoras em suas condições de trabalho.
A segunda, que se passa na Albânia, está ilustrada por um trágico "impasse" em duas famílias, depois de um conflito entre dois de seus membros. Um atirou no outro e falhou, o que valeu - segundo um código ancestral código de conduta albanês - o confinamento do atacante na casa da vítima até ser perdoado, o que pode levar vários anos.
A dívida legal está ilustrada pelo perambular de um homem que deixa a prisão, enquanto que o enfoque ambiental aborda as consequências da maré negra provocada pela empresa britânica BP no Golfo do México em 2010.
Baichwal se declara surpreendida com as coincidências entre sua fita e os sobressaltos econômicos mundiais que aconteceram depois da rodagem.
"Comecei o filme depois do ''crack'' americano de 2008, pensando que quando o concluísse seria uma história antiga", contou. "Mas (a crise) prosseguiu e, agora, temos todos estes acontecimentos na Grécia e nos países europeus".
Segundo a cineasta, o filme não tem a intenção de fazer propostas para sair da crise, mas provocar reflexão.
"Como disse Margaret Atwood, parece que o ser humano possui, talvez de maneira inata, um sentido de equidade, de equilíbrio", disse. De qualquer forma, é preciso abrir as mentes das pessoas sobre a maneira de pensar a dívida", considerou.
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